Quatro dias antes do casamento...
— Ei, Larinha, anda rápido! Daqui a pouco o calçadão vai estar cheio — Linda me apressou dando batidas na porta do banheiro.
Revirei os olhos e terminei de lavar o rosto.
Eu havia acabado de acordar e além da cicatriz em minha testa ainda amanheci com olheiras, pelo fato de ter ido dormir depois das duas empacotando as últimas coisas para a mudança, sorte que Guga me ajudou com isso.
Deu um apertinho no peito quando retirei todas minhas fotografias da estante, mas por um lado elas estariam em meu novo lar, e iriam me ajudar com a saudade que sentirei daqui.
— Larinha — Linda chamou impaciente, causando mais batidas na porta.
—Tô indo, aguenta só mais um pouquinho — pedi enquanto terminava de prender os cabelos em um r**o de cavalo.
Eu preciso de alguma coisa para esconder essas olheiras.
Alcancei um corretivo de dentro do espelho e comecei a espalhar pelo rosto, cuidando para deixar a pálpebra uniformizada.
Depois de algumas batidinhas na pele, eu saí do banheiro e encontrei Linda de pé, com duas garrafinhas de água na mão e vestida em um conjunto de academia amarelo e tênis branco.
— Qual o seu problema com as outras cores? — Perguntei, pegando a garrafinha que ela me estendera.
— Eu gosto das outras cores, mas prefiro meu amarelo. Ele é vibrante, rico e...
— Ofusca a visão de qualquer um — eu completei e ela me deu uma cotovelada —, pega uma regata branca minha. Vai dar um contraste bacana.
— Eu odeio você — ela bufou, mas fez o que eu pedi —, vamos correr dois quarteirões por causa disso.
Dei de ombros. Quando estávamos prestes a sair do quarto, um som eletrônico estrondou no ambiente.
Era meu celular.
— Larinha, você não vai aten...
Tarde demais, eu já havia me jogado sobre a cama e agarrado o aparelho — que continuava alertando a chegada de um novo SMS.
Abri a mensagem, crente de que era Ricardo, com alguma explicação convincente pelos dias sem falar comigo. E, claro, eu iria fazer a durona e dizer que já estava de saída.
Talvez eu ficasse só por cinco minutos.
“Seus créditos estão expirando. Efetue uma recarga até o dia 15/03 e aproveite as vantagens de falar à vontade.”
É engraçado como o coração infla de alegria e murcha de decepção ao mesmo tempo, o meu anda tão treinado que merece troféu de ouro na categoria “Feito de Trouxa”.
— Por favor, não me pergunte nada sobre isso — eu pedi à Linda, com a palma da mão para frente.
Ela assentiu e abriu passagem para mim, coloquei o aparelho no cós do meu leaggin preto e resgatei minha garrafinha d’água — que eu havia jogado no chão quando meu celular tocou.
Encontramos Guga no corredor, saindo do banho, com os cabelos molhados e uma toalha jogada no ombro.
Sem camisa, ele exibia sua enorme tatuagem tribal, que ia do braço para o peito esquerdo e descia até algum ponto que Linda ansiava descobrir.
Ele fez alguma gracinha com ela, mas eu estava tão desanimada que desci os degraus, deixando-os para trás.
— O Gustavo me tira do sério — Linda falou quando já estávamos do lado de fora.
— Ahã, vai dizer que você não gosta? — Provoquei me aquecendo.
— O pior é que sim. Só que ele tem namorada... como sempre — ela falou também se aquecendo.
— Ah, Linda, esses namoricos do Guga não passam dos três meses. Se bem que esse com a Emile já tem bem uns seis.
— Ainda não, vai completar dia vinte, às sete e meia da noite.
— Meu Deus, quanta precisão.
— Cala a boca.
—Tudo bem, tudo bem. Mas o que eu quero dizer é que você não precisa ter paranoia com os compromissos do Guga. E eu aposto que ele se sente atraído por você.
