Chicago cheirava a gelo sujo e óleo de fritura. O vento cortava a Milwaukee Avenue como lâmina cega. Chegamos com dois passaportes canadenses que não tinham passado por nenhum sistema de fronteira real até Toronto. Eu era Emma Laurent, vinte e nove anos, nascida em Saint-Laurent. Clara era Julie Moreau. Os nomes custaram caro, mas funcionaram. O agente da imigração carimbou, nem levantou os olhos. Passamos.
Alugamos um quarto em cima de uma lavanderia coreana em Wicker Park. Um cômodo só. Cama de casal com colchão afundado no meio, aquecedor de parede que rangia como motor velho, janela que vedava com fita isolante preta. Paguei dois meses adiantado em notas de vinte. Ainda tínhamos pouco mais de noventa mil dólares escondidos: parte num envelope atrás do espelho do banheiro, parte costurada na bainha do casaco, parte enterrada num pote plástico sob o assoalho solto. Ninguém procuraria ali. Chicago não se importa com quem entra. Só com quem paga.
No terceiro dia, arrumei turno. Diner na esquina, neon falhando, balcão de formica rachada. Garçonete das seis às duas. Café preto, ovos mexidos, bacon crocante, gorjeta em moedas de vinte e cinco centavos. Ninguém perguntou de onde eu vinha quando eu dizia more coffee? com o sotaque que a Clara treinou comigo no metrô, Sorriso curto, Olho baixo, Mãos rápidas, Invisível era o objetivo.
Clara pegou vaga no mesmo quarteirão. Lavando prato num mexicano de porta suja, vapor quente, água com sabão industrial corroendo a pele das mãos. Voltávamos para o quarto às três da tarde, pés inchados, cheiro de gordura impregnado no cabelo. Era perfeito. Ninguém pergunta para o cansaço.
Na segunda semana, o enjoo chegou sem aviso.
Primeiro achei que fosse o café rançoso do diner. Depois, o frio seco que ressecava a garganta. Depois, a adrenalina acumulada virando toxina. Toda manhã, antes do turno, eu trancava a porta do banheiro e vomitava bile amarela no ralo enferrujado. No trabalho, o cheiro de bacon fritando virava meu estômago do avesso. Eu sorria para o cliente de casaco grosso, anotava o pedido, engolia em seco, e corria para os fundos quando a onda subia.
— Você está pálida — Clara falou numa noite, enquanto eu tentava forçar macarrão instantâneo goela abaixo.
— Gripe — respondi, limpando o canto da boca.
— Gripe não dura doze dias. E não faz você tremer antes de pegar a caneca.
No décimo terceiro dia, vomitei no meio do serviço. Um cliente reclamou do café frio. A gerente, mulher de ombros largos e voz de lixa, me dispensou. Volta quando parar de espalhar vírus.
Caminhei as três quadras até o quarto com o vento batendo no rosto. Tranquei a porta. Deitei de lado. Coloquei a mão na barriga. Ainda lisa. Ainda minha. Mas o corpo já sabia.
Clara chegou mais tarde, jogou a bolsa no colchão, me olhou demoradamente.
— Quando foi sua última menstruação?
Congelei. Os dedos pararam no tecido da calça.
— Não lembro.
— Em Paris?
— Antes de Paris.
Ela fez conta nos dedos sujos de sabão.
— Elena. Faz quase dois meses.
Meu nome verdadeiro saiu da boca dela como sirene. O ar do quarto ficou pesado.
— Não — falei rápido. — Não pode ser.
Ela não discutiu. Saiu. Voltou vinte minutos depois com uma sacola branca da Walgreens. Jogou na cama. Dois testes. Caixas azuis. Instruções em inglês.
— Faz. Agora.
Fui para o banheiro. Tentei a porta. Tranquei. Sentei na tampa fria. Li o papel três vezes. As mãos tremiam. O plástico era leve demais para o peso do momento. Fiz o que mandava. Esperei.
Três minutos são longos quando sua vida inteira depende de duas linhas de tinta azul.
Apareceram. Fortes. Nítidas. Sem ambiguidade.
Abri a porta. Clara estava encostada no batente, braços cruzados, rosto fechado.
