Cinco dias antes do casamento…
Eu olhava para o espelho de cinco em cinco segundos só para ter certeza de que aquilo não era um sonho. Existem quase trezentos milhões de pessoas no Brasil, e nenhuma delas era mais feliz do que eu.
Aposto que não.
Nunca me considerei uma garota de sorte, mas agora, quando as coisas finalmente pareceram se encaixar, me dei conta de que eu tinha tudo o que sempre quis; uma prateleira cheia de livros, unhas compridas e bem pintadas, um guarda-roupa lotado de liquidações, um amontoado de saltos altos que combinavam com meus vestidos, e por último...
Um anel de noivado dado pelo homem da minha vida!
Eu sempre esperei por este momento, onde Ricardo se daria conta que não poderia mais viver sem mim, ficaria de joelhos – como fazem os mocinhos dos livros –, e, com a voz embargada, me falaria uma porção de coisas bonitas, depois finalizaria seu discurso com um pedido de casamento, porque basicamente eu era o ar que ele respirava.
Ok, não foi bem assim que aconteceu. Na verdade, foi até um pouco esquisito.
Estávamos voltando de uma festa, brigando sei lá por qual motivo, quando, justo na hora em que eu estava prestes a sair do carro, uma caixinha de veludo caiu do porta-luvas bem em cima do meu colo. Então, toda minha raiva caiu por terra e eu me joguei em seus braços em meio a gritinhos de empolgação. Ricardo me encarou com seus olhos verdes cintilantes, e percebi que gotículas de suor escorriam pelo seu rosto levemente bronzeado.
Ownn, ele está nervoso, que bonitinho!
— Você, err... quer? Casar comigo? — perguntou ele, inseguro, avaliando minha expressão.
Foi há três semanas, mas ainda me lembro das borboletas invadindo meu estômago e do meu coração batendo descompassado.
— É claro que sim, Ricardo! Você... você é o homem da minha vida! E...
Então comecei a chorar.
Ah, qual é? Era o meu grande sonho se tornando realidade, não tinha como eu não me emocionar.
Passei o resto do caminho fazendo planos para a festa e tagarelando sobre os detalhes. Pedi que ele não se preocupasse, eu resolveria tudo, da igreja aos canapés, das flores às toalhas de mesa.
— Você precisa escolher seus padrinhos, Ricardo — eu o alertei assim que ele estacionou em frente à minha casa.
— Não se preocupe, querida — ele disse segurando minha mão, as suas estavam tão... frias. — Eu já pensei em tudo. Vai dar certo.
Então plantou um beijo em minha testa e repetiu mais uma vez que tudo daria certo. Tive a impressão de que ele falava mais para si mesmo do que para mim, e isso não me incomodou. Eu sabia, sabia que tudo sairia como eu sempre havia sonhado.
Sendo assim aqui estava eu, em frente ao espelho do meu quarto, vestida de noiva, contemplando a visão. O vestido era singelo, porém lindo; rendado, com um decote em “v” e bem justo na cintura, para depois abrir-se numa calda enorme e volante. A costureira até quis fazer alguns ajustes, mas eu recusei de imediato, e prometi não engordar. Pertencera à mamãe, e isso já era o suficiente para que ninguém além de mim tocasse nele. Segurei minha correntinha, abri um curto sorriso e meus olhos marejaram, era sempre assim quando eu pensava nela. Há coisas na vida em que o tempo não é muito bom para curar.
Alguém bateu na porta e eu me recompus, dei mais uma ajeitada no vestido e me olhei, confiante. Em cinco dias eu subiria naquele altar e me tornaria para sempre a Senhora Albuquerque.
— Larah, está aí? Eu posso entrar? — uma voz feminina perguntou do outro lado da porta. Eu sorri.
— Sim, Madá, claro! Desde que não esteja com uma barra de chocolate! — ressaltei divertida.
— Ah, não te preocupa, eu acabei devorando no meio do caminho — ela brincou e abriu a porta logo em seguida.
Alarguei o sorriso. De soslaio, pude ver a silhueta alta entrar em meu quarto.
— Ai, Dio Mio, é a quinta vez esta semana que você experimenta esse vestido! — Madá falou sentando-se na beirada da cama.
— Ei, foram quatro vezes! — rebati brincalhona, olhando para ela pelo espelho.
