Papai decidiu que faríamos uma comemoração em grande estilo — o que em sua língua significava muita pizza, taças de vinho e rodadas intermináveis de bisca.
A muito custo conseguimos convencer o tio Fernando a vir conosco, Linda dispensou a carona do Guga e veio de carro com o pai. Já papai insistiu para que eu viesse com meu irmão porque não queria que ele andasse sozinho por essas estradas, mas eu desconfiei que sua real intenção fosse ficar a sós com a esposa.
Ao entrarmos em casa, fomos engolidos por uma nuvem de fumaça acompanhada de cheiro-de-coisa-queimada; a pizza que Madá deixou esquentando já era!
Quando ela desmaiou, e toda aquela correria começou, eu esqueci completamente de desligar o forno, nessas horas a gente não pensa em nada.
Papai então encomendou mais pizzas, Guga e tio Fernando sentaram-se no sofá, bebericando vinho e jogando conversa fora, Linda se prontificou para ajudar Madá com a palha italiana — na verdade o que ela queria mesmo era beliscar a sobremesa —, e eu estava aqui, do lado de fora de casa, com o celular na mão, ligando em vão pela milésima vez para Ricardo.
O telefone chamava, chamava, e depois ia para a bendita caixa-postal. Meu noivo devia estar por aí, em algum motel, fazendo com outra o que não estava conseguindo fazer comigo.
Droga, eu não deveria ter ligado!
Eu sempre soube nos livros de auto-ajuda que se um cara não te liga e vocês não tiveram nenhuma briga séria, você não deve ligar, a menos que algo muito trágico tenha acontecido. Mas eu, como sempre, quebrei a regra e meti os pés pelas mãos, só para meu coração se encher de esperança para depois murchar.
Até quando eu vou esperar por você, Ricardo?
Segurei minha correntinha, apoiei os braços sobre o pequeno muro e olhei para o céu estrelado, eu gostava de olhar para cima e imaginar que mamãe estava ali, me observando por detrás de algum pontinho brilhante.
— Está tudo bem, querida? — Madá perguntou atrás de mim e eu rapidamente enxuguei as lágrimas.
— Ah, sim, é... eu estava ligando para o Ricardo... pra contar sobre o bebê, hum... ele mandou eu te desejar parabéns.
— Claro que sim — ela falou se pondo ao meu lado e imitando minha posição. — Como vão as coisas entre vocês?
— Entre a gente? Ah... vão bem — falei com a mão grudada na correntinha. — quer dizer, ele só andou ocupado essa semana, mas... tá tudo bem.
— Você é uma estrela, bambina. — Madá falou pousando sua mão sobre meu ombro — Toda mulher é. Não permita que homem algum tire o brilho que há em você.
Concordei com a cabeça e soltei o pingente.
— Obrigada — agradeci meio boba.
— Não por isso — ela disse afetuosa. — Vamos? Temos que formar as duplas para a bisca. Oddio! Tomara que eu não faça par com o Gustavo, esse ragazzo anda péssimo no jogo!
Eu ri e passei meu braço no seu, repetindo para mim mesma a frase que Madá dissera.
As pizzas não demoraram para chegar. Depois de formarmos as duplas, nos reunimos à mesa, todos vestidos com a camiseta oficial do São Paulo — exceto tio Fernando, que não fazia parte da aposta.
Foi um acordo que fizemos, anos atrás. Sempre que o time de algum de nós vencia para o adversário, era lei usarmos a camisa do time vencedor; comer pizza e beber vinho. Batizamos esse ritual sabiamente de Comemoração.
Mais cedo teve Majestoso, São Paulo ganhou de três a dois do Corinthians, papai entrou em euforia, Madá bateu o pé, e eu fiquei encarregada de avisar a Gustavo e Linda sobre o acontecimento.
Madá corintiana; papai são paulino, Linda é do Vitória, Gustavo; Bahia. Só eu que ainda não tinha time definido, porque na verdade eu passei anos planejando enxoval e lendo romances, na esperança de um dia viver algo parecido.
Enquanto o pessoal interagia por aqui, eu mergulhava em paranoias, e conferia, a todo instante, o celular, crente de que havia recebido uma mísera mensagem do meu noivo, me garantindo de que tudo estava bem.
Eu só precisava disso para me sentir segura.
