Kauã ficou quieto durante o resto do almoço.
Quieto daquele jeito que me deixava mais preocupada do que quando ele respondia atravessado.
Miguel falava sem respirar, contando uma história sobre um menino da turma que tinha levado bronca porque colocou papel dentro do estojo de outro. Malu tentava interromper a cada três segundos para explicar alguma coisa sobre Sofia, a caneta que apagava e uma música que tinham cantado antes de ela sair da escola.
Kauã, nada.
Só comia.
De vez em quando, olhava para a panela no fogão.
Depois para mim.
Eu fingia que não percebia.
— Mãe — Miguel chamou.
— Oi.
— O Kauã falou que eu pareço um frango molhado.
Olhei para ele.
— Falou por quê?
— Porque meu cabelo tá feio.
— Eu falei que tá espetado — Kauã respondeu, sem erguer os olhos.
— Você falou frango.
— É a mesma coisa.
— Não é.
Malu entrou na discussão:
— Frango não tem cabelo.
Miguel olhou para ela.
— Tem pena.
— Pena não é cabelo.
— Então o Kauã mentiu.
Passei a mão no rosto.
— Meu Deus do céu.
Kauã soltou uma risada curta.
Foi a primeira desde que chegou.
Aquilo me tranquilizou um pouco.
— Come logo — eu mandei. — E vocês dois também.
Malu terminou primeiro.
Ou melhor, decidiu que tinha terminado.
Empurrou o prato.
— Acabou.
Olhei.
Tinha arroz.
Feijão.
Metade do ovo.
— Não acabou, não.
— Pra mim acabou.
— Pra mim não.
— Mas quem tá comendo sou eu.
Kauã cobriu a boca para não rir.
Apontei o garfo para ele.
— Nem começa.
Malu aproveitou.
— Eu tô cheia.
— Mais três garfadas.
— Duas.
— Três.
— Duas e meia.
Fiquei olhando para ela.
— Como é que você vai comer meia garfada?
Ela deu de ombros.
— Pequena.
Miguel começou a rir.
Até eu.
— Vai. Duas e meia.
Ela fez exatamente isso.
Duas garfadas normais e uma terceira com três grãos de arroz.
— Pronto.
— Vai lavar o prato.
— O Miguel não lavou o dele.
— Miguel ainda tá comendo.
Ela pegou o prato reclamando baixinho.
Era assim.
Teimosa.
Engraçada.
Esperta.
E, quando queria, capaz de negociar até quantidade de arroz.
Fiquei olhando enquanto ela ia até a pia.
Aquela mesma menina tinha sido retirada da escola porque levantou algumas vezes e demorou para começar uma atividade.
A comparação me incomodou de novo.
Não porque Malu fosse fácil.
Não era.
Nenhum dos meus filhos era.
Miguel perguntava até o que ninguém tinha perguntado.
Kauã discutia como se tivesse quarenta anos.
Malu queria decidir até a quantidade de espuma no copo de achocolatado.
Mas em casa ninguém pensava que qualquer dificuldade significava que ela precisava ser mandada embora.
A gente lidava.
Errava.
Se irritava.
Tentava de novo.
Na escola, parecia que qualquer desconforto virava motivo para ligar para mim.
— Mãe.
Olhei para Kauã.
— Oi.
— Você vai voltar naquela casa?
— Não sei.
— Ela falou o quê?
— Que depois conversa comigo.
Ele franziu a testa.
— Isso é r**m.
— Eu sei interpretar mensagem, Kauã.
— Só tô falando.
— E eu tô dizendo que sei.
Ele levantou as mãos.
— Tá bom.
Mas não estava.
Eu sabia.
Ele terminou de comer e levou o prato para a pia sem eu pedir.
Aquilo também me incomodou.
Adolescente prestativo do nada era quase sempre sinal de problema.
— Vai fazer o quê agora?
— Nada.
— Tem dever?
— Depois eu vejo.
— Vê agora.
— Mãe…
— Kauã.
Ele suspirou.
— Tá.
Pegou a mochila e foi para o quarto.