— Nada disso, bambina! Segunda-feira foram duas, estou anotando tudo no meu caderninho.
Ri alto, depois me virei para ela. Seus olhos castanhos encontraram os meus e ela fez um rápido aceno com a cabeça.
— Você está linda, Larah! E eu estou tão orgulhosa de você... — disse ela, comovida. Então se levantou da cama e foi em minha direção, parou de frente para mim e segurou meus ombros com firmeza.— E sua mãe também ficaria, bambina.
— Na boa, Madá, não me faz chorar, por favor — pedi, abanando os olhos. — Mas...obrigada, de verdade.
— Vamos lá, vamos tirar esse vestido, porque hoje é dia de Comemoração. — Ela fez uma careta, eu revirei os olhos. — Ao menos teremos pizza.
— Ei, vocês juraram que não teria mais pizza nas Comemorações — resmunguei e caminhei em direção ao guarda-roupa.
De frente para as portas abertas, analisei minhas peças metodicamente organizadas.
— E eu falei que não vestiria esta camisa horrorosa do time do seu pai e aqui estou eu — ela retrucou apontando para o escudo em seu peito. —Diz aí, Larah, isso aqui não parece uma cueca?
Eu ri alto.
— Vamos, Larah, você precisa concordar comigo!
— Eu já disse que não vou me meter — falei, jogando algumas roupas sobre a cama. — Quando o Timão ganha, eu sou corintiana. Quando o São Paulo ganha, eu sou são paulina. Assim, você e o papai ficam contentes.
— Ó, Dio! Que menina difícil! Não sei como te criei por tanto tempo, me lembre de te abandonar na estrada.
Eu ri tanto que minha barriga doeu.
— Eu estou falando sério— ela disse fingindo indignação. — Santo Dio, ninguém me respeita nesta casa!
— É claro que respeitamos. Veja, eu vou até comer pizza hoje — falei, com dois shorts na mão, mostrando-os para ela.
— Ah, quanto sacrifício comer pizza... — Madá retrucou teatralmente, depois encarou as peças. — Veste o cinza, fica tão lindo em você.
— Obrigada. Tá, onde estávamos? — perguntei, tentando abrir o vestido. — Ah, lembrei! É claro que é um sacrifício, Madá. Você sabe que levo minhas dietas a sério, principalmente...
— Principalmente quando estamos às vésperas do seu casamento — ela completou, já atrás de mim, me ajudando com o zíper. — Ah, eu estou tão feliz que finalmente aquele rapaz tomou jeito! Eu já não aguentava mais te ver chorando pelos cantos, Larah.
Eu ri, mas por dentro meu coração murchou. Um redemoinho de lembranças ruins invadiu minha mente e eu fui tomada novamente pela insegurança.
— Preciso descer para cuidar dos detalhes. Não demora, seu pai já está me tirando dos nervos, sabe como ele fica quando aquele timezinho ganha, não é?
— Ô, se sei... — brinquei e senti o beijo estalado de Madá em minha bochecha.
Esse gesto foi reconfortante, mas não o suficiente para devolver a confiança que eu tinha minutos antes. Quando ela saiu, cantarolando, me joguei na cama, ainda com o vestido semiaberto no corpo, abracei meus joelhos e repousei a cabeça na cabeceira, pensativa.
Madá tinha razão, Ricardo já havia me feito comer o pão que o d***o amassou. Da última vez, eu tenho que reconhecer que ele se superou.
Aconteceu há quatro meses, quando ele inventou que sua mãe estava na UTI só para ir a um reggae de solteiros que acontecia anualmente na casa de uma riquinha cheia de amor para dar– literalmente! Assim que descobri sua mentira, por meio de uma mensagem com um número esquisito me contando tudo, eu não hesitei nadinha. Um fogo subiu pelo meu rosto e aquela sensação de tristeza misturada com ódio tomou conta de mim. Eu não me reconheci. Então corri para a casa de Linda, minha amiga, e supliquei para que ela me emprestasse seu carro, porque eu precisava invadir a tal festa. Linda me olhou com seus olhos escuros e gigantescos e caiu na gargalhada.
— Você está louca, Larinha? Eu não vou te deixar dirigir desse jeito. Se calma você já é um perigo no trânsito, imagina assim, incorporada pelo espírito do Jason? — brincou ela, pescando as chaves de seu carro sobre a mesinha de centro.
