Sete dias depois. Eu não voltei por saudade. Voltei porque a curiosidade é um vício e o juízo é um luxo que eu não tenho mais. Clara avisou que eu estava brincando com fogo de terno italiano. Ela tinha razão. Mas risco calculado ainda é risco. E eu precisava saber se a mão dele tremia quando eu não estava olhando.
O bar ainda cheirava a gin barato e madeira úmida. Ele estava no canto, mas a postura tinha mudado. Ombros menos tensos. Olho mais fixo. Quando me viu entrar, não ergueu o copo. Só indicou a cadeira vazia ao lado dele.
— Você volta mesmo quando sabe o preço — falei, sentando.
— Eu volto quando a conta não fecha — respondeu.
Pedimos vinho da casa. Conversamos sobre rota de metrô, preço de aluguel, chuva que não parava. Nada importante. O silêncio entre as frases era mais denso que da primeira vez. Não havia necessidade de preencher. Havia reconhecimento.
Subimos sem pressa. Elevador privativo. Corredor abafado. Chave eletrônica bipou. Suíte 412.
A noite não foi colisão. Foi ajuste. Ele já sabia onde minha respiração falhava. Eu já sabia como ele prendia o pulso antes de me virar. O tecido foi embora devagar, sem pressa de provar nada. Não houve urgência. Houve leitura. Pele contra pele, calor acumulando, músculo respondendo ao toque. Ele beijou a cicatriz do ombro, eu mordi o lábio para não gemer. O ritmo foi medido, não por hesitação, por escolha. Entrou fundo, ajustou o quadril, esperou meu corpo ceder. Gemido baixo, unhas marcando a costela, suor colando o lençol ao quadril. Não foi romance. Foi trégua. Dois corpos que apanharam da vida decidindo, por algumas horas, não apanhar sozinhos. Respiração travada. Eu segurei o espasmo, deixei a onda subir, prendi a cabeça dele contra o meu pescoço. Ficamos em silêncio. Só o ar condicionado e o batimento cardíaco acelerado.
Acordei com o cheiro de café torrado. Luz cinza filtrando pela cortina pesada. Ele não estava na cama. Na mesa lateral, uma bandeja de prata: xícaras fumegantes, pão amassado, manteiga sem embalagem, faca de lâmina cega. Um bilhete manuscrito: “Volto já. Não sai. A.” Sorri. Cínica. Coloquei a calcinha, vesti a camisa preta dele, fui até a mesa. Bebi um gole. Forte. Amargo. Exato.
Caminhei pelo quarto. Gavetas vazias. Armário: ternos alinhados, camisas engomadas, mala trancada com cadeiro de latão. Banheiro: frasco de colônia, navalha, toalha seca. Voltei à sala. Pasta de couro marrom sobre a poltrona de linho. Não era minha. Devia deixar. Abri.
Passaporte brasileiro. Foto dele. Nome completo: Arthur Salvatore. Virei a página. Carimbos: GRU, CDG, MXP. Atrás, um recorte de jornal plastificado, foto dele na orla da Barra, terno escuro, queixo erguido. Manchete em negrito: “Salvatore Group assume controle do Terminal 3 e vira rival direto da Costa Holding no Rio.”
Costa Holding. Meu pai.
O sangue esfriou. Fechei a pasta. A mão tremeu. Não de medo. De cálculo rápido. O ar pareceu ficar mais fino.
O celular vibrou na bolsa. Clara. Atendi no viva-voz, sussurrando.
— Onde você está?
— No hotel. Por quê?
— Sai. Agora.
— Clara, o que foi?
— Pesquisei o sobrenome. Arthur Salvatore. Você está na cama do inimigo, Elena.
Elena. O nome bateu como um soco no esterno. O som do sotaque dela mudou. Não era mais Helena. Era a verdade rachando a mentira.
— Ele controla metade dos portos do Sudeste — ela continuou, voz acelerada. — Seu pai tentou quebrar ele três vezes. Ele revidou com auditoria, com processo, com bloqueio de carga. A guerra tá no noticiário há dois anos. Se ele souber quem você é…
Não precisei ouvir o resto.
Olhei para a xícara na minha mão. Para a camisa no meu corpo. Para o bilhete na mesa. Imaginei ele descobrindo. A mulher da cama era a filha morta do Alberto Costa. Imaginei meu pai sabendo que eu estava viva, e na cama do homem que ele quer enterrar. A imagem foi clara. Fria. Real.
Levantei. Café derramou na madeira escura. Tirei a camisa. Vesti o vestido às pressas. Encaixei o pé no tênis sem meia. Peguei a bolsa. Olhei o bilhete uma última vez. Peguei a caneta da mesa. Escrevi embaixo, letra trêmula, mas firme:
Precisei ir.
Deixei ao lado da xícara vazia.
Saí. Porta fechou. Elevador desceu. Lobby silencioso. Porta girando. Rua fria.
Clara já estava na esquina, casaco fechado, mãos nos bolsos, respiração ofegante.
— Tá bem? — perguntou.
— Não. Acabei de dormir com o homem que pode destruir meu pai. Ou que meu pai vai mandar matar. E ele acha que eu sou só uma funcionária de lavanderia.
Ela me puxou pelo braço. — Então a gente some. Antes que o café esfrie e ele perceba o estrago.
Andei rápido pela calçada molhada. O gosto amargo na língua. O coração batendo no ritmo da fuga. Mas não era fuga do meu pai. Era fuga do único homem que, por uma noite, me fez esquecer que eu era uma cadáver viva. E agora eu sabia: i********e era tão perigosa quanto uma arma carregada. E eu tinha acabado de apontar uma para a minha própria cabeça.
O metrô apitou na esquina. Desi a escada. Passos firmes. Sem olhar para trás. A vingança não dorme. Só espera o momento certo de morder. E eu precisava decidir se mordia ele primeiro, ou se deixava ele morder meu pai