— Ah, Larinha, tirando você e a Madá, o Gustavo se atrai por qualquer mulher que vista saia.
— Eu sei, mas... Às vezes eu acho que com você é diferente.
— É, às vezes eu também penso isso. Só que não dá pra viver de teorias, eu preciso tirar esse sentimento de dentro de mim.
—Linda, não há remédio pra curar paixão. O amor é algo irremediável. — falei sabiamente e comecei a bater meu pique.
— Você diz isso porque não experimentou uma boa dose de vodca com limão, sua s****a — ela meio que resfolegou, tentando a todo custo acompanhar meu ritmo.
Eu já estava subindo no calçadão quando Linda alcançou em meu ombro me fazendo parar.
— Larinha! — Ela me repreendeu, sem fôlego, abrindo a sua garrafinha para encher a boca d’água.
— Foi m*l, eu me empolguei. — me desculpei, também abrindo minha garrafinha.
— Pronta? — Ela perguntou ofegante e eu confirmei com a cabeça.
Depois de mais uma curta sessão de aquecimento, começamos a correr em passos ritmados, olhei em volta, as enormes árvores ao lado da estrada reta davam um certo aconchego ao local.
— Seu nome...? — Linda perguntou de maneira profissional e eu revirei os olhos.
— Ah, Linda, precisa mesmo responder essa pergunta?
Ela não falou nada e eu bufei.
—Larah Alves Sampaio, isso é patético.
— Certo, Larah Alves Sampaio isso é patético — eu ri —, quais seus objetivos de vida?
— Casar com o Ricardo, claro. Ah, e ter todos os pinceis da Kryolan.
— E a dança?
— Não é mais — respondi, com a mão em meu pingente.
— Tem comprado mais coisas para a casa nova?
— Sim — falei empolgada —, eu encontrei uma loja na internet que vende uma porção de coisas bonitas. E as panelas? Todas coloridas! Tudo bem que eu não sei cozinhar ainda, mas eu m*l vejo a hora de o Guga me ensinar.
— Larinha... Você não pode sair por aí comprando tanta coisa porque... sei lá, imprevistos acontecem e...
— O que de errado poderia acontecer? Eu vou me casar Linda, é natural que eu compre coisas de dona de casa — contrapus.
— É, você tem razão. Diga uma qualidade do seu relacionamento hoje.
— Hum... É difícil responder, quer dizer, não que não tenha é que... são muitas, sabe?
— Larinha...
— Tá legal, não tem — falei com meus olhos úmidos —, se você me perguntasse isso anos atrás eu listaria uma porção de coisas, mas... As coisas mudaram.
— E por que você insiste nessa relação, Larinha? — Ela perguntou num tom de voz mais brando.
— Porque eu o amo.— respondi na lata.
— E como você sabe disso?
—Ah, qual é Linda? Todos sabem. Meu noivo principalmente, eu vivo falando isso pra ele.
— Você fala “eu te amo” até para o cachorro da vizinha, Larinha.
— Então você acha que eu não o amo? — Inquiri ofendida. — Eu passei por cima da minha família, Linda. Eu já perdoei os vacilos do Ricardo centenas de vezes, e você ainda quer insinuar que...
— Ei, eu não estou dizendo nada, fica calma tá?
— Foi m*l, é que eu ando tão tensa.
— Isso é normal, é estresse do casamento, tá tudo bem — ela me confortou —, o que acha de a gente almoçar no restaurante perto da minha casa?
— Só se você pedir algo light também, me recuso a passar fome sozinha.
— Tudo bem, mas a sobremesa eu que escolho. — ela disse e me lançou um olhar desafiador — Que tal uma corrida apostada?
— Combinado.
Eu m*l fechei a boca e a trapaceira saiu em disparada me deixando para trás, meu celular vibrou e eu o tirei do cós.
