Luana... 7 anos antes... O início da história...
— Parabéns, maninha! Vinte e nove anos hoje! Está ficando velha...
Sou acordada pela minha irmã caçula, pulando na minha cama e gritando. A jovialidade dela chega a ser irritante às vezes. E, como hoje completo vinte e nove anos, o dia promete ser longo. Respiro fundo e penso: “Como eu odeio aniversários.”
Não sou uma pessoa ranzinza; apenas me sinto, na maioria das vezes, um estranho no ninho.
Se alguém fosse descrever a minha família, ela seria descrita da seguinte maneira:
“Meu pai, o senhor Sebastian, é o líder da nossa comunidade independente chamada Sol Poente, que leva o sobrenome da família dele. Não somos nenhum tipo de seita, não sacrificamos virgens nem bebemos sangue. Meu pai é o Alfa da nossa matilha. Sim, eu disse ‘Alfa’: sou filha de um homem-lobo e tenho sangue lupino — ou, na cultura popular do Brasil, lobisomem.”
“Minha mãe, por assim dizer, hoje é minha madrasta, a companheira do meu pai e aquela que me criou desde que eu tinha oito anos de idade. Também é uma loba — ou, no dito popular, uma mulher-lobo, lobisomem, lycan, entre outros nomes.”
Ficou confuso, né? Vou tentar ser direta: eu nasci fruto de um experimento científico. Um homem lunático teve a infeliz ideia de cruzar um lycan macho puro-sangue com uma fêmea humana para ver o resultado desse cruzamento. Assim nasceu uma criança dessas duas raças.
Um lycan pode mudar de forma, de homem para lobo e vice-versa. O cientista queria descobrir se uma cria de lycan com humano teria as mesmas características lupinas. Para minha infelicidade, nasci totalmente humana. Só carrego o sangue lupino.
Quando essa experiência aconteceu, meu pai estava em uma viagem de negócios em Londres. Foi sequestrado em seu quarto de hotel e levado a um laboratório em Ushuaia, na Argentina — o fim do mundo, o último lugar onde alguém procuraria por cobaias.
Minha mãe, Suelen Santos, era estudante de medicina veterinária e estava no último período da faculdade. Ela se candidatou a uma vaga de estágio em um laboratório no sul do Brasil, mas foi encaminhada para a sede em Ushuaia. Feliz, acreditava ter conquistado um estágio internacional. Só descobriu ao chegar que seria usada como cobaia em uma pesquisa: iriam retirar seus óvulos para fecundar com esperma de um lobo. Sim, meu pai era mantido inicialmente em sua forma lupina.
Os primeiros processos de fecundação não deram certo. Então, o cientista louco teve a brilhante ideia de trancá-la em uma cela junto com meu pai, naquele momento em sua forma humana.
O que ele não sabia é que um lobo não se interessa por outra fêmea depois de encontrar sua companheira. Meu pai já era acasalado. Mas o cientista não se deu por vencido: papai era um puro-sangue de linhagem antiga, e ele passou a aplicar neles estimulantes sexuais, tentando obrigá-los a se unir.
Já viu um animal no cio? Faz qualquer coisa para buscar alívio ou enlouquece.
Meus pais ficaram em poder daquele lunático por quase seis meses. Papai era filho de um importante conselheiro do Rei Alfa — o Alfa dos Alfas. Foi resgatado junto com vários outros prisioneiros daquele lugar.
Na época do resgate, minha mãe não tinha ideia de que estava grávida. Tentou voltar à sua vida, tentando ser normal novamente. Mas logo eu dei sinais de que estava crescendo em seu ventre. Tornei-me a lembrança viva de tudo que havia acontecido com ela.
Ao descobrir a gravidez, mamãe até tentou curtir como toda mulher que descobre que vai ser mãe e ter uma vida normal. Tentou ficar comigo depois que nasci, mas nunca mais foi a mesma após o sequestro. Tornou-se uma maníaca obsessiva por sexo, e eu sempre tinha muitos “tios” diferentes coabitando conosco.
Quando completei oito anos, um desses “tios” me tocou de forma imprópria. Contei a ela, que esmagou a cabeça dele com uma garrafa de champanhe vazia. Foi presa por assassinato, e eu fui levada ao conselho tutelar. Dois dias depois, conheci meu pai e meu avô. Ambos vieram a Porto Alegre, no sul do país, para me buscar.
Após uma longa viagem, chegamos à matilha Sol Poente, localizada na Serra da Graciosa, em Quatro Barras, no Paraná. Sim, nossa matilha fica no Brasil, como tantas outras que existem por aqui.
O que havia de especial nesse local, no meio da floresta? Uma comunidade de homens-lobos que viviam discretamente em uma vasta extensão territorial. Descobri também que eu tinha um irmão mais velho, de doze anos, e uma irmã caçula prestes a nascer.
Quando meu pai foi capturado, já era acasalado com sua companheira e já era pai. Só descobriu que eu existia quando o conselho tutelar ligou para a empresa dele. Durante o tempo em que esteve com minha mãe biológica no cativeiro, conversaram muito, e papai contou a ela sobre os negócios. Graças a Deus, minha mãe lembrava o nome da empresa dele, e foi assim que não fui parar na adoção.
Podem pensar que fui rejeitada pela família do meu pai ou maltratada pela minha mãe adotiva. Afinal, que mulher criaria a filha de outra?
Mas não! Leda, a esposa do meu pai, no momento em que me viu, me abraçou de forma maternal. Foi a primeira pessoa a me tratar com carinho até então.
Meu irmão Miguel sempre foi meu protetor em todos os sentidos. Assumiu-me com orgulho como sua irmã caçula. Mas eu não era como eles: minha natureza era frágil. Por isso, ele sempre estava por perto para evitar que alguém me machucasse.
Leda estava na reta final da gravidez na época de Leila, minha irmã caçula. Ela se tornou nossa bonequinha, pois nasceu logo após a minha chegada. Sempre nos demos muito bem; éramos melhores amigas.
O relacionamento com meu pai era mais distante. Em parte, eu mesma colocava uma grande barreira entre nós. Afinal, eu era a lembrança constante do inferno que ele havia passado naquele laboratório.
Os pontos fortes dos filhos do meu pai eram claros: meu irmão era destemido, sábio e valente. Seria o próximo Alfa, e nosso pai já o preparava para sucedê-lo.
Minha irmã era doce e gentil, com o coração mais altruísta que conheço. Em breve encontraria seu companheiro.
E eu? Eu era apenas uma humana frágil, feita em um laboratório. Não me transformava, não tinha sentidos aguçados, não era veloz, nem me curava como eles. Eu era apenas humana, com sangue lupino de um Alfa correndo em minhas veias.
Quando fui trazida para morar na Sol Poente, meu pai disse a todos que eu era sua filha, fruto das experiências de um doente. Todos na matilha deveriam me respeitar e zelar pela minha segurança, pois eu carregava sangue Alfa em minhas veias.
O mundo deles é muito diferente do mundo dos humanos. Lobos são intensos, fortes e feitos em pares pela deusa da lua. Assim que completam dezoito anos, podem encontrar seu companheiro de vida. Um lobo só acasala e tem filhos com seu verdadeiro companheiro. Segundo suas crenças, a deusa da lua, ao criá-los, os fez em pares.
Eu, por outro lado, jamais encontraria meu companheiro de alma. Sabem por quê? Simplesmente por ser uma humana mestiça com sangue de lobo.