—... então a donna agarrou nos cabelos da Larah e as duas começaram a... Como é que vocês falam mesmo, amore mio...? — Madá perguntou estalando os dedos.
— A se engalfinhar...? — papai tentou e ela assentiu.
Todos olharam para mim, soltei o pingente e ri.
— Foi uma loucura, santo Dio! Mas foi uma loucura tão boa, amei ver a Larah sair da caixinha!
Me enverguei para trás, sacudindo os ombros de tanto rir.
— Casinha, Madá — corrigi, engasgada em minha própria risada.
— Você precisa me ensinar essas gírias novas, Larah, vivo pagando um mico atrás do outro, Oddio!
— Ah, eu ensino, mas é tão engraçado quando você se atrapalha, Madá.
— Bambina ingrata — ela resmungou, pediu licença e levantou para buscar a sobremesa na cozinha.
Era tão bom vê-la assim — esbanjando saúde —, caminhando tão leve que parecia flutuar, com um coque sempre feito no topo da cabeça e vestidos exóticos em seu corpo esguio. Então me senti egoísta por estar me preocupando com meu noivo ao invés de me sentir feliz por Madá.
Se ao menos eu soubesse como seria viver sem ele...
Afastei esse lampejo de pensamento na mesma velocidade que ele veio, eu não saberia viver sem Ricardo, em qualquer vida eu seria sua noiva e ele o homem que escolhi para me fazer feliz, tão simples como preto no branco.
— Ei, tá tudo bem, Larinha? — Linda perguntou do meu lado. — Tá com cara de preocupada.
Olhei para ela e forcei um sorriso.
— Experimenta casar e você vai ver — eu brinquei segurando outra vez minha correntinha.
— Ainda dá tempo — ela estalou a língua —, sabe, pra desistir e fugir com um galã de novela.
— Nem comece — cortei-a, dando uma cotovelada em seu braço.
— Só estou cumprindo meu papel chato de melhor amiga — ela revirou os olhos de uma forma teatral.
Verdade fosse dita, esse papel sempre seria dela.
Nos conhecemos ainda crianças, quando tio Fernando casou-se com sua mãe. Ela, a filha nerd e antissocial da tia Lena, vivia emburrada pelos cantos, e era difícil manter qualquer tipo de aproximação sem receber uma patada intelectual.
Acabei comprando sua amizade com alguns HQs e dois pacotinhos de pipoca, e prometemos que se um dia nós nos afastássemos, cantaríamos a música da Canoa Furada como pedido de desculpas.
E desde esses mais de quinze anos de amizade, nunca houve atritos entre nós que não se resolvesse com uma panela de brigadeiro e abraços apertados. Eu sei, contudo, que algo de errado vem acontecendo.
Tudo bem que Linda nunca foi a favor do meu relacionamento com Ricardo, mas no geral ela permanecia quietinha e só manifestava algum tipo de opinião quando eu pedia. Agora, se eu respirava diferente já era motivo para ela me encher de perguntas e começar com conselhos gratuitos de uma boa psicóloga graduada.
Mas não era só isso... Eu sabia que ela me escondia algo.
Por mais que eu repetisse para mim mesma que isso era apenas paranoia, algo me dizia, lá no fundo, que ela não estava sendo totalmente sincera comigo. Então eu afastava essa dúvida da minha cabeça e me convencia de que Linda jamais mentiria para mim.
— Ei, pirralha, passa mais pizza — Guga me pediu, ainda distraído na conversa com papai e tio Fernando.
Passei a bandeja para ele e admiti mentalmente que precisávamos fazer as pazes logo.
Nós nunca brigamos f**o, tínhamos desavenças, como todo irmão, mas a gente sempre se entendia no fim das contas, e acabava encobrindo os erros um do outro.
Como quando ele fez sua primeira tatuagem, sem permissão, pouco abaixo da barriga, e eu o lembrava de nunca tirar a camisa na frente do papai, ou quando eu taquei o vaso na cabeça do Ricardo e estampei o jornal da cidade — Guga conseguiu subornar o rapaz que fazia entrega na barraquinha da nossa rua e deu fim aos exemplares —, onde alguém muito m*l amado escreveu a seguinte matéria sobre mim.
