Meu grito ecoou pela casa.
Papai veio depressa e assim que viu Madá caída, tomou-a pelos braços e me mandou buscar os documentos necessários para irmos até a clínica do tio Fernando, seu irmão e médico da família.
Agarrei em minha correntinha e tentei cumprir suas ordens o mais rápido possível, rezando mentalmente para que aquilo não acontecesse outra vez.
Eu tinha dez anos quando mamãe se foi, tão de repente que ainda tinha a impressão de que foi ontem. Certa noite ela desmaiou e foi levada às pressas por uma ambulância, com papai sempre ao seu lado. Eu e Guga fomos arrastados para a casa da vizinha, sem saber direito o que acontecia, minutos depois recebemos uma ligação do hospital, nos avisando que tínhamos perdido um pedacinho nosso para sempre.
Deus, se tudo ficar bem, eu juro que não excedo o limite do cartão de crédito no próximo mês.
Levei meu pingente à boca e selei minha promessa com um beijo, enfiei os documentos em minha bolsa, passei a chave na porta e caminhei até papai, que estava petrificado de frente para o carro, com Madá ainda desfalecida em seus braços.
—Ei — eu o chamei —, já tá tudo pronto, podemos ir.
Ele olhou para mim, meio que derrotado.
— Acho que não terei condições de dirigir.
— É a labirintite...? — perguntei e ele fez que sim com a cabeça — Tudo bem, eu dirijo.
— Sua carteira foi cancelada, boneca.
— Não tem blitz uma hora dessas, papai, e se tiver a gente diz que foi emergência. Vamos, vai ser moleza.
Papai olhou do carro para mim, em total conflito interno.
— Precisamos chegar vivos, Larah — ele advertiu com cautela e me lançou um olhar sugestivo.
— Foram só alguns cones — contestei, entrando no carro, onde assumi a posição de motorista.
— E um guarda com a perna quebrada em três lugares — Papai acrescentou, mas fez o mesmo, ajeitando-se com Madá no banco traseiro.
Rezei um pai-nosso todo atropelado, liguei o carro e dei partida, confiante de que daria tudo certo. Porque tinha que dar.
— A nova clínica do tio Fernando fica no centro da cidade — expliquei quando papai questionou meu excesso de velocidade —, se dermos sorte com o trânsito chegamos em vinte minutos.
— Eu pretendo chegar de carro, Larah, não dentro de um Samu — ele resmungou.
— Confia em mim, não é porque eu quebrei a perna de um guarda que posso ser considerada um perigo no trânsito.
— Não é questão de confiança, boneca. Não faz essa cara, confiamos em você.
— O que acont... Santo Dio! É a Larah quem está dirigindo! — Madá gritou.
Madá!
Olhei para trás e estrilei de felicidade:
— Madá! Ah, Madá, que bom que você voltou!
— Amore mio, que susto você nos deu — papai lhe falou aliviado —, Larah, olhe para frente.
Revirei os olhos e obedeci, aproveitei para diminuir a velocidade antes que ele me desse mais alguma bronca.
Depois de explicar para ela o que aconteceu, e de recusar sua proposta de voltarmos para casa, papai a envolveu em um abraço apertado e eu me demorei olhando para eles através do espelho.
Pensei em Ricardo e meu coração deu piruetas. Teríamos uma vida inteira pela frente e apesar de tanta dificuldade, chegou a minha hora de ser feliz.
Madá olhou para mim e sorriu, mas logo arregalou os olhos e gritou alguma coisa em italiano.
E foi aí que eu bati bem atrás do outro carro.
A dona do carro no qual bati era uma megera presa num corpo de barbie.
Invejavelmente magra, pele preta e livre de quaisquer mancha, cabelos cacheados, visivelmente macios, que caiam até seu ombro, e ainda por cima ela entendia de moda — não era todo mundo que conseguia combinar um vestido tubo metálico com algum tipo de salto.
Depois de me xingar de tudo quanto era nome e de ameaçar chamar a polícia, a doida começou a andar de um lado para o outro, batucando seus saltos vermelhos sobre o asfalto, os carros atrás da gente pipocavam em buzinas enlouquecidas.
— Você amassou meu carro! — acusou pela milésima vez, apontando o dedo imperioso para mim.
— Foi um acidente — expliquei, cansada. — E na boa, será que dá pra parar de gritar? Eu sou barbeira e não s***a.
— Boa, bambina — Madá cochichou logo atrás.
— Você se acha tão engraçada não é? — Ela perguntou, furiosa, com seus olhos, claros e bem maquiados, cravados em mim.
— Muito — respondi, sarcástica — inclusive, vou investir na minha carreira.
— Tenta uma vaga no circo — ela disse, irônica, acendendo calmamente um cigarro. — Com esse hematoma aí daria uma boa palhaça.