Era uma mensagem de um número esquisito.
Apertei em ler.
“Tem certeza que você pode confiar nela? Tsc, tsc, você é tão bobinha, Larah.”
Olhei para frente e avistei Linda me esperando com as mãos na cintura.
De repente o que o tio Fernando me contou na noite passada veio à tona e parecia que meu mundo desabaria a qualquer momento.
— Ei, Larinha, você vai me deixar ganhar? — Linda perguntou com um sorriso brincalhão no rosto.
O que eu tô pensando? Ela nunca trairia minha confiança.
—Mas é claro que não! — Exclamei e disparei em sua direção.
Eu nem me preocupei em vencer a corrida, tudo o que eu queria era afastar a desconfiança que nasceu em mim e que não fazia sentido algum.
O trânsito estava infernal.
Enquanto Linda batucava os dedos no volante, eu estava sentada no banco de passageiro, concentrada em devorar meu livro favorito.
Ele era especial para mim por diversos motivos — ser escrito por uma autora nacional era um dos principais. Mas o mais importante é que depois dele eu consegui bons argumentos para crêr na minha história com Ricardo.
Minha teoria era simples.
Se o amor de Ian e Sofia — que viviam em séculos diferentes — conseguiu vencer as barreiras do tempo, então para mim e Ricardo que dividíamos a mesma cidade seria moleza.
— Ei, quem é o amigo do Gustavo que vai almoçar na sua casa? — Linda perguntou alguns segundos depois.
— Não sei — falei fechando o livro e guardando-o em minha bolsa —, parece que é um recém chegado na cidade, Madá não me explicou direito. E pra ser sincera o que mais me preocupa é meu pedaço de Tiramissu que ela prometeu guardar.
— Ai, Larinha, você às vezes é terrível — ela disse em meio a risos.
— Ei, não sou não — objetei também rindo. — Qual o problema de a minha sobremesa favorita ser mais essencial que esse tal cara desconhecido?
A resposta da Linda foi interrompida pelo sinal que abriu e às buzinas que estrondaram atrás da gente, então ela se empertigou no banco e assumiu a posição séria de uma motorista responsável, muito diferente de mim no tempo em que eu ainda podia praticar essa tarefa.
À medida que o tempo passava, eu me peguei pensando sobre o misterioso amigo do Gustavo.
Não que ele fosse importante para mim, mas me intrigou o fato de eu não conhecê-lo, sendo que eu conheço todos os amigos do meu irmão — desde os mais chegados aos mais distantes —, a lista era longa e eu a sabia de cor e salteado.
Foi difícil convencer papai de que eu não podia ficar para receber a ilustre visita, já que a coitada da Linda havia rompido com seu namorado inexistente e por isso estava arrasada e precisava de mim — não sou muito boa em contar lorotas, por isso que a princípio papai desconfiou. Mas depois eu comecei a detalhar o estado deplorável que minha amiga se encontrava e ele compadeceu — e parou de me culpar pela desfeita ao pobre rapaz, que nem eu tampouco ele sabia sequer o nome.
Antes de eu sair dei uma rápida olhada em volta da casa e me senti estranha por ter tirado todas minhas fotografias de lá, parecia que eu estava deixando de fazer parte da minha família. Tive a sensação de que papai também pensara o mesmo, já que demorou seu olhar no meu, com certa nostalgia.
Sorri para ele e saí.
Depois de almoçarmos no restaurante, Linda e eu fomos até sua casa para tomarmos um bom banho e nos aprontarmos para a festa que aconteceria no quiosque da Bela — onde estávamos indo nesse exato momento.
Linda amarrou seus cabelos escorridos em um r**o de cavalo bem alto, enfeitando-o com um laço amarelo, vestiu um macacão jeans e usou sandálias de tiras cor neutra, abusou no batom vermelho e no perfume adocicado.
Já eu optei pelo básico.