É claro que eu quis contestar, mas sabia que a Linda mencionaria a história dos cones destruídos e, naquele momento, eu só pensava em esganar o Ricardo.
— Se é para invadir essa festa, vamos invadir juntas! — ela exclamou e me puxou para fora da casa.
Entrar no reggae não foi fácil, tivemos que pular um muro enorme e desviar de alguns seguranças, mas assim que conseguimos, meus olhos varreram o local, ansiosos para localizar meu até então namorado. O espaço estava lotado, haviam pessoas chapadas e muito barulho, eu até tive que ameaçar socar um garoto para que ele me soltasse.
Encontrei Ricardo sentado num sofá enorme. Com uma morena do lado. Aos beijos!
Minhas pernas bambearam e eu fiquei em estado de choque, lágrimas invadiram meus olhos e um embrulho forte surgiu na boca do meu estômago.
Ricardo havia partido meu coração. Outra vez.
Eu me senti tão... i****a!
Linda grudou em meu braço, tentando me tirar dali o mais depressa possível, e eu até sairia, mas então meus olhos foram de Ricardo – apalpando os s***s da morena –, até o jarro chinês em cima de uma bancada. Sem nem piscar, eu taquei o objeto em cima dele. Acertei sua cabeça em cheio, e nada no mundo me deixaria mais vingada naquele momento.
O resto dos acontecimentos foi meio louco; alguém desligou o som, as pessoas fizeram um círculo a nossa volta, Ricardo levantou-se meio bambo, com a cabeça sangrando, me chamando de maluca, a morena saiu correndo, Linda e eu fomos enxotadas da festa, e um b****a tirou fotos e vendeu para a imprensa. Virei capa de jornal, mas, com a ajuda do Guga, meu irmão mais velho, consegui que papai não descobrisse tudo.
Só que não demorou muito para a raiva passar. Na verdade, não demorou nem uma semana e, como consequência, fui me sentindo culpada, deprimida, e passei a vegetar.
Então eu comecei a fazer terapia, para superar o término do meu relacionamento, e engordei uns cinco quilos, graças aos chocolates e potes de sorvete que passei a devorar. A doutora Ivone, que estava acompanhando o meu caso, tentava a todo custo me animar, repetindo frequentemente algumas frases incentivadoras que elevavam minha autoestima. E logo quando eu já havia jogado a toalha, conformada de que Ricardo e eu nunca daríamos certo e que eu o havia perdido para sempre, eis que ele aparece em minha casa, desesperado, implorando por mais uma chance, pois, segundo ele, precisava de mim para ser feliz. Até jurou de pé junto que nunca mais faria aquilo, e eu meio que acreditei. Ou fingi que acreditei.
Mês retrasado fizemos as pazes. Cheguei eufórica para a minha terapeuta e lhe contei tudo. A doutora Ivone não pareceu muito satisfeita, mas eu lhe garanti que continuaria com as sessões.
No dia seguinte, ela pediu demissão.
Bom, não se pode ter tudo na vida.
Olhei ansiosa para o meu celular em cima do criado-mudo. Apesar de as coisas estarem indo bem, já fazia tempo que Ricardo não me dava notícias.
Três dias, oito horas e trinta e cinco minutos, para ser exata.
Mordi os lábios, respirei fundo e repeti mentalmente que eu não ligaria. Estiquei-me um pouco para o lado e alcancei meu diário de capa cor-de-rosa ao lado do abajur. Eu o ganhei da Madá em sua primeira visita, logo que ela e papai começaram a namorar, há exatos onze anos – dois anos depois que mamãe partiu. Apesar das tentativas de papai, eu não conseguia me abrir para o mundo, sempre calada, trancada em meu quarto, vendo os dias se arrastarem. Madá veio até mim e, sem dizer uma só palavra, colocou o embrulho em cima da minha cama, beijou minha testa e foi embora.
Caiu como uma luva.
Passei a escrever constantemente, numa tentativa de desabafar. Aos poucos, as coisas foram se ajeitando, e foi praticamente impossível eu não me apaixonar pela italiana que invadiu nossas vidas. Mas a saudade continua, e nos momentos em que ela bate forte, eu pego meu diário e começo a escrever para a mamãe, como se ela estivesse em algum lugar, me escutando...
