2. Rafaela

1908 Words
O ônibus parecia parar em todos os pontos justamente porque eu estava com pressa. Eu olhava para a hora no celular, guardava, respirava, tornava a olhar dois minutos depois, como se o relógio pudesse se sensibilizar com a minha situação e resolver andar mais devagar. Onze e sete. Onze e nove. Onze e doze. A escola tinha ligado às dez e vinte e três. Malu estava esperando por mim havia quase uma hora. E mesmo sabendo que ela não estava doente, não estava machucada e não tinha acontecido nenhuma emergência, meu corpo não entendia isso. Corpo de mãe era uma praga. A cabeça podia repetir dez vezes que estava tudo bem. O coração continuava agindo como se tivesse alguma coisa pegando fogo. O ônibus freou com força. Uma senhora que estava sentada perto da porta levantou e eu quase comemorei. — Vai sentar, minha filha. — Obrigada. Caí no banco como se tivesse caminhado quilômetros. Na verdade, ainda caminharia. A escola não ficava no mesmo caminho da casa onde eu trabalhava. Eu precisava descer, atravessar parte do bairro, pegar outro ônibus e depois andar. Tudo aquilo que parecia simples quando alguém dizia: “A senhora precisa vir buscá-la.” Precisava. Como se “vir” fosse só levantar de uma cadeira. Como se eu estivesse sentada na sala de casa esperando a escola me chamar. Abri a conversa com Dona Paula. Nenhuma mensagem. Pior. Quando a pessoa brigava, pelo menos a gente sabia onde estava pisando. Silêncio era terreno escorregadio. Pensei em mandar que eu voltaria. Apaguei antes de enviar. Eu nem sabia a que horas sairia da escola. E ainda precisava descobrir o que tinha acontecido de verdade. O ônibus andou mais alguns metros e parou de novo. Encostei a cabeça no vidro. Naquela manhã eu tinha acordado às cinco e vinte. Antes do despertador. Acontecia muito. Meu corpo já tinha aprendido o horário de levantar antes mesmo do celular. Primeiro café. Depois lancheira. Depois roupa. Depois acordar Kauã. — Kauã. Nada. — Kauã! Um barulho vindo do quarto. — Já tô acordado. Mentira. Esperei trinta segundos. — KAUÃ! — Caraca, mãe! — Caraca é eu ter que te chamar três vezes! Miguel apareceu no corredor abraçado ao travesseiro. — Hoje não tem escola. — Tem. — Mas eu tô cansado. — Eu também. Malu surgiu atrás dele já uniformizada pela metade, com a blusa colocada e o short do pijama ainda nas pernas. — Mãe, cadê minha presilha amarela? — Não sei. — Eu quero a amarela. — Pega outra. — Mas a Sofia vai de amarelo. — Malu, eu não tenho condição de procurar presilha cinco e meia da manhã. Ela colocou as mãos na cintura. — É seis horas. Eu olhei para o relógio. Seis e dois. — Piorou. Vai trocar esse short. Foi essa menina que a escola chamou de “resistente à rotina”. Se eles vissem a resistência dela para usar uma presilha diferente, talvez mandassem chamar o Exército. Sorri sozinha. Foi um sorriso pequeno. Durou pouco. Porque logo me lembrei de que tinha deixado Malu sorrindo no portão. Ela tinha dado dois passos, voltado correndo e me abraçado. — Esqueci. — Esqueceu o quê? — Beijo. Beijou minha bochecha e saiu. Não parecia uma criança sofrendo por estar na escola. Claro que isso não significava que não pudesse ter acontecido alguma coisa depois. Mas era exatamente por isso que eu queria entender. Alguma coisa. Não palavra bonita. Não “adaptação”. Não “agitação”. Alguma coisa que tivesse começo, meio e fim. Desci no ponto seguinte e caminhei até a outra parada. O sol estava pior. Minha camisa grudava nas costas e a bolsa pesava no ombro. Passei em frente a uma lanchonete e senti cheiro de salgado. Minha barriga respondeu. Eu tinha tomado café às seis. Olhei o preço na placa. Nem