— Então?
Estendi o teste. Não consegui formular som.
Ela pegou. Olhou. Assentiu uma vez.
— Grávida.
Deslizei pela parede até o chão. O azulejo gelou a coxa. Coloquei as duas mãos na barriga. Ainda plana. Mas o corpo já não era só meu.
— Não dá — sussurrei. — Não dá para ser agora. Eu estou fugindo. Tenho nome falso. Tenho noventa mil dólares e um pai que assinou minha morte e um homem que...
Parei. O inimigo. Arthur.
Refiz a conta mental. Paris. Duas noites. Três semanas atrás. Mais o tempo de voo, o ajuste, o calendário. Batia. Exato.
— É dele — falei, mais para o azulejo que para ela. — É do Arthur.
Clara sentou no chão ao meu lado. O joelho encostou no meu.
— Você tem certeza?
— Não transei com mais ninguém em dois anos. Só com o Marcos antes de descobrir a traição. E com o Arthur em Paris. É dele.
O choro veio baixo, contido, para a vizinha coreana não ouvir pela parede fina. Não era tristeza. Era pânico logístico. Como esconder uma barriga com nome emprestado? Como pagar pré-natal sem CPF? Como explicar para um homem que controla portos que a mulher que fugiu da suíte dele carrega o filho que ele não sabia que existia?
— O que eu vou fazer com um bebê, Clara? Eu não tenho casa. Não tenho país. Tenho uma vingança para cumprir e um homem poderoso que vai me achar e vai achar que eu fiz isso de propósito para prender ele.
Clara segurou minha mão. A dela estava áspera, rachada de água quente e detergente.
— Primeiro a gente respira. Depois a gente pensa.
— Não dá para pensar. Não dá para ter filho agora.
— Então a gente não tem. Ou tem. A escolha é sua. Mas qualquer escolha, nós vamos dar um jeito.
Olhei para ela. Os olhos dela não tinham piedade. Tinha firmeza.
— Você fala como se fosse fácil.
— Não é fácil — ela respondeu. — Nada na sua vida foi fácil desde que você abriu a porta do quarto e viu a Lívia na sua cama. Mas você sobreviveu ao seu pai, ao Marcos, à fuga, ao Rio, a Paris, ao Arthur Salvatore. Você vai sobreviver a duas linhas azul.
Ri no meio do choro. Um som quebrado, sem graça.
— Você é louca.
— Sou sua amiga — ela disse. — E amiga não deixa amiga vomitar sozinha em Chicago.
Levantei. Lavei o rosto na pia minúscula. Olhei no espelho embaçado. Cabelo loiro crescendo, raiz escura avançando, olheiras fundas, barriga ainda chapada. Por fora, Emma Laurent, garçonete canadense. Por dentro, Elena Costa, fugitiva, grávida do rival do pai.
Coloquei a mão de novo na barriga. Senti o músculo contrair.
— E se ele descobrir?
— Ele vai descobrir quando você quiser — Clara falou. — Ou nunca. Você decide o tempo.
Guardei o teste na gaveta, embaixo das meias grossas. Deitei na cama. Clara deitou do lado, puxando o cobertor fino até o queixo.
Ficamos olhando para o teto com mancha de umidade. O aquecedor rangia. O vento batia na janela.
— Clara? — chamei.
— Hum?
— Nós vamos dar um jeito mesmo?
Ela virou a cabeça. Apertou minha mão.
— Nós sempre damos. Agora dorme. Amanhã você vomita, trabalha, e a gente decide o resto.
Fechei os olhos. Não dormi. Pensei no Arthur em Paris, encontrando o quarto vazio e o bilhete torto. Pensei no meu pai no Rio, contando apólices que nunca pagariam. Pensei no corpo que eu carregava, sem nome, sem história, só biologia e consequência.
Três meses atrás eu vendi um anel para fugir. Agora eu carregava uma vida que eu não planejei.
Vingança ia ter que esperar. Primeiro eu precisava aprender a não vomitar o café da manhã. E depois, descobrir como transformar esse acidente em vantagem. Porque em guerra, até o inesperado vira arma. Se você souber segurar.