“É oficial. A nova namorada de Ricardo Albuquerque parece sofrer de desequilíbrio mental. Após se envolver em um acidente de trânsito meses atrás e quebrar a perna de um guarda que fazia ronda no local, a jovem, não satisfeita, decidiu que jogar um vaso na cabeça de um dos partidos mais cobiçados da cidade seria uma boa forma de chamar atenção. A família Albuquerque preferiu não comentar sobre o ocorrido, mas uma fonte segura nos afirmou que, para o bem da nação, o namoro dos dois chegou ao fim, Agora é torcer para que dessa vez seja algo definitivo ou então alguém precisará frear Larah Alves, literalmente.”
Eu fiz questão de decorar cada vírgula daquele texto só para jogar na cara do Ricardo o quanto nossa relação vivia exposta.
Apesar de os jornalistas não estarem mais no nosso pé como antes, sempre havia uma câmera escondida, esperando pelo momento certo de nos flagrar em alguma situação constrangedora e que venderia boas notas — era o preço que tinha de pagar por namorar alguém tão cheio da grana e influente, não que isso fosse importante, eu escolheria Ricardo mesmo se ele morasse no olho da rua ou usasse roupas bregas.
Ainda assim seria ele.
Eu andava m*l no jogo.
Deixei minha bisca ser ralada três vezes e nas outras partidas não me atentei aos sinais que tio Fernando, minha dupla, lançou para mim, e como valia goles desvairados de vinho e meu tio não podia beber porque estava dirigindo, acabei tomando tudo por nós dois, e fiquei zonza e sonolenta como consequência.
Depois de derrotas vergonhosas acabamos sendo eliminados, eu levantei do tapete em frente à mesinha de centro — onde a gente sempre se reunia para jogar bisca —, e me joguei no sofá, com o celular grudado na mão, em busca de um reles sinal da operadora. Depois de um tempo, ele já estava cheio de sinal, e pelo visto meu noivo estava cheio de mim.
Mais uma vez pensei nele.
Fomos felizes por um bom tempo, e eu acredito que ainda seremos novamente. O que está acontecendo — e o que não está também — trata-se apenas de uma crise, uma fase que todo relacionamento deve ter vez ou outra.
O amor tem dessas, te empurra para a pessoa ao mesmo tempo em que a afasta de você.
— Boneca, venha aqui — papai me chamou minutos depois —, sabe que eu sempre tenho sorte quando fica do meu lado.
Eu ri e obedeci, ninguém era louco de contrariar as superstições do senhor Rodolfo.
Ia começar a última partida, Madá e Linda permaneciam com um ponto à frente de Gustavo e papai, como eu não sabia para quem torcer decidi me manter neutra.
Madá embaralhou, Guga deu o corte, e, com destreza, ela começou a espalhar as cartas.
Papai abriu seu jogo e eu o conferi por detrás de seu ombro, o malandro estava recheado de trunfos e cartas boas, tio Fernando falou alguma coisa atrás da Linda e logo foi repreendido por Guga — em jogos como esse era proibido qualquer tipo de comunicação, levávamos isso a sério.
— Isso aqui está tão r**m — papai blefou depois de coçar a cabeça, infrigindo a regra do silêncio.
Eu sabia, pelas experiências que tinha como sua dupla, que ele estava dando sinal para seu parceiro obrigar o jogo, mas meu irmão estava concentrado demais no decote da Linda para prestar atenção nisso.
— Anda logo, Gustavo — Madá o apressou —, já sabemos que você vai fazer burrada mesmo.
E ele fez.
Saiu com uma carta r**m, que Linda logo cortou com outra maior e papai teve que gastar um trunfo para poder assumir o jogo — e eu sabia que ele estava xingando o Guga em pensamentos.
Ele então obrigou, ralou a bisca da Linda, e não deixou as adversárias pegar mais nenhuma carta.
— Seria liso — papai resmungou —, pelo amor de Deus, Gustavo, por que não obrigou o jogo? Pra que diabos você quer trunfo?!
— E como eu ia saber que era pra obrigar, meu pai?
— Prestando atenção em mim, oras bolas.
— Ah, eu... me distraí.
— O jogo era nosso — papai bufou —, você tinha um trunfo e apenas uma carta fraca, seria liso, ganharíamos dois pontos e venceríamos. Só bastava sair com seu trunfo, eu te dei o sinal.