Toquei a protuberância que formara-se em minha testa, devido ao impacto, e me odiei por ter deixado-a vencer essa.
— Por favor, meninas, vamos resolver as coisas como adultos — papai pediu, arrancando uma folha de cheque —, infelizmente não poderei esperar, minha esposa passou m*l e estamos a caminho do hospital...
— Eu estou muito interessada na sua esposa, velhote! — Ela interrompeu apanhando o cheque.
— Não chame o papai assim! — Protestei dando um passo a frente — É melhor retirar o que disse senão...
— Senão o quê? — ela desafiou em meio a uma baforada.— Está vendo esse lindo rosto? Pois é, a passarela precisa dele, um arranhãozinho e você terá que vender a alma para pagar indenização.
— Ao menos eu tenho uma — retruquei de nariz empinado.
Ela jogou o cigarro no chão e o pisoteou lentamente, com seu olhar furioso cravando em mim. Não me intimidei.
— Larah, já para o carro — papai interveio me afastando para trás —, perdoe-a, são os preparativos para o casamento.
— Ah, faça-me o favor! Sua filha arranja um doido pra casar e vem comemorar batendo na traseira do meu carro?
— Pois é, adoro comemorações em grande estilo — eu disse cheia de ironia e Madá riu baixinho.
— Por favor, Larah, facilite as coisas. Moça, fique com meu cartão, atrás dele tem meu telefone, lamentamos muito.
— Eu não lamento — retruquei e papai me censurou com o olhar. — Qual é? Foi ela que começou!
— Eu?! Você amassou meu carro importado, sua i****a!
— FOI UM ACIDENTE! E não precisava ter armado um barraco!
— É um Audi, i*****l!
— Não me chame de i*****l, i*****l!
— Cala a boca!
— Vem calar.
Pronto.
Num piscar de olhos ela partiu para cima de mim e tudo virou um borrão.
A desconhecida grudou em meus cabelos e eu fiz o mesmo, com seus cachos entrelaçados nos meus dedos. Os carros estrilaram em mais buzinas, alguma coisa ofuscou minha visão e mãos fortes agarraram minha cintura, alguém saiu de um carro e fez o mesmo com ela.
E então fomos separadas.
— Não cruze meu caminho outra vez! — ela berrou esperneando.
— Nossa, se você não avisa eu juro que já ia fazer isso — rebati, tentando, em vão, investir em cima dela outra vez.
— Chega, Larah — papai ordenou ainda segurado em minha cintura —, essa discussão acaba aqui!
— Mas...
— EU DISSE CHEGA!
Obedeci e ele me soltou, então lançou um “obrigado” ao rapaz que ajudou a apaziguar a briga e em seguida voltamos para o carro. Outra luz encandeou meus olhos e eu cobri o rosto.
— Coloquem os cintos — papai anunciou, assumindo a posição de motorista —, a labirintite já passou.
— Eu posso dirigir — me ofereci e ele me silenciou com o olhar.
Bufei e me sentei no banco traseiro, Madá piscou para mim e eu sorri para ela, com a mão agarrada em minha correntinha.
— Larah, o que foi aquilo?! — papai perguntou por fim.
— Eu... eu perdi o controle.
— Advogados não saem por aí perdendo o controle, Larah. Por Deus, se aquela mulher chamasse a polícia sua futura carreira estaria arruinada!
— Eu sei papai, é...
— Que isso não se repita — ele me cortou com a voz imperiosa.
— Não vai se repetir, foi só... um dia r**m — prometi e encostei a cabeça na janela, movendo meu pingente de um lado para o outro.
Chegamos afoitos à clínica do tio Fernando.
Madá havia desmaiado outra vez e logo foi levada às pressas para a sala de emergência. Papai entrou em desespero e eu, com a mão agarrada em minha correntinha, não deixava de me sentir culpada.
Eu nunca fui de arrumar confusão e sempre tentei a todo custo não desapontar minha família, mas justo hoje, quando tudo o que eu devia fazer era trazer a gente até aqui, arranjei uma baita briga de trânsito com uma desequilibrada. Talvez papai estivesse certo, os preparativos para o casamento estavam deixando meus nervos à flor da pele, sem falar do noivo, que parece nem lembrar que eu existo.
Engoli em seco e me sentei ao lado de papai, numa das poltronas de couro.
— Desculpe ter gritado com você boneca — ele disse cabisbaixo. — Sabe, esse velho às vezes é um b****a.
Meus olhos marejaram de imediato e eu passei o pingente de um lado para o outro.
Ah, papai, como eu poderia decepcionar você?
Passei a mão em sua careca e deitei minha cabeça em seu ombro, assegurando a todo instante que tudo ficaria bem.