Usei um vestido meio rosa salmon, ligado até a cintura e abrindo-se em pequenas pregas que desciam até o meio da coxa, calcei minhas delicadas e douradas sapatilhas com contraforte, e, com a ajuda de Linda, consegui fazer uma trança lateral, deixando pequenos fios soltos. No rosto eu também não ousei muito, o blush em um tom pêssego e o batom cor de boca me deram um aspecto mais delicado. Em compensação usei bastante rímel, aumentando surpreendentemente o volume dos meus cílios.
No final, Linda disse que eu parecia uma bailarina moderna, e foi essa a sensação que eu tive ao me olhar no espelho. Naquele momento eu esqueci completamente a advocacia e me permiti sonhar por apenas alguns instantes.
Eu não sabia por que papai encasquetou com a ideia de que eu sairia bem em direito.
Certa vez, quando eu o questionei, ele respondeu que era para manter a tradição da família, já que Guga seguiu os passos de Madá, sendo um cozinheiro profissional e dono de um dos restaurantes mais visitados da cidade, eu seguiria os passos dele e da mamãe, me tornando assim uma advogada renomada e de peso, como um dia eles foram.
Mas, às vezes, eu desconfiava que havia algo mais por detrás desse sonho.
— E lá vamos nós! — Linda exclamou e eu voltei para a realidade. — Larinha, diga oi para a praia do Oi.
Eu baixei o vidro e encarei a enorme praia em minha vista.
O colégio onde estudamos ficava bem perto dela, e na época de escola era comum os estudantes — inclusive eu —, m***r aulas para dar um mergulho — exceto eu. E então, sempre que um se encontrava com o outro era um tal de oi para lá e oi para cá, e por isso a praia acabou ganhando esse apelido.
Ridículo, eu sei, mas não éramos muito criativos.
Ajeitei o vestido, passei mais uma camada de batom e desci do carro, Linda veio em seguida e grudou em mim.
— Animação, Larinha! — ela exclamou novamente, me chacoalhando.— Vai ser demais! As festas no quiosque da Bela são as melhores.
— Eu sei que são, é que...
— É que você prefere estar trancafiada no seu quarto cor-de- rosa, imaginando seu dia perfeito — ela me interrompeu e eu cruzei os braços.
— É, é por aí.
— Ai, Larinha, ânimo! Você precisa beber para relaxar, a Bela está com uma bebida nova que, meu Deus, você precisa provar!
— Por favor, me diz que você não vai encher a cara — pedi cruzando as mãos, Linda bêbada era totalmente um desastre.
— É claro que eu vou! Eu juro que não vou querer tirar a roupa dessa vez.
— Eu vou fingir que acredito, porque tô muito extasiada com isso aqui, olha essa visão. — falei, apontando ao redor.
O mar estava calmo, as folhas farfalhavam e o vento batia levemente em nossa pele.
— Eu não venho aqui há meses — confessei enquanto descíamos da orla e caminhávamos pela areia.
— Viu? Mais um motivo pra gente comemorar. Tô sentindo que hoje promete, Larinha! — Linda vibrou radiante e eu também me animei.
Chequei as horas em meu relógio de pulso e me espantei pelo fato de ser quase quatro da tarde. O sol estava alaranjado, um aglomerado de pessoas começava a aparecer no local e uma batida eletrônica fez com que meu corpo balançasse automaticamente.
— Olha ali o Guatemala! — Linda anunciou e apontou para o enorme quiosque de palha onde Anabela acenava para nós.— Vem, Larinha!
O Guatemala, como era chamado o quiosque da Bela, estava metodicamente enfeitado. Seu letreiro piscava em tons fluorescentes e que podiam ser vistos mesmo à luz do dia. Foram dispostas diversas mesas de madeira ao redor e pétalas de flores sobre o chão.
Estava tudo tão lindo.