parei. O dinheiro da passagem já tinha virado gasto que eu não planejei. O segundo ônibus demorou. Quando finalmente apareceu, veio cheio. Entrei apertada entre uma mulher com duas sacolas e um rapaz com mochila nas costas. O celular vibrou. Meu coração pulou. Era Kauã. Busco o Miguel que horas? Respondi: No horário normal. E vai direto pra casa. Ele mandou: blz Eu digitei: E não esquece sua irmã Parei. Apaguei. Malu estaria comigo. Por causa daquela ligação. Guardei o telefone. Foi aí que me deu raiva de novo. Não aquela raiva quente do telefone. Uma raiva mais cansada. Porque a escola não tinha tirado apenas Malu da aula. Tinha mexido na logística da casa inteira. Se eu demorasse demais, talvez precisasse levar Malu comigo para buscar Miguel. Talvez Kauã tivesse que fazer isso. Talvez eu perdesse o resto da diária. Talvez Dona Paula encontrasse outra pessoa. Tudo começava num telefonema de dois minutos. Desci do ônibus quase meio-dia. Ainda caminhei duas ruas até a escola. Quando avistei o portão azul, diminuí o passo. Não porque tivesse cansado. Porque comecei a procurar alguma coisa. Movimento diferente. Funcionário na entrada. Criança chorando. Qualquer sinal de que tinha acontecido algo sério. Nada. O pátio estava silencioso daquele jeito de escola em horário de aula. Apertei o interfone. — Boa tarde. Sou mãe da Maria Luiza. O portão destravou. Entrei. Uma funcionária da secretaria levantou os olhos. — Senhora Rafaela? — Sou eu. Ela me reconheceu rápido demais. Isso também me incomodou. — Pode aguardar um momento. — Onde está minha filha? — Na sala da coordenação. Meu coração apertou. — Ela está bem? — Está. Caminhei até lá antes mesmo de ela terminar de indicar. A porta estava aberta. E foi aí que eu parei. Malu estava sentada numa cadeira pequena com uma folha apoiada no colo. Desenhando. Calma. Tão calma que demorou alguns segundos para perceber minha presença. Quando levantou a cabeça, abriu um sorriso. — Mãe! Correu até mim. — Oi, meu amor. Abracei. Passei a mão pelo cabelo. Nenhum choro. Nenhum rosto inchado. Nenhuma aparência de quem tinha vivido uma manhã impossível. — Você tá bem? — Tô. — Aconteceu alguma coisa? Ela pensou. — Eu não quis fazer matemática. Olhei para Regina, que estava atrás da mesa. — Só isso? Malu continuou: — A tia falou pra sentar. Eu levantei. — Por quê? — Eu queria beber água. — E depois? — Depois eu sentei. Simples. Do jeito que criança contava. Regina puxou uma cadeira. — Senhora Rafaela, sente um pouquinho. Eu não sentei. — Prefiro entender primeiro o que aconteceu. Ela ajeitou alguns papéis. — Como expliquei pelo telefone, hoje a Malu apresentou resistência a algumas propostas. — Ela acabou de me dizer que não quis fazer matemática e levantou para beber água. — Não foi apenas isso. — Então o que mais foi? Regina olhou para Malu. — Podemos conversar ali fora? — Pode falar comigo aqui. — Algumas questões são de adulto. Malu franziu a testa. — Eu sou criança. Eu quase ri. Regina não. — Malu, querida, você pode ficar desenhando mais um pouquinho? — Eu vou embora? A pergunta veio animada. E aquilo me deu uma pontada. Porque para ela, ir embora mais cedo talvez parecesse prêmio. Ela ainda não entendia o que cada saída daquela fazia. — Daqui a pouco a gente vê — respondi. Fui com Regina para o corredor. Cruzei os braços. — Pode falar. Ela respirou. — Nós percebemos que ela ainda não está totalmente adaptada à dinâmica da turma. A mesma frase. Outra vez. — O que exatamente significa isso? — Ela precisa de mais mediação em alguns momentos. Levanta, conversa fora de hora, às vezes se recusa a iniciar atividades… — Criança de oito anos faz