Miguel correu atrás.
— Posso jogar no seu celular?
— Não.
— Só dez minutos.
— Não.
— Cinco.
— Miguel, sai.
— Dois.
— MÃE!
— Miguel, deixa teu irmão respirar.
Ele voltou emburrado.
— Ninguém deixa eu fazer nada.
Malu apareceu na sala já com uma pulseira em cada braço.
— Vamos brincar.
— De quê?
— Show.
Eu devia ter percebido o perigo nessa palavra.
— Brinca baixo.
— Tá.
Cinco minutos depois, a sala parecia um baile.
A televisão estava no volume que provavelmente dava para ouvir duas casas abaixo, e Malu segurava uma escova de cabelo como microfone.
— MARIA LUIZA!
Ela nem escutou.
Entrei na sala.
— Malu!
Ela parou de cantar.
— Oi?
— Abaixa isso.
— Mas é a música!
— Pode continuar sendo a música mais baixo.
— A gente tá no show.
Miguel estava em cima do sofá pulando.
— E você desce daí agora.
— Eu sou o dançarino.
— Vai ser o dançarino sem dente se cair.
Ele desceu.
Malu reduziu o volume um pouco.
— Mais.
— Mãe!
— Mais.
Ela abaixou.
— Agora tá sem graça.
— A vida é cheia de decepção.
Ela me olhou séria.
— Você tá chata hoje.
Kauã gritou do quarto:
— Hoje?
Peguei uma almofada e joguei na direção da porta.
Ele riu.
— Engraçadinho.
Voltei para a cozinha.
Lavei os pratos e comecei a separar roupa.
Era impressionante como dia perdido de trabalho não significava dia de descanso.
Tinha roupa.
Casa.
Banho de criança.
Lanche.
Janta.
Uniforme para o dia seguinte.
E cabeça funcionando sem parar.
Enquanto eu estendia uma camiseta de Miguel, Malu apareceu de novo.
— Mãe.
— Hum.
— Amanhã eu posso ficar até acabar?
Parei.
— Até acabar o quê?
— A escola.
Meu braço ficou suspenso com a camiseta na mão.
— Claro.
— Mesmo se eu ficar agitada?
Respirei fundo.
— Malu, quem falou que você ficou agitada?
— A tia Regina.
— E o que você acha que é ficar agitada?
Ela pensou.
— Não ficar quieta.
— Você tava fazendo bagunça?
— Não.
— Gritando?
— Não.
— Batendo em alguém?
— Não.
— Então?
Ela mexeu na pulseira.
— Eu levantei.
Sentei na beirada do tanque.
— Filha, escuta. Às vezes a professora vai pedir pra você sentar e você precisa obedecer. Às vezes vai ter atividade que você não gosta e precisa fazer mesmo assim.
Ela fez cara de sofrimento.
— Matemática.
— Principalmente matemática.
— Não gosto.
— Eu também não gostava.
— Então eu posso não fazer.
— Não foi isso que eu falei.
Ela riu.
— Mas uma coisa é você não querer fazer uma atividade. Outra coisa é achar que por isso você não pode ficar na escola.
Ela ficou me olhando.
— Eu posso ficar?
— Pode.
— Todo dia?
A pergunta veio simples.
Mas me atingiu.
— Todo dia que tiver aula.
— Até a hora de ir embora?
— Até a hora de ir embora.
Ela sorriu.
— Tá.
E saiu.
Fiquei parada com a roupa molhada na mão.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez aquela pergunta não significasse nada.
Criança perguntava tudo.
Mas alguma coisa em mim não gostou da facilidade com que ela precisava confirmar que podia ficar.
Terminei de estender a roupa.
No fim da tarde, minha mãe apareceu.
Célia entrou sem bater, como sempre.
— Tem café?
— Tem.
— Então eu vim na hora certa.
— Você sempre vem na hora certa quando tem café.
Ela largou a bolsa na cadeira e beijou as crianças.
Minha mãe era daquele tipo que perguntava depois.
Primeiro olhava.
Observava.
Juntava peça.
Depois falava.