“9 de março de 2014.
Oi, mamãe! Desculpe não ter te escrito nesses últimos dias. Sabe, é tanta correria, eu não sabia que casar dava tanto trabalho, na boa..., mas eu não posso reclamar, subir no altar ao lado de Ricardo sempre foi tudo o que eu desejei. Quando eu digo isso, lembro-me de uma frase que a senhora me disse uma vez: ‘Cuidado com o que você deseja,Larah’. Faz muito tempo, mas se eu fechar os olhos agorinha, posso me ver em seu colo, tentando a todo custo entender o sentido dessa frase. A senhora sempre foi tão sábia, deve estar arrasando aí em cima. Sinto sua falta! Sei que sempre que escrevo digo isso, mas é que eu realmente sinto. A Madá é a melhor boadrasta que alguém poderia ter, mas a senhora é insubstituível. Ah, hoje o São Paulo ganhou do Corinthians *revirando os olhos*, o que significa que é dia de Comemoração. Eu amo essa tradição daqui de casa, mas vou ter que comer pizza, mamãe, pizza! Sabe-se Deus quantas calorias um pedaço de pizza tem! Não vou caber em seu vestido. É, tive que pegá-lo emprestado, mas prometo que devolvo logo, não haveria vestido melhor para o meu grande dia. A senhora está feliz, não está? É que, sabe, o pessoal daqui de casa meio que perdeu a fé em Ricardo. Eu tive que encher o papai de beijos para que ele abençoasse a nossa união. O Guga ainda não esqueceu a história da tal morena e ficou dias sem falar comigo, mas ele sabe que não vou desistir. A Madá veio conversar comigo outro dia, disse que estaria do meu lado, apesar de não concordar com as atitudes daquele ‘ragazzo cattivo’. Eu não sei bem o que isso significa, mas ela me abraçou tão forte que eu tive certeza de que poderia contar com seu apoio sempre. Linda virou minha psicóloga a todo custo, tudo bem que ela sempre foi meu ombro quando precisei, mas agora ela costuma fazer os tipos de sessões que faz com seus clientes, me arrasta para o calçadão aqui perto e começa a me encher de perguntas sobre meus sentimentos por Ricardo. Desconfio que ela ainda tenha esperança de que eu mude de ideia. Já a abordagem da Bela é sempre mais direta, ela vive me mandando fotos meio... indecentes de homens bonitões com legendas do tipo: ‘Depois de casada, o único tanquinho que você vai ver é o de lavar roupa, Flor’. Só que não adianta, eu só tenho olhos para o Ricardo.
E, por falar nele, ultimamente meu noivo anda mais carinhoso, me leva com frequência para eventos sociais e cheios de repórteres invasivos, até tiramos umas fotos para uma revista de relacionamentos. Pois é, finalmente tudo está como planejei. Agora é só esperar o padre fazer a tão sonhada pergunta e eu ser feliz para sempre. Moleza!
Vou fechar o diário antes que papai suba aqui e me arraste para cantar o hino de seu time. Eu ainda não decorei.
Amo você, mamãe, de tal modo que nem sei como explicar. Prometo escrever em breve, não se esqueça de mim.
Larah.”
Eu só percebi que estava soluçando quando fechei o diário. Enxuguei as lágrimas e abracei meu próprio corpo. A verdade é que sempre dói, cada dia de um jeito diferente. Já faz tempo que mamãe nos deixou, mas eu ainda consigo me lembrar dos seus olhos cor-de-mel, iguaizinhos aos meus, e de sua voz calma mesmo quando estava nos dando sermão. Nos primeiros anos, as lembranças eram mais visíveis e frequentes, agora não passam de borrões, e esse é meu medo, não quero que ela morra para sempre em mim.
Segurei em minha correntinha passando o pingente de um lado para o outro, como eu sempre fazia quando estava triste, ansiosa ou com medo. Foi presente de mamãe, em meu aniversário de seis anos, e é linda, dourada e com um pingente de cabala repleto de cores. Papai diz que o joalheiro garantiu ser peça única, e Madá brinca que, se um dia eu cometer um crime, serei descoberta por conta disso. O importante é que terei algo de mamãe para sempre em mim, algo que jurei não tirar do pescoço, e que sempre me serviu de válvula de escape quando as coisas não iam bem.
— Você nunca vai morrer dentro de mim, dona Eloá — assegurei com um sorriso, passando mais uma vez o pingente de um lado para o outro.
Em seguida, me recompus e caminhei em direção ao banheiro, onde me livrei cuidadosamente do vestido e me preparei para tomar uma boa ducha quente.
Desci meia hora depois, com os cabelos presos em um r**o de cavalo, vestida com uma camiseta oficial do São Paulo e com o short de moletom cinza que Madá escolheu. Optei por chinelos confortáveis. Já nos degraus da escada, tateei a mão pelo pescoço, à procura de meu talismã. Para meu alívio, minha correntinha permanecia lá, como sempre estaria.
Papai estava na sala, também vestido com sua camisa oficial, concentrado em seu jornal, sentado no sofá de frente para a tevê, onde passava o jogo em que seu time ganhara e que certamente ele deixou gravado. Balancei a cabeça e sorri.
— Ei! — Dei um beijo em sua bochecha e me sentei ao seu lado. — Pode me dizer por que está com a televisão ligada se não tira o olho do jornal?
— Estou atento às vagas de advogado para você, boneca — disse ele, ansioso. — Não quero que fique o tempo todo servindo café naquele escritório.
— Não é tão r**m — eu falei segurando em minha correntinha. — Quer dizer, são só três vezes por semana, e o tio Miguel é legal comigo. Ele até me deu folga nesses últimos dias.
— Nada mais justo — papai contrapôs, fechando o jornal. — Deve estar tentando compensar como tio, já que ele foi péssimo como irmão.
— E como cunhado também, suponho — brinquei, soltando meu pingente.
— Ora, boneca, se cunhado fosse bom, não começava com...
— Papai! — eu o interrompi antes que ele me matasse de vergonha.
Ele então gargalhou.
— Aposto que andou bebendo o vinho da Comemoração, seu Rodolfo!
— Quanto? — ele perguntou esticando a mão para mim, me desafiando.
— Vinte reais — respondi, esticando minha mão também.
— Tem certeza? Eu não costumo perder em apostas.
— Vamos lá, papai, eu aposto que o senhor bebeu o vinho da Comemoração — falei, confiante.
— Não vale desistir — provocou ele.
— Uma Alves nunca foge de uma aposta! — garanti, e ele apertou minha mão.
Papai meio que fez suspense, então revirou os olhos e tirou uma nota do bolso. Eu vibrei.
— Foi só meio copo, nem considero que bebi — resmungou me entregando o dinheiro. — Mas aposta é aposta. Você me orgulha tanto, boneca! Imagina quando se tornar advogada? Acho que este velho aqui vai chorar de emoção.
Pronto! Isso foi o bastante para eu segurar outra vez minha correntinha.
— Eu... err...vou ajudar a Madá na cozinha — falei, me levantando às pressas.
— Tudo bem — ele disse, voltando a abrir o jornal. — Não se esqueça de estudar para a OAB, não vamos fazer f**o.
Dei de ombros e apressei os passos. Eu não conseguia responder, não sem antes sentir um peso na consciência.
Esperei encontrar Madá cantarolando alguma canção italiana, já que, desde que entrou para a nossa família, eu tive a impressão de que a Itália invadiu nossa casa. Mas, para a minha surpresa, ela estava calada, concentrada em rechear a pizza. Então me encarou, meio séria, o que não era nada comum para alguém que estava sempre de bem com a vida e com piadas na ponta da língua.
—Está tudo bem? — perguntei, preocupada.
Depois de limpar as mãos no avental, ela fez sinal para que eu me sentasse à mesa. Ainda sem entender, obedeci. Madá espiou pela sala, como se estivesse se certificando de que nossa conversa não seria ouvida, depois suspirou, arrastou uma cadeira e sentou-se de frente para mim.
— Larah — ela disse baixinho —, sabe que eu te quero muito bem, bambina. Você e o Gustavo são como filhos para mim. Mas eu amo o seu pai, e sei o quanto ele sonha que você seja uma advogada, assim como ele foi. Então, se você planeja desistir da carreira, tem que ser sincera com ele.
— Ah, Madá... De onde você tirou isso? — perguntei em um riso nervoso, com a mão agarrada ao meu pingente. — É claro que não vou desistir... Eu...Nem passou pela minha cabeça.
