3. Rafaela

1773 Words
Malu falou o caminho inteiro. Falou da Sofia, da caneta que apagava, da atividade de matemática que ela não queria fazer, do desenho que terminou na coordenação, de um menino que tinha levado biscoito recheado e não quis dividir. Tudo com a tranquilidade de quem tinha saído da escola mais cedo porque a mãe apareceu. Eu, ao contrário, fazia conta. Passagem. Diária. Mercado. Conta de luz. O dinheiro que eu ainda devia no mercadinho. E, principalmente, a possibilidade de Dona Paula simplesmente arrumar outra pessoa para limpar a casa dela. — Mãe. — Oi. — Você tá brava comigo? Parei de andar. Malu também parou. O sol batia forte na calçada, e eu senti o peso da pergunta maior do que devia. — Com você? Não. — Tá com cara de brava. — Eu tô pensando. Ela estreitou os olhos. — Você pensa com cara feia? — Às vezes. — Eu penso assim. Fez uma expressão tão exagerada, apertando a boca e enrugando a testa, que eu ri mesmo sem querer. — Para de palhaçada. Ela sorriu, satisfeita. Continuamos andando. Mas a pergunta dela ficou comigo. Você tá brava comigo? Talvez fosse assim que começava. Primeiro a escola chamava. Depois a mãe perdia trabalho. Depois a criança percebia a mãe preocupada. E, sem ninguém dizer diretamente, começava a achar que a culpa era dela. Meu celular vibrou. Dona Paula. Abri a mensagem. Rafa, hoje não precisa voltar. Depois a gente conversa. Só isso. Fiquei olhando alguns segundos. Depois a gente conversa. Frase pequena. Estrago grande. Guardei o telefone. — Vamos pra casa. — Não vai trabalhar? — Hoje não. — Por minha causa? Dessa vez parei na hora. — Não fala isso. Malu me olhou, surpresa. Abaixei um pouco para ficar da altura dela. — Escuta uma coisa. Você não tem culpa de eu ter saído do trabalho. Entendeu? Ela assentiu devagar. — Foi a escola? Respirei. — Foi uma decisão dos adultos. Não ia colocar minha filha no meio da briga. Mas também não ia deixar ela carregar uma culpa que não era dela. Pegamos o ônibus de volta. No trajeto, Malu encostou a cabeça no meu braço e dormiu. Eu fiquei olhando pela janela. Quando o ônibus entrou na região mais próxima do morro, meu corpo já estava cansado como se eu tivesse trabalhado o dia inteiro. Descemos perto da avenida. Ainda faltava caminho. Aquela era a parte que quem morava fora nunca entendia direito. Quando eu dizia que morava no Morro do Escadão, as pessoas imaginavam que eu descia do ônibus e chegava em casa. Não. Descer do ônibus era quase o começo. Atravessamos a avenida, passamos por duas ruas comerciais e seguimos até a entrada da comunidade. Malu acordou de vez quando viu a padaria. — Mãe, pão de queijo. — Hoje não. — Só um. — Malu. — Pequeno. — Não. Ela fez bico. — Você sempre fala não. — Porque você sempre pede. Ela cruzou os braços. — A vó compra. — Então pede pra sua avó. — Vou pedir. — Ótimo. Entramos. O movimento daquela hora era diferente da manhã. Gente voltando do trabalho noturno, gente saindo para trabalhar à tarde, comerciante recebendo caixa, criança pequena correndo onde não devia. Mais acima começavam as ruas estreitas. Depois vinham as vielas. Depois as escadas. E depois mais escadas. O nome Morro do Escadão não tinha sido dado por poeta. Quem morava ali sabia. Subir até a minha casa carregando sacola de mercado era exercício que academia nenhuma precisava vender. — Mãe, tô cansada. Olhei para Malu. — Já? — Minha perna tá mole. — Quer parar? Ela pensou. — Quero. Sentamos dois minutos num degrau mais largo. Não porque ela não conseguisse andar. Conseguia. Corria, pulava, dançava pela casa e ainda tinha energia para irritar os irmãos. Mas qualquer criança de oito anos cansava naquela subida. Adulto também. Eu mesma estava suando. — A gente mora muito alto — ela reclamou. — Reclama com quem fez o morro. — Quem fez? — Deus. Ela pensou de verdade. — Vou reclamar com Ele. Eu ri. — Reclama com respeito. — Deus, podia ter feito menos escada. — Assim tá bom. Ela riu e levantou. Continuamos. No caminho, passei por Cléo saindo do Mercado Dois Irmãos. — Ué, Rafa. Já voltou? Olhou para Malu. Entendeu rápido. — Escola? — Escola. — De novo? Assenti. Cléo fez uma cara que dizia mais do que qualquer comentário. — Depois passa lá. — Passo. Malu puxou minha mão. — Tô com fome. — Você almoçou na escola? — Um pouquinho. — Um pouquinho quanto? Abriu os dedos. — Assim. Não fazia sentido nenhum. — Quando chegar eu faço comida. — Arroz? — Tem. — Feijão? — Tem. — Ovo? — Também. Ela sorriu. — Então tem comida. Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Tem comida. Na cabeça dela, estava resolvido. Na minha, eu já sabia quanto restava de arroz. Quanto feijão. Quantos ovos. E quantos dias faltavam para entrar dinheiro de novo. Chegamos à parte mais alta e eu comecei a sentir o peso da bolsa no ombro. O último beco aparecia depois de uma curva estreita entre duas casas. Era pequeno. A parede de uma casa quase encostava na outra. Roupa estendida. Criança sentada no chão. Uma senhora limpando a porta. Ali era meu mundo. Não bonito daquele jeito que gente de fora gostava de fotografar de longe. Nem miserável daquele jeito que televisão gostava de mostrar. Era só o lugar onde a gente vivia. Minha casa ficava quase no fim. Porta simples. Janela com grade. Parede precisando de pintura. Uma planta sobrevivendo num vaso torto perto da entrada porque minha mãe insistia que casa sem planta parecia triste. Abri a porta. Malu entrou correndo. — Cheguei! Como se alguém estivesse esperando anúncio. — Tira o tênis. — Depois. — Agora. — Ah, mãe. — Maria Luiza. Ela voltou bufando e tirou. Larguei a bolsa em cima da cadeira. A casa estava exatamente como deixamos de manhã. Uma caneca na pia. O controle da televisão no sofá. Uma blusa de Kauã jogada numa cadeira. Peguei a blusa. — Esse menino… Joguei em cima da cama dele. Malu ligou a televisão. — Baixa. — Tá baixo. — Isso não é baixo. Ela diminuiu dois pontos. — Agora. Fui para a cozinha. Abri o armário. Arroz suficiente. Feijão também. Três ovos. Abri a geladeira. Meio tomate. Uma garrafa de água. Margarina. Um pedaço pequeno de queijo. Olhei por alguns segundos. Fechei. Abri de novo, como se alguma coisa pudesse aparecer. Nada. Meu celular vibrou. Kauã. vou buscar o Miguel Respondi: Vai direto pra casa depois. Ele mandou um joinha. Coloquei arroz para esquentar. Malu apareceu na cozinha. — Posso mexer? — Não. — Eu sei mexer. — Eu sei que sabe. Mesmo assim, não. Ela encostou na pia. — A professora falou que eu levantei muito. Continuei mexendo o feijão. — Levantou? — Duas vezes. — E você não quis fazer matemática. — Eu não gosto daquela conta. — Não gostar não quer dizer que não precisa fazer. Ela abaixou a cabeça. — Eu fiz depois. Olhei para ela. — Eu sei. — A Helena me ajudou. Assenti. — Então tá vendo? Você conseguiu. Ela sorriu pequeno. Depois perguntou: — Amanhã eu vou pra escola? A colher parou na minha mão. Virei. — Claro que vai. — Mesmo eu levantando? Meu peito apertou. Desliguei o fogo. — Malu, olha pra mim. Ela olhou. — Você vai pra escola porque escola é lugar de criança. Você pode errar, pode não gostar de atividade, pode ficar irritada. Igual qualquer outra criança. Isso não quer dizer que você tem que ir embora. Ela ficou me encarando. — Então amanhã eu vou? — Vai. — A Sofia vai levar a caneta. Suspirei. — Eu sabia que era isso. Ela riu e correu para a sala. Fiquei sozinha na cozinha. A casa parecia menor quando eu estava preocupada. Peguei um caderno velho que ficava em cima da geladeira. Era onde eu anotava contas. Luz. Mercado. Passagem. Internet. Material das crianças. Comecei a somar. A diária daquele dia já não existia. Se Dona Paula não me chamasse mais, seria menos um dia fixo por semana. Fiz a conta de novo. O resultado continuou r**m. Sentei à mesa. Passei a mão pelo rosto. — Vou dar um jeito. Falei sozinha. Era uma frase que eu usava tanto que já tinha perdido o significado. A porta abriu. Kauã entrou primeiro. Miguel veio atrás, arrastando a mochila. — Mãe! Miguel correu. — Você tá em casa! — Tô. Kauã olhou para Malu. Depois para mim. — Ligaram de novo? Assenti. Ele ficou sério. — Por quê? — Disseram que ela tava agitada. Malu respondeu da sala: — Eu levantei duas vezes! Kauã olhou para mim. — Por isso? — Parece que sim. Ele largou a mochila. — E você perdeu o trabalho? Não respondi na hora. Erro. Porque Kauã entendia silêncio melhor do que eu gostaria. — Mãe. — Eu resolvo. — Você perdeu? — Kauã, não começa. — Só perguntei. — E eu já falei que resolvo. Ele ficou quieto. Mas alguma coisa mudou no rosto dele. Eu conhecia meu filho. Aquele silêncio não era concordância. Era pensamento. Peguei os pratos. — Vai lavar a mão. Vamos comer. Miguel começou a contar alguma história da escola. Malu interrompeu. Kauã mandou os dois pararem de falar ao mesmo tempo. Eu coloquei arroz, feijão e ovo nos pratos. A casa encheu de barulho outra vez. Era assim quase todo dia. Bagunça. Briga. Risada. Conta. Amor. Cansaço. Tudo misturado. Sentei com eles. Por alguns minutos, consegui não pensar na escola. Até olhar para Kauã. Ele estava comendo devagar, olhando para o prato. Quieto demais. Depois ergueu os olhos e perguntou: — Quanto você perdeu hoje? Meu garfo parou. — Não é problema seu. — Eu moro aqui também. — E tem quinze anos. — E daí? — Daí que conta de adulto é problema de adulto. Ele deu um sorriso sem humor. — Só que quando falta coisa, falta pra todo mundo. Fiquei olhando para ele. — Kauã. — Tô só falando. — Então para de falar e come. Ele abaixou os olhos. Obedeceu. Mas eu conhecia aquele menino desde antes de ele abrir os olhos pela primeira vez. Sabia quando uma ideia entrava na cabeça dele. E, enquanto os irmãos discutiam por causa do último pedaço de ovo, percebi que Kauã continuava fazendo conta em silêncio. Só não imaginei que, naquele momento, ele começava a procurar sozinho uma maneira de resolver um problema que nunca deveria ter sido colocado nas costas dele.
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