isso. Regina apertou os lábios. — Sim, mas precisamos considerar as particularidades dela. — Quais particularidades? Silêncio. Era impressionante como as pessoas gostavam de mencionar “particularidades” sem dizer quais eram. — A síndrome de Down exige alguns cuidados. — Quais cuidados ela precisava hoje que vocês não conseguiram dar? Regina mexeu numa caneta. — Não estamos dizendo que não conseguimos. — Então por que me chamaram? Ela desviou o olhar por um instante. — Porque entendemos que seria melhor ela descansar. — Ela estava cansada? — Não exatamente. — Chorando? — Não. — Em crise? — Não. — Machucada? — Não. Minha voz saiu mais baixa. — Então eu saí do trabalho, peguei dois ônibus e caminhei até aqui porque ela não quis fazer matemática na hora que vocês queriam? — Senhora Rafaela, não precisa colocar dessa forma. — Eu tô colocando da forma que eu entendi. Se estiver errada, me explica. Ela ficou quieta. Foi Helena quem apareceu no corredor. A professora de Malu vinha com alguns cadernos contra o peito. Quando me viu, diminuiu o passo. — Rafaela. — Oi, professora. Os olhos dela foram até Regina. Depois voltaram para mim. — Você veio buscar a Malu? — Me chamaram. Helena apertou os cadernos. Não falou nada. Mas alguma coisa no rosto dela mudou. Pequena. Quase nada. Só que eu vi. — Professora, ela estava impossível hoje? Regina respondeu antes. — Nós já estamos conversando. Olhei para Helena. — Eu perguntei pra professora. Helena hesitou. — A Malu teve dificuldade para começar uma atividade. — E depois? — Depois ela começou. Regina virou o rosto. Eu senti alguma coisa dentro de mim encaixar. — Ela começou? — Sim. — Então ela estava fazendo a atividade? Helena assentiu. — Estava. Olhei para a porta da coordenação. Malu continuava desenhando. Voltei para Regina. — E vocês me ligaram mesmo assim? — A decisão foi tomada antes. — E ninguém achou que podia ligar de novo e dizer que não precisava mais? Ninguém respondeu. A escola continuava funcionando ao nosso redor. Uma porta bateu. Uma criança riu longe. Alguém chamou outra turma. A vida seguiu. Só a minha tinha sido interrompida. Entrei na sala e peguei a mochila de Malu. Ela levantou. — A gente vai pra casa? — Vai. — Oba! Aquilo doeu mais do que eu esperava. Segurei a mão dela. Antes de sair, olhei para Regina. — Eu vou levar minha filha hoje porque eu já perdi o trabalho mesmo. Ela ficou séria. — Senhora Rafaela… — Mas da próxima vez que ligarem, eu quero saber o que aconteceu. Não quero “agitada”. Não quero “não se adaptou”. Quero saber o que ela fez, o que vocês tentaram e por que eu preciso tirar ela da escola. O corredor ficou quieto. Helena me olhava de um jeito diferente. Não como quem estava contra mim. Como quem estava pensando. Malu puxou minha mão. — Mãe, posso comprar caneta que apaga? Olhei para ela. Depois para o relógio. Doze e dezessete. Aquela manhã tinha me custado uma diária. Duas passagens que eu não devia ter gasto. E quase duas horas atravessando a cidade. — Hoje não, filha. Ela fez bico. Descemos os degraus da escola juntas. No portão, Malu soltou minha mão por um instante para pular uma rachadura na calçada. Eu fiquei observando. Ela estava falando sobre Sofia. Sobre a atividade. Sobre uma música que a turma tinha cantado. Como se tivesse tido um dia normal. Talvez tivesse. Talvez esse fosse justamente o problema. Pela primeira vez, eu não fui embora da escola pensando que precisava fazer Malu se adaptar melhor. Fui embora pensando que talvez estivesse na hora de descobrir por que a escola parecia tão desesperada para que fosse sempre minha filha a mudar.
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