Ela me viu sentada à mesa com o caderno de contas aberto.
— Perdeu trabalho?
Levantei os olhos.
— Como você sabe?
— Você tá em casa três da tarde com essa cara.
Servi café para ela.
— Escola ligou de novo.
— Malu?
Assenti.
— O que aconteceu?
— Não quis fazer matemática, levantou umas vezes.
Minha mãe bebeu um gole.
Esperou.
— Só?
— Segundo eles, ela tá com dificuldade de adaptação.
Célia olhou para a sala.
Malu e Miguel estavam brigando pela escova-microfone.
— Dificuldade de adaptação?
— É.
Minha mãe arqueou a sobrancelha.
— Essa menina se adapta até em festa que não foi convidada.
Eu ri.
— Mãe.
— Tô mentindo?
Não estava.
Ela colocou a xícara na mesa.
— E você vai fazer o quê?
— Amanhã ela volta.
— Isso eu sei.
— Vou prestar atenção.
— Prestar atenção em quê?
Fechei o caderno.
— No jeito que eles falam dela.
Minha mãe ficou séria.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não sei.
E era verdade.
Eu ainda não sabia.
Não tinha prova de nada.
Não tinha reunião.
Não tinha denúncia.
Tinha só uma sensação.
Uma palavra repetida demais.
Uma filha saindo cedo demais.
E contas chegando no prazo normal.
Kauã apareceu no corredor.
— Vó.
— Fala, meu filho.
Ela abriu os braços e ele foi abraçá-la, tentando manter pose de adolescente que não precisava de carinho.
Minha mãe apertou.
— Tá magro.
— A senhora fala isso toda vez.
— Porque toda vez você tá.
Ele riu.
Depois os olhos dele foram para meu caderno de contas.
De novo.
Eu fechei de vez.
— Kauã, vai ajudar Miguel no banho.
— Por quê eu?
— Porque eu mandei.
— Ele sabe tomar banho.
Miguel gritou da sala:
— Sei mesmo!
— Mas não sabe lavar a cabeça direito.
— Sei sim!
— Ontem saiu com shampoo na orelha.
Célia começou a rir.
— Vai, menino. Ajuda teu irmão.
Kauã revirou os olhos, mas foi.
Observei ele sair.
Minha mãe acompanhou meu olhar.
— Que foi?
— Nada.
— Rafaela.
— Ele tá preocupado com dinheiro.
— Quantos anos ele tem?
— Quinze.
— Então manda ele se preocupar com escola.
— É o que eu faço.
Minha mãe apontou para mim.
— Então continua.
— Fácil falar.
— Não falei que era fácil.
Ficamos em silêncio.
Da sala veio a voz de Malu aumentando a música de novo.
— MARIA LUIZA!
— Foi sem querer!
Minha mãe riu.
— Sem querer ela apertou o volume umas dez vezes?
— Essa menina ainda me enlouquece.
Célia tomou mais café.
— Ainda bem.
Olhei para ela.
— Como assim?
— Criança que dá trabalho em casa porque canta, corre, briga com irmão e não quer fazer matemática é criança vivendo.
A frase ficou.
Não porque minha mãe estivesse fazendo discurso bonito.
Ela nem era disso.
Mas porque era simples.
Malu estava vivendo.
E eu começava a desconfiar de que, na escola, estavam querendo que ela coubesse num espaço tão apertado que qualquer movimento fora do esperado virava problema.
Naquela noite, antes de dormir, arrumei a mochila dela.
Caderno.
Estojo.
Lancheira.
A pulseira amarela que ela queria mostrar para Sofia.
Malu apareceu de pijama.
— Amanhã você me busca?
— No horário normal.
— Não antes?
— Não antes.
Ela sorriu.
— Tá bom.
Beijou meu rosto e saiu.
Fiquei olhando a mochila por alguns segundos.
Depois fechei o zíper.
Eu ainda não sabia o tamanho da briga que estava começando.
Só sabia que, no dia seguinte, minha filha entraria naquela escola.
E eu queria que ela saísse de lá no mesmo horário que todas as outras crianças.