A noite toda eu não consegui fechar os olhos. A imagem deles no sofá, a pele dela sob as mãos dele, a expressão de posse nos olhos do meu melhor amigo... era um filme de terror se repetindo na minha cabeça. A raiva era um ácido, queimando por dentro. A traição doía mais do que qualquer facada que eu já tinha levado. Mas de manhã, com a cabeça mais fria, outra imagem veio. A da criança. O menino. Seus olhos arregalados de terror, cheios de lágrimas, chamando o Murilo de "pai". A voz trêmula perguntando por que eu estava brigando. Meu Deus. Eu tinha assustado uma criança doente. A fúria contra o Murilo não diminuiu. A ferida ainda estava aberta e sangrando. Mas a vergonha começou a crescer junto. Eu, Heitor, que sempre me orgulhei de proteger os mais fracos, tinha aterrorizado um menino

