Leila não parava de falar sobre tudo o que iríamos fazer no dia, enquanto meu celular vibrava. Dou uma olhada na mensagem de agradecimento por ter me candidatado a uma vaga de emprego na capital, mas que eu não era qualificada o suficiente para o cargo, e isso me frustrou.
— Lua! Você não está prestando atenção em nada do que estou falando. Em que mundo você está? — fala, cruzando os braços e me encarando.
— Leila, não quero festa, não quero nada! Nem um simples bolo — respondo.
— Você que não está entendendo, Lua. Vamos sim ao bar hoje com o nosso irmão. A mamãe deixou. Os garotos... quer dizer, todos os nossos guerreiros vão estar lá. E sabe, eu ainda não tenho dezoito anos, então hoje terei a chance de sair.
— E daí, Leila? — digo, levantando da cama. Vou até o meu armário e pego um vestido de verão leve.
— Você pode dar uns beijos, simples assim. Lua, você é linda. Eu sei de alguns rapazes da nossa matilha que olham para você.
— E também sou humana, lembra? Eu sei que muitos desses caras não me querem por perto, por dois motivos: primeiro, por medo de me matar com um simples abraço; e segundo, por medo do nosso pai ou do Miguel — falo, sem paciência para os dramas dela.
— Não seja boba, nós iremos e pronto.
Olho para ela e sei que é uma guerra perdida tentar argumentar qualquer coisa. Não era à toa que estava cursando Direito. Mais tarde, dou um jeito de me esconder em algum lugar para não sair naquela noite.
Como irmãs, tínhamos uma forte ligação. O que era engraçado: uma sempre sabia o que a outra queria. Mas fisicamente não nos parecíamos em nada. Leila era loira, alta e magérrima como a mãe. Tinha os olhos azuis do meu pai e sua pele era branca como a lua. Quando estava transformada, sua loba tinha a cor cinza prateada. Ela era linda nas duas formas.
Já eu tinha a pele naturalmente bronzeada, cabelos castanhos longos e olhos em tonalidade de mel, iguais aos do meu irmão Miguel. Papai sempre dizia que eu era parecida com minha avó paterna, que era morena jambo, com olhos cor de mel.
Antes que eu pudesse expulsar minha irmã do quarto, Leda surgiu na porta entreaberta, dando duas batidinhas com o dorso da mão.
— Lua, posso entrar? — pede. — Leila, o que está fazendo aqui? Dê uma folga à sua irmã. E, a propósito, Lua, meus parabéns — fala de forma carinhosa.
Leda se aproxima de mim, me abraçando e beijando minhas bochechas, num gesto fofo que ela faz desde a primeira vez que comemorei meu aniversário nesta casa.
— Lua, você sabe que eu a amo como se fosse minha? Você é a filha do coração que a deusa me deu.
— Eu sei, Leda. Obrigada, também amo você! — respondo. Não consigo chamá-la de mãe, mas a amo como se fosse.
— Leila, vamos deixar sua irmã em paz — fala séria. — Venha!
Leila tenta fazer um beicinho, mas acompanha a mãe. Finalmente posso ficar sozinha e me olhar no espelho. Há mais de vinte anos estou aqui, vivendo com a família do meu pai. Sou amada por eles, mas lá no fundo sinto que falta algo.