— Larinha do céu, o que aconteceu?
Levantei o rosto e dei de cara com Linda. Eu havia ligado para ela ainda no caminho e pedi para que viesse urgentemente para cá, por detrás estava Gustavo, falando com alguém pelo celular.
— A Madá... Ela... desmaiou — eu expliquei ainda atordoada.
Linda se sentou ao meu lado, e Guga, depois de desligar o aparelho, sentou-se junto a papai.
— O tio ainda não deu notícias? — ele perguntou, evitando contato visual comigo.
— Não. Ele entrou com a Madá na sala de emergência e ainda não voltou.
— Essa espera está me matando — papai desabafou e eu grudei em meu pingente.
— Vai ficar tudo bem, tio — Linda o confortou —, a Madá é forte, e se meu pai ainda não veio falar com vocês então não deve ter sido nada grave, quer dizer, notícia r**m sempre chega logo, não é?
Papai abriu um curto sorriso para ela, como se desejasse muito acreditar que aquilo fosse verdade.
— Onde está a Letícia? — Ele perguntou para Guga e eu segurei o riso.
— Emile, meu pai.
— Ah, Deus, como sou tonto, perdoe.
— O senhor não tem culpa se o Guga troca de namorada a cada três meses — alfinetei.
— É, ainda bem que nenhuma delas me quebrou um vaso na cabeça — ele rebateu.
— Do que vocês estão falando? — Papai perguntou atordoado.
— Gustavo, por que você não leva o tio para tomar um chá? — Linda interveio.
Guga a encarou com seus olhos parecidos aos meus e eu não precisei olhar para ela para saber que a essa altura sua pele ruborizava.
— Um chá seria ótimo, vamos Gustavo, você aproveita e me diz como vão as coisas com sua nova namorada.
Sem esperar por resposta, papai se levantou e deu passos largos em direção ao corredor, Guga bufou, mas logo obedeceu resignado.
— Você quer alguma coisa, Pocahontas? — ele perguntou à Linda e eu sabia que ela estava vermelha outra vez.
— Não, obrigada — agradeceu com a voz falhada.
— E você, pirralha? — Meu irmão perguntou se dirigindo a mim.
Entendi que aquilo fosse uma espécie de trégua entre a gente.
— Não, só cuida do papai. Por favor.
Ele assentiu e os dois saíram rumo à cantina.
— O maldito é lindo — Linda resmungou e eu olhei para meu irmão.
O número de algum jogador do São Paulo estampado na sua camiseta foi a última coisa que vi antes de ele desaparecer pelo corredor. Apesar de estar furiosa com ele, devo concordar que meu irmão é um gato.
Gustavo é tipo aquele cara com pinta de badboy que faz as mulheres em sua volta suspirar — alto, braços fortes, cabelos castanhos e com um corte descolado, piercing no nariz, barba rala e tatoo na perna —, não era de se estranhar que ele tivesse tido tantas namoradas.
— Vocês pareciam duas crianças — Linda me repreendeu logo em seguida, seus olhos enormes e escuros grudaram nos meus.
— O Guga quem começou com essa guerra. Precisava ele ficar sem falar comigo só por que eu decidi perdoar o Ricardo?
— Larinha, ele é seu irmão, é normal se... Vem cá, que m***a é essa na sua testa?
— Uma longa história — falei tocando de leve na protuberância que se formara no local —, vou ser a noiva mais ridícula do mundo.
—Não tá tão r**m, nada que suas maquiagens não resolvam. Falando nelas, chegou mais pedido seu no meu e-mail, alguém aqui andou estourando outra vez o cartão de crédito, não foi?
— Ah, Linda, estavam em promoção, e a loja aceitou parcelar tudo em dez vezes, sabe como é, eu não resisto.
— Claro que eu sei, não te conheço desde meus sete anos à toa — ela debochou, jogando seus cabelos escuros e escorridos por trás dos ombros.
Linda era, de fato, a versão branca da princesa da Disney. Entre a cópia e a original, eu não sabia dizer qual era a mais bonita.
— Ei, como o Guga soube que estávamos aqui? — Perguntei depois de alguns segundos.
— Ah, hum... Não comece com suas gracinhas, é que eu... Liguei para ele e pedi carona, o Tufão resolveu não pegar outra vez e...
— E ele como bom samaritano te ajudou. Que romântico — eu brinquei e ela me deu uma cotovelada. — Qual é? Só tô criando um roteiro de novela mexicana aqui.
— Larinha, você é insuportável às vezes, além do mais, seu irmão não sossega o faixo, definitivamente não é o cara que procuro.
— Não, mas é o cara por quem é apaixonada desde... hum... os dez anos talvez...?