Mais adiante, alguns rapazes armavam seus instrumentos sobre um pequeno palco enquanto outros cuidavam do enorme toldo branco que cobriria a extensão.
— E não é que ela veio! — Bela estrilou, caminhando até nós, segurando o vestido e balançando os quadris de uma forma cômica.
Apesar de termos estudado juntas praticamente todo o ensino médio, não tínhamos contato algum com Anabela, ela fazia parte do grupo das garotas populares do colégio e eu e Linda jurávamos que assim como as outras, Bela era uma vaca egocêntrica e de nariz empinado.
Foi quando começamos a visitá-la, logo depois que o Guatemala fora assaltado e os bandidos tiraram cruelmente a vida dos seus pais, que percebemos o quão errada estávamos.
Foi terrível.
Como no momento da tragédia ela e o irmão estavam no colégio, Linda e eu tivemos a infelicidade de presenciá-los recebendo a pior notícia de suas vidas.
A cena da garota encolhida no banheiro, abraçada ao próprio corpo e soluçando sem parar, jamais sairia da minha cabeça.
Suas "amigas" se afastaram e nós nos aproximamos. Confortamos Bela o tempo todo durante o funeral de seus pais e depois dele também.
As visitas tornaram-se frequentes e Madá passou a enviar tortas e bolos deliciosos — que nós devorávamos juntas, sentadas no parapeito da janela de sua casa, ouvindo-a chorar até soluçar.
Foram dias muito difíceis.
Só que ela não se abateu, pelo contrário, Bela parecia uma leoa de tão forte.
Mudou para a turma da noite e assumiu o trabalho no quiosque durante o dia, além de cuidar de Demitri — seu irmão mais novo e que na época não tinha nem dez anos.
Eu sabia como era perder alguém tão importante, e cada vez que Anabela sorria, eu me sentia ainda mais ligada à ela.
— Eu jurava que você não vinha, flor! — Ela exclamou depois de me puxar para um abraço apertado.
— Normal, eu estou até agora sem acreditar — Linda provocou e eu ri.
— Bom saber que tenho essa credibilidade com minhas amigas — resmunguei.
— Ah, Larinha, ultimamente você nos dá tanto cano — Linda justificou e eu não tive como negar.
— É por isso que hoje temos que curtir — Bela anunciou enlaçando cada braço no nosso. — Flor, você precisa experimentar a nova bebida da casa.
— É divina! E forte! — Linda exclamou. — Ei, Bela, você não vai trabalhar né?
— Olha só para mim — ela pediu interrompendo os passos —, você acha mesmo que eu fiquei linda desse jeito pra passar o tempo todo atrás do balcão?
Bela tinha razão, ela estava realmente fantástica.
Seu vestido era longo e totalmente branco, uma flor enfeitava seus cabelos naturalmente loiros, que caíam em ondas perfeitas, a pele bronzeada realçava sua beleza tropical.
— Você está divina, Bela — elogiei e ela sorriu, exibindo sua fileira de dentes brancos.
— Ai, flor, obrigada, demorou pra eu conseguir essas ondas — disse ela, alternando o peso das pernas repetitivamente —, acreditam que o Demitri me trouxe um creme de barbear no lugar de pentear? Ah, ele está tão atarantado depois desse namoro...
— Bela — Linda chamou-a num tom firme.
— ... por falar nele, eu já contei pra vocês que hoje é dia do meu caçula tocar com os Garotos Quentes? Eu estou tão orgulhosa! Será que os garçons vão fazer um bom trabalho por aqui? Não sei, às vezes eu acho que...
— Anabela — Linda sacudiu-a pelos ombros —, fica calma!
— Mas eu tô calma — ela objetou, quase sem fôlego.
— Claro que não está. — Linda contrapôs —, muitas pessoas quando estão ansiosas ou com medo começam a conversar rápido, praticamente atropelando as palavras, exatamente do jeito que você está fazendo agora.