— Que sinal? — ele perguntou aturdido.
— Seu pai coçou a cabeça — Madá explicou —, e ele nem cabelo tem.
— Eu estou acostumado a jogar com a Pocahontas — meu irmão explicou —, vai ver é isso, ela me dá sorte — e estalou um beijo na bochecha da Linda, que acabou se engasgando.
— Olha só a saliência, rapaz — Tio Fernando resmungou —, se não fossem praticamente irmãos eu não deixaria tamanha i********e.
— Ah, tio, eu sou o genro que todo mundo pediu a Deus — Guga falou ajeitando os cabelos desgrenhados —, além do mais, eu e a Pocahontas faríamos um belo casal — e como se estivesse achando pouco, Gustavo abraçou Linda, deixando-a envergonhada, e furiosa.
— Até parece — ela disse desvencilhando-se de seus braços — que eu estou tão louca a esse ponto.
— O quê?! — Ele perguntou fingindo indignação — Ah, qual é? Sou um menino de ouro!
— Claro que é, querido — Madá interveio com sua fala mansa —, pena que vem com selo de validade.
Todos nós rimos.
—Você não perde uma, Madá — Guga resmungou —, vai ver é por isso que te amamos — e abriu aquele seu sorriso s****o, que deixava Linda toda derretida.
— Sou imune aos seus galanteios, ragazzo — Madá brincou em meio a um bocejo. — Santo Dio, acho que alguém aqui dentro de mim está reclamando de sono.
— Vou colocá-los para dormir — papai anunciou todo babão, envolvendo a esposa em seus braços.
Mais uma vez me senti culpada só de pensar em desapontá-lo.
— Oddio, me sinto tão velha para isso — Madá resmungou e papai a interrompeu, roubando-lhe um beijo.
— Eu nunca terei maturidade para ver isso — Guga cochichou no meu ouvido.
Eu ri e soltei o pingente.
— Eles nem esperaram um boa noite nosso — Linda brincou. — desapareceram pelas escadas como se o resto do mundo não existisse.
— O amor tem dessas esquisitices, Pocahontas.
Eu estava prestes a soltar um comentário irônico, mas quando olhei para o lado acabei flagrando os dois numa troca de olhar intensa e nem um pouco sutil.
Oh, oh!
— Precisamos ir — Tio Fernando pigarreou, uma pontinha de irritação na voz. — Linda...?
— Vem — puxei-a pelo braço —, eu te acompanho até a porta.
— Obrigada — ela sussurrou quando nos afastamos.
— Vem cá, o que foi aquilo? — Perguntei quando estávamos do lado de fora.
— Eu não sei — ela cochichou e os cantos dos lábios teimavam em subir —, mas é melhor não ver coisa onde não tem.
— Segredos...? — Tio Fernando perguntou atrás de mim.
— Claro que não, pai — Linda forçou um sorriso —, boa noite, Larinha, não esquece da nossa caminhada amanhã.
— Como se você deixasse — resmunguei abraçando-a. — Boa noite, sua chata.
— E eu não ganho abraço não? — Guga perguntou, aparecendo de supetão — E não estou pedindo o seu, pirralha.
— Ah, como se você fosse merecedor dos meus abraços apertados — retruquei.
— Vamos lá, Pocahontas, estou esperando.
Virei-me para ele e sibilei um “Pelo amor de Deus, Guga!”, mas meu irmão sequer me ouviu, apenas mantinha o olhar em Linda, com aquele seu sorriso cafajeste nos lábios.
— Gustavo — Tio Fernando o chamou —, vai ligar o carro pro seu tio. Acho que preciso trocar de óculos.
— Ou de carro — Linda brincou e eu ri baixinho —, eu te espero lá dentro pai, vamos, Gustavo.
— Sim, senhorita — meu irmão bateu continência, pescou as chaves da mão do nosso tio e, de mãos dadas com Linda, seguiu até o fusca azul, estacionado em frente à nossa casa.
— Não consigo desapegar desse carro — meu tio confessou, ao meu lado.
— É normal, tem certas coisas que a gente não desapega nunca. — falei, pensativa.
— Você está certa. É que a Linda vive insistindo que ele está velho demais. Ela se preocupa, sabe? Sempre foi tão racional que não leva em conta meus sentimentos.