— Doze, e não é paixão — olhei para ela com cara de cética. — Tudo bem, talvez seja, mas eu posso lidar com isso. E somos primos, esqueceu?
— Não biologicamente. Eu sei que você considera meu tio como seu pai, mas não há laços de sangue, ok?
— Alguns laços são mais fortes, Larinha, já te disse isso, e você sabe como meu pai é rígido, ele não pode nem sonhar que eu tenho uma quedinha pelo seu irmão.
—Tudo bem, não está mais aqui quem falou — jurei levando o dedo à boca —, ei, tem notícias da Bela?
— Ah, que cabeça a minha! Ela me ligou hoje de tarde e disse que vai ter show ao vivo no quiosque amanhã, já confirmei nossa presença.
— Ah, eu... Eu só quero ficar em casa olhando tutoriais de maquiagem e lendo algum romance, por favor.
— Sem essa Larinha, há tempos que a gente não se diverte, amanhã é minha folga aqui na clínica. E temos nossa sessão pela manhã, não se esqueça.
— Não — miei —, desde quando eu virei sua cliente assídua?
— Desde quando eu decidi, vamos lá, Larinha, não é como se eu fosse a pior psicóloga do mundo.
— Você é ótima na verdade, mas tudo anda bem Linda, não vejo motivos pra correr no calçadão e responder milhares de perguntas, na boa, me libera dessa?
— Antes das sete eu passo na sua casa— e encerrou o assunto, batendo em meu ombro.
Revirei os olhos.
— O que acha de me adiantar um pouco hoje? — Sugeriu.
— Como assim?
— Sei lá, me fala como anda as coisas com seu noivo, ele já te deu notícias desde a última vez que vocês se viram?
— Uhum — menti, apoiando a cabeça na parede gelada.
— Larinha.
— Tá legal — bufei impaciente. — Não, ele ainda não ligou. Sim, ele broxou outra vez. E sim, mil vezes sim, eu tô a ponto de bater na casa dele e exigir explicações, mas ao invés disso, eu repito mentalmente que tudo vai ficar bem e espero que meu coração se convença disso uma vez por todas.
Respirei fundo e meus olhos se encheram de lágrimas.
— Desculpe.
—Tudo bem — falei com a mão em meu pingente.
— Não, desculpe Larinha, não é um bom momento para isso.
— Não é um bom momento para o quê? — um homem alto, vestido de jaleco, perguntou à nós, com seu prontuário nas mãos.
Tio Fernando era a cópia fiel de papai— alto, pele bronzeada, olhos castanhos e nariz pontudo —, a única diferença entre os gêmeos era que agora Tio Fernando tinha cabelo.
“Peruca.”, papai debochava nos almoços de família, “Meu irmão comprou uma peruca.”
“Não é peruca.” , tio Fernando rebatia, persuasivo, “E sim um método alternativo para não ficar careca.”
“Viram só?”, Papai ria. “Peruca!”
E então começava a boa e velha discussão entre os irmãos Alves, que acabava logo depois de uma ou duas cervejas.
— Pai! — Linda exclamou, levantando-se, e o envolveu num abraço apertado.
— Onde tá a Madá? — perguntei com um nó preso em minha garganta, meu pingente se misturou com o suor entre meus dedos e meu coração bateu forte dentro do peito.
— Ah, Deus, aí está você, homem, já o procuramos pela clínica inteira! — Papai falou aproximando-se de nós, Guga olhou ansioso para nosso tio e um silêncio incômodo pairou no local.
— Por favor, sentem-se, vou responder à todas as perguntas, mas antes disso quero todos sentados, e que rufem os tambores.
— Isso não é hora para brincadeiras, Nando — papai retrucou, sério, mas obedeceu, jogando o corpo sobre a poltrona.
Fizemos o mesmo.
—Homem, sossega. Vim com boas notícias — todos nós suspiramos aliviados —, Madá está ótima. A princípio eu constatei que foi apenas uma queda de pressão e hipoglicemia. Ela confessou que não se alimentou direito esses dias, o que é algo imperdoável para alguém em seu estado. Ela já está acordada e só posso garantir que os dois estão muito bem nesse momento.
— Os dois...? — Perguntei com meu cenho franzido, prestes a soltar um grito de alegria.
Tio Fernando alargou o sorriso.
— Ou três. Só saberemos a partir do quarto mês.
— O que você está...— Papai deixou a pergunta morrer.
— Só quero parabenizar meu irmão por ele ser pai novamente. É isso mesmo, Madá está grávida e a família acabou de aumentar. Larah, já pode gritar, só não estoure nossos tímpanos.
E eu gritei.
A clínica virou uma festa e eu desejei congelar o tempo naquele momento, só para guardar o pedacinho de felicidade que pertencia à gente.