— Tem razão — Bela confessou, cansada —, eu estou com os nervos à flor da pele.
— Ei, vai dar tudo certo. — Linda garantiu, acalmando-a. — E se não der, nós estamos aqui para te ajudar, não é, Larinha?
— Claro! — confirmei. — A gente sempre vai estar aqui, Belinha.
Ela respirou fundo, como se um peso fosse tirado de suas costas, e abriu um sorriso.
— Vocês são as melhores amigas do mundo. — Bela falou, já tranquila. — É por isso que reservei a melhor mesa pra gente, venham!
Depois disso ela nos arrastou para uma cabana de palha, que era basicamente a área VIP do Guatemala.
— Pronto. — Bela disse, sentando-se à mesa. — Daqui vamos ver o gostoso do Fred Spencer de camarote.
— Quem é esse? — Perguntei afastando uma cadeira para sentar, Linda me olhou com cara de “em que mundo você vive?”.
— Em que mundo você vive, Larinha? — Ela perguntou sentando-se ao meu lado — O Fred é o vocalista da banda Garotos Quentes. Deus, como ele é tesudo!
— E mulherengo também, acho que troca mais de mulher que de roupa, não que não valha a pena passar uma noite com esse deus, mas se apaixonar por ele é ouvir Marília Mendonça pelo resto da vida.
— Hum... Spencer...? — repeti pensativa. — Acho que esse sobrenome não me é estranho.
— Claro que não. — Bela respondeu. — Ele é irmão do Brad Spencer, aquele feinho que estudou no nosso colégio.
— O que era apaixonado pela Linda? — perguntei e ela me deu uma cotovelada.
— Dá um tempo, não me faça lembrar a serenata que ele fez na frente de casa, por favor.
A gente riu alto.
— Como será que ele está agora? — Bela perguntou pensativa, batucando os dedos sobre o queixo.
— Não sei, provavelmente com mais espinhas e sem aparelho, não acho que tenha mudado tanto. — Linda opinou.
— Acho que fiquei curiosa — confessei —, por que não procuramos por ele nas redes sociais? Lá acha de tudo.
— Boa ideia, flor. Vou pegar bebida pra gente e liberar o Wi-fi. O que vão querer?
— Vodca, Caipirosca e Uísque duplo — Linda falou e nós a encaramos perplexas. — O quê? Eu não vou vasculhar a vida de um cara chamado Bradinaldo sem álcool no sangue, não dá.
— Tudo bem, vou trazer um de cada vez, não inventa de encher a cara logo cedo. E você, Larah?
— Água de coco.
Elas me reprovaram com o olhar.
—Eu não vou tomar todas, sem chance.
— Ai, Larinha, você às vezes é tão chata — Linda dramatizou.
Bela revirou os olhos e saiu meio que dançando meio que saltitando rumo ao balcão.
— Eu não sou chata — contrapus depois de alguns segundos —, é que tem muito tempo que eu não bebo, e além do mais você disse que iríamos nos divertir, não significa que preciso ficar inconsciente.
— Você está certa — ela se desculpou e segurou em minhas mãos. Seus enormes olhos me encararam de uma maneira... esquisita. — Eu sei que ando muito chata contigo, Larinha, é só que...
— Que...? — Incentivei.
Vai, Linda. Conta porque você me escondeu seu almoço com o Ricardo, por favor.
Ela sacudiu a cabeça e abriu um sorriso genuíno:
— É só estresse de psicóloga, não é nada com você.
— Tem certeza? — Insisti.
— Sim. — ela disse e depois me encarou confiante — Vamos prometer uma coisa; hoje nós esquecemos seu lance de casamento e vamos nos divertir, combinado?
— Combinado — apertei em sua mão e ela abriu um sorriso amigável, aquele que por vezes me confortou.
E de repente a tensão entre nós se esvaiu e as coisas finalmente pareceram voltar ao normal.
Foi então que meu celular tocou.