— Larah! — Madá me repreendeu. Engoli em seco, não consegui olhar em seus olhos.
Ela se levantou, caminhou até o armário e abriu uma gaveta, de onde tirou um envelope.
— Chegou há alguns minutos — falou, depositando o papel sobre a mesa e sentando-se novamente. —É da academia de dança onde você se inscreveu.
Olhei para ela e pude ver a acusação em seus olhos. Passei o pingente de um lado para o outro, com a culpa visivelmente estampada em meu rosto.
— Madá, eu... Foi só por diversão, não foi nada sério, e...
— Você não está errada em querer seguir seus sonhos, bambina — ela me interrompeu. — Pelo contrário, já está na hora de tomar as rédeas da sua vida, mas tem que fazer isso do jeito certo. Converse com o seu pai, ele vai te entender.
—Como? — perguntei num sussurro, com meus olhos úmidos. — Como vou falar para o cara que é capaz de dar a vida por mim que eu não quero realizar o sonho dele, Madá?
— Bambina... — ela me confortou, segurando em minha mão. — Ele te ama! Talvez fique desapontado no começo, mas, com o tempo, vai aceitar.
— Isso não é justo — discordei balançando a cabeça. — Ele bancou a minha faculdade, Madá. Ameaçou meu tio para que me desse uma vaga em seu escritório. Perdeu noites me consolando quando mamãe se foi. O papai sempre foi o meu herói! Eu... eu não posso desapontá-lo, entende?
Madá assentiu.
— Eu não vou desistir — assegurei para ela. — Estou me empenhando, juro! Semana retrasada eu estudei para caramba, Ricardo até me ajudou com alguns artigos. Eu vou tentar passar na prova da OAB e vou ser uma boa advogada, como papai sempre quis que eu fosse.
— Eu sei que você tinha outros planos — ela disse complacente —, e sinto muito que não vá concretizá-los.
— Tudo bem. Não dá para ganhar muita grana como dançarina mesmo — brinquei.
— Mas é o que você gosta de fazer, bambina.
— Está tudo bem, Madá — falei, soltando o pingente. — O Guga vem?
— Ligou agora há pouco confirmando. Deve trazer a namorada.
Revirei os olhos.
— Qual é mesmo a da vez, Larah? Não posso confundir o nome como fiz com a outra bambina. Por Dio! Esse ragazzo troca de namorada como se troca de roupa.
— Dessa vez ele se superou — comentei, pescando uma maçã na fruteira. —É aquelazinha de nariz empinado que vive repetindo que é modelo, que só usa batons importados , roupas exclusivas, ou seja, só tem titica de galinha na cabeça.
— Ah, a que perguntou se você estava grávida.
— Nem me lembre disso. Eu aqui, me matando para emagrecer, e a fulaninha insinuando que estou gorda.
— Mas você se vingou — Madá falou se levantando.
Franzi o cenho.
— Quando perguntou se ela já tinha escutado alguma música da Agatha Christie — relembrou ela, colocando a pizza no forno. — E a moça respondeu toda empolgada que sim! Claro! Diversas vezes! Inclusive tinha uma coletânea dela!
Eu ri ao me lembrar da cena. Foi durante um jantar em nossa casa, dias após Emile ter insinuado que eu estava gorda. A esnobe nem percebeu que tinha cometido uma gafe das grandes. O Guga me olhou fulminante e papai me encheu de sermões depois, mas Madá saiu em minha defesa e relembrou o comentário m*****o que ela tinha feito.
— Fico pensando na Agatha compondo uma música — Madá comentou, ainda de pé. — Não ia sobrar nenhum, literalmente.
Eu ri tão alto que me engasguei com um pedaço de maçã.
— Boneca? — papai me chamou da sala.
— Ooooi — respondi, já de pé, encostada no batente que dividia os dois cômodos.
— Você não se esqueceu de chamar a Linda, não é?
— É claro que não, papai. Eu mandei mensagem logo cedo. Ela disse que ia fazer de tudo para o carro dela pegar, mas que não perderia as pizzas da Madá por nada.
— Larah? — Madá me chamou baixinho.
Olhei para trás e estranhei sua expressão preocupada.
Então ela empalideceu.
E caiu inconsciente no chão.