— Eu entendo perfeitamente — falei, passando o pingente de um lado para o outro.
— Então, cinco dias hein? — Ele me cutucou depois de algum tempo. — Como está essa cabecinha?
— Cheia de preocupações, tio. Mas vai dar tudo certo.
— Claro que vai — ele disse depois de plantar um beijo em minha testa —, boa noite, Larah.
— Boa noite tio, vai com cuidado.
Tio Fernando aquiesceu e deu as costas, desceu os três primeiros degraus, então se deteve e voltou o rosto para mim:
— Eu sei que meu irmão não aprova seu noivo, mas eu até gosto do rapaz. E Linda também, o que é um verdadeiro milagre.
Eu meio que franzi o cenho.
Linda detestava Ricardo e o sentimento era recíproco, se eu não tivesse quebrado o vaso em sua cabeça, com certeza ela faria isso em meu lugar.
Imaginando que meu tio estivesse caducando antes dos cinquenta, decidi entrar na onda.
— É. Ela o... adora. — comprimi os lábios para não rir.
— Sim, eu percebi — ele falou sério, com as mãos no bolso. — Não é qualquer pessoa que consegue arrastar minha filha para um almoço em pleno horário de trabalho.
— Hã? — Perguntei confusa.
Ela nunca mencionou nada sobre almoçar com Ricardo.
Meu tio estudou meu rosto por alguns instantes e uma pontada de tristeza cruzou seus olhos, ele balbuciou um tchau e deu as costas rapidamente, como se não suportasse ver a dúvida escrutinada em meu semblante.
— Ei, Larinha — Linda chamou, sentada no capô do carro —, o Gustavo e eu acabamos de apostar uma corrida de carro, ele garante que o fusca do meu pai ganha pro meu Tufão, acredita?
Eu tentei sorrir, mas por dentro alguma coisa em mim havia se despedaçado.
— Entra, Linda — meu tio ordenou, ríspido.
Ela sorriu, sem graça, e o seguiu.
Acenei para os dois, que partiram logo em seguida, soltei o pingente e decidi que esperaria minha amiga me explicar o que aconteceu, porque eu sabia que ela me contaria, fosse qual fosse o motivo por detrás desse encontro.
Linda jamais faria algo pelas minhas costas.
Fechei a porta, suspirei pesadamente, e fui direto para a cozinha. Lá eu encontrei a pia cheia de louça e resolvi me distrair.
Apesar de odiar a tarefa — já que arriscava ter uma unha quebrada —, comecei a lavar os pratos. Minha cabeça estava cheia e eu precisava ocupar meu tempo com alguma coisa.
— Uma alma acabou de se salvar! — Guga exclamou de repente e eu prendi um grito de susto.
Eu estava tão... tensa.
— Eu digo o mesmo — falei indiferente. —Você não deveria estar em seu apartamento?
— Ah, eu resolvi dormir por aqui mesmo. A fechadura continua emperrada e minha cama não anda lá essas coisas. Uma noite m*l dormida e eu chego no restaurante descontando o mau-humor nos meus funcionários.
— O que é totalmente injusto — falei concentrada em deixar a pia seca — sabe, não é nada legal ficar recebendo esporro por besteira.
Guga abriu a boca para falar alguma coisa, mas foi interrompido pelo pano de prato que eu lhe joguei e que ele aparou com a mão.
— A louça é toda sua.
— Ei, pirralha — ele chamou e eu olhei para trás —, me desculpe ter sido tão e******o com você. Sabe, eu só quero que você seja feliz.
— E eu sou, Guga! Só que vocês parecem não entender isso — rebati.
Ele ficou em silêncio.
— Vocês não acreditam, não é? — constatei, exausta. — Mas eu tô muito feliz mesmo, Gustavo! E é importante pra mim que você fique também.
— E eu fico — ele falou aproximando-se de mim —, se você estiver feliz, pirralha, eu também estarei, prometo. Me perdoa.
— Ah, Guga — me rendi e o abracei.
Eu havia sentido tanta falta do meu irmão que desejei morar naquele abraço para sempre.
— Pipoca e filme romântico...? — ele perguntou beijando o topo da minha cabeça.
— Pode apostar que sim.
E aposta era a marca registrada da família Alves.