03 MELISSA

1607 Words
MELISSA NARRANDO Bato a porta atrás de mim. Seguro o choro até o último segundo. Não vou dar o prazer de me verem chorando de novo. De novo, não. Passo pelo portão da minha casa… ou melhor dizendo, do meu inferno diário… e começo a descer em direção ao hospital do Complexo do Alemão. Respiro fundo. O ar da manhã é pesado, mas ainda assim é mais leve do que o que eu deixei lá dentro. Meu nome é Melissa. Tenho vinte e cinco anos. Um metro e setenta e cinco de altura. Cabelos castanhos claros que quase sempre prendo num coque apressado. Os meus olhos são da mesma cor que meus cabelos... dizem que são bonitos. Eu acredito. E bom… