5. Fanstama

925 Words
Tem gente que acha que a dor some com o tempo. Que a cicatriz fecha, que a lembrança se apaga, que o coração aprende a esquecer. Mentira. Tem dor que fica. Tem dor que gruda na pele, que se mistura ao sangue e nunca mais sai. Aprendi isso do pior jeito, quando ela me olhou uma última vez e não conseguiu esconder o nojo. Nem foi preciso ouvir as palavras: estavam todas ali, nos olhos dela, quando viu o que o fogo fez comigo. Antes, ela dizia que me amava. Dizia com a boca, com o corpo, com aquela voz doce que hoje me dá náusea só de lembrar. Falava que ficaria ao meu lado, prometia que nada mudaria. Mas bastou o espelho devolver a imagem do que restou de mim para ela sumir. Nem um bilhete. Nem um adeus de verdade. A partir dali entendi o que o amor faz: ele dá poder ao outro para destruir o que sobrou da gente. Quando o fogo me queimou, ela foi o combustível que faltava para acabar o serviço. Desde então, aprendi a calar. Aprendi que confiar é abrir a guarda e eu já sangrei o bastante para nunca mais fazer isso. Agora existe só controle. Controle sobre os negócios, sobre os homens, sobre o que deixo transparecer. Ninguém toca no que eu escondo. Ninguém chega perto o suficiente para ver o que restou de verdade. Aqui dentro, debaixo da pele e das cicatrizes, ainda pulsa alguma coisa. Mas não é amor. É raiva. É memória. É um buraco que se acostuma à escuridão. Às vezes, no silêncio pesado da madrugada, quando o morro dorme e o último som é o farfalhar do mato, eu quase escuto a voz dela, como se fosse uma fita antiga tocando no fundo da minha cabeça. Quase sinto o perfume que ela usava, aquela mistura enjoativa de flores e vaidade. A lembrança vem com sabor metálico, e por um segundo a mão treme. Mas aí eu lembro de quem eu me tornei e do que ela fez comigo. O Fantasma volta a respirar. Frio, calculista, impenetrável por fora. Intacto. Por dentro, as articulações rangem de tanto que foram forçadas. É assim que eu prefiro: sem ninguém para trair, sem ninguém para ir embora, sem ninguém que ouse tocar onde ainda dói. […] O dia começou como outro qualquer: quente, abafado, com o morro já acordando em camadas, vozes que se cruzam, porta rangendo, crianças correndo e o cheiro constante de cigarro misturado com gasolina. Eu estava no terraço, observando a vida minúscula que fervilhava lá embaixo. O sol raspava as telhas e a fumaça da minha primeira tragada subia lenta, recortando o ar pesado. Foi quando o Breno, um dos meus homens, subiu as escadas apressado, o rosto tenso como quem traz notícia de batalha perdida. — Chefe... deu r**m pro Heitor — ele falou de cara, sem rodeios. — Pegaram ele numa batida. Tá preso. As palavras ficaram lá, penduradas no ar denso. Por um segundo o barulho do morro pareceu se apagar; só o vento mexendo a lona e o ronco distante de uma moto cortando a ladeira. Heitor preso. Heitor, meu braço direito, a mão que eu estendo quando preciso de cumplicidade, o homem que guarda segredos que poderiam me enterrar. Traguei fundo, mas o nicotinado do cigarro não conseguiu apagar o gosto amargo que subiu do peito. Joguei o cigarro no chão e senti a irritação crescendo como chama. — Onde? — perguntei, a voz mais baixa e dura do que eu pretendia. — Delegacia da Barra — respondeu Breno, com a pressa ainda marcando as palavras. — Disseram que foi emboscada. Emboscada. A palavra tinha cheiro de traição, aquele cheiro que eu conheço há anos. Quando você vive do submundo, aprende a reconhecer o aroma de quem puxa o tapete: é um perfume de conveniência, de medo e de vantagem. Virei o rosto para o horizonte, olhando o mar distante, sempre o mesmo mar que a gente nunca toca, mas que traz sal e presságio no ar. Heitor sempre foi leal. Nunca deu motivos. Se caiu, alguém o empurrou. Minha mente começou a trabalhar no automático: nomes, rostos, quem teria interesse em enfraquecê-lo, ou em me atingir através dele. Enquanto a maioria do morro age por impulso, eu aprendi a mover peças como um xadrez de concreto e pólvora. A diferença entre viver e sumir está em não reagir com o coração. Mas por dentro havia um peso diferente. Heitor não era só mais um soldado. Era o garoto que cresceu comigo, que entrou em brigas sem pensar, que me cobriu quando eu precisei. E agora estava lá, enjaulado, carregando uma culpa que, de algum modo, também me pertencia. — Fica em todos os pontos. Quero movimento estranho sinalizado — ordenei, a voz firme, sem espaço para dúvidas. — Chama o Vinícius. Não quero improviso — arrematei. — A gente resolve isso direito. Do nosso jeito. Breno assentiu e desceu as escadas apressado, os passos ecoando no metal da estrutura. Fiquei sozinho de novo, com o vento trazendo o cheiro de pólvora velha e um samba lá embaixo que parecia distante demais. A raiva começou a se sobrepor em camadas, primeiro a indignação pelo ataque, depois a memória de todas as vezes que o abandono tentou me arrastar para baixo. Heitor vai sair dessa, nem que eu precise mover o inferno para isso acontecer. Mas alguém vai pagar. E, quando eu descobrir quem foi, o morro inteiro vai lembrar por que me chamam de Fantasma.
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