Um corpo novo
Acordei sobre uma superfície dura e desconfortável. Um cheiro amargo de ervas queimadas invadia minhas narinas, tão diferente do aroma de café fresco que costumava tomar conta da minha casa todas as manhãs. Franzi a testa, ainda sonolenta, e tentei me sentar.
Assim que me virei, perdi o equilíbrio e caí no chão.
— Ai...
Resmunguei baixinho enquanto apoiava as mãos no piso de pedra. Alguns fios de um cabelo n***o e cacheado caíram sobre o meu rosto, bloqueando parte da minha visão. Meu coração acelerou no mesmo instante.
Meu cabelo não era daquele jeito.
Afastei os cachos com rapidez, encarando-os por alguns segundos antes de levar as mãos até a própria cabeça. Os fios eram longos, macios e volumosos.
Definitivamente, aquele não era o meu corpo.
Levantei-me às pressas, ignorando o peso estranho que parecia prender meus movimentos, e observei o lugar onde estava. A iluminação era fraca, vinda apenas de algumas tochas presas às paredes de pedra. Peles de animais estavam espalhadas pelo chão, havia móveis de madeira m*l acabados e um forte cheiro de fumaça misturado ao das ervas queimadas.
Aquilo parecia uma caverna.
— Mas que merda...
A voz que saiu da minha boca era desconhecida.
Levei a mão à garganta, completamente assustada. Meu coração parecia querer escapar pela boca.
Antes que eu pudesse organizar os pensamentos, um estrondo ecoou do lado de fora, seguido por uma voz masculina tão grave que fez a caverna inteira vibrar.
— Lyra Aster!
Meu corpo inteiro enrijeceu.
— De novo passou o dia inteiro dormindo? Como uma fêmea tão preguiçosa pode ser a minha companheira?
Eu nem tive tempo de reagir.
Uma dor lancinante atravessou minha cabeça, como se milhares de agulhas perfurassem minha mente ao mesmo tempo. Levei as mãos às têmporas e caí de joelhos, gritando. Memórias que não eram minhas começaram a surgir diante dos meus olhos, misturando-se às minhas próprias lembranças.
A última coisa que ouvi antes de perder a consciência foi um rosnado furioso vindo da entrada da caverna.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada.
Quando voltei a abrir os olhos, a dor de cabeça havia diminuído, mas meu corpo continuava pesado, como se cada osso tivesse sido esmagado. Respirei fundo e me sentei devagar sobre as peles que cobriam o chão da caverna, levando uma das mãos até a testa enquanto tentava organizar os pensamentos.
Foi então que senti alguém me observando.
Ergui o olhar lentamente e encontrei um par de olhos verdes fixos em mim.
O homem à minha frente era alto, tinha os cabelos negros e levemente cacheados na altura dos ombros e uma beleza quase irreal. As orelhas arredondadas no topo da cabeça denunciavam sua espécie, assim como as pupilas felinas que permaneciam estreitas, analisando cada um dos meus movimentos.
Por algum motivo, meu coração apertou.
Antes mesmo que eu pudesse perguntar quem ele era, uma nova lembrança atravessou minha mente.
Matteo.
O homem-pantera.
Um dos cinco guerreiros mais fortes da Tribo das Raposas de Nove Caudas.
Meu... marido.
Ou pelo menos era isso que aquela vida dizia.
— Se isso for mais uma das suas tentativas de chamar nossa atenção, pode desistir.
A voz dele era firme, mas carregava um evidente cansaço.
— Já estamos cansados dos seus desmaios e dessas marcas aparecendo pelo seu corpo. Se acha que isso vai nos fazer sentir pena de você, está perdendo seu tempo.
Franzi a testa sem entender.
Marcas?
Olhei rapidamente para meus braços e encontrei pequenas manchas arroxeadas espalhadas pela pele clara. Algumas eram antigas, outras pareciam ter surgido havia pouco tempo.
As memórias de Lyra vieram logo em seguida.
Ela costumava acordar assim.
Às vezes passava dias inteiros dormindo, o corpo ardia em febre e aquelas manchas apareciam sem explicação. Os curandeiros nunca encontraram uma doença, e com o passar dos anos todos passaram a acreditar que ela exagerava os sintomas para chamar atenção.
— Não tenho intenção nenhuma de prender você aqui, Matteo.
Minha voz saiu baixa, ainda rouca.
— Pode voltar para os outros. Não vou mais ocupar o seu tempo.
Ele me encarou por alguns segundos, como se esperasse alguma reclamação ou um pedido para que ficasse.
Quando percebeu que eu apenas desviava o olhar, soltou um breve resmungo e saiu da caverna sem dizer mais nada.
Esperei até que seus passos desaparecessem completamente.
Só então deixei o ar escapar lentamente.
— Coitada da Lyra...
Murmurei para mim mesma.
Fechei os olhos por um instante e as lembranças voltaram a se encaixar como peças de um quebra-cabeça.
Aquele mundo.
Aquela caverna.
Aquelas pessoas.
Eu conhecia tudo aquilo.
"Conquistando as Cinco Feras."
Era um romance de fantasia que havia feito bastante sucesso. Eu nunca cheguei a terminar a história, mas lembrava do suficiente para saber quem era a dona daquele corpo.
Lyra Aster.
A filha mais velha do chefe da Tribo das Raposas de Nove Caudas.
A jovem que nunca conseguiu despertar seus poderes e, por isso, passou a vida sendo tratada como uma vergonha pela própria mãe e pela irmã mais nova.
Apesar de ser a herdeira do chefe da tribo, ninguém acreditava que ela seria capaz de liderar um dia. Ainda assim, seguindo a tradição do clã, recebeu como companheiros os cinco guerreiros mais fortes da geração.
Um casamento que nenhum deles desejava.
Eles a respeitavam apenas por ser uma ordem do chefe.
Fora isso...
Mal conseguiam esconder o desprezo que sentiam por ela.
A lembrança do epílogo fez meu estômago embrulhar.
Se eu não estivesse enganada, Lyra sequer sobrevivia até o final da história.
Ela morria muito antes dos acontecimentos principais, servindo apenas para impulsionar o desenvolvimento dos outros personagens.
Era uma personagem secundária.
Uma daquelas destinadas a desaparecer sem que ninguém realmente sentisse sua falta.
Olhei novamente para minhas mãos e um arrepio percorreu meu corpo.
De todas as pessoas...
De todos os personagens daquele livro...
Eu tinha ido parar justamente no corpo daquela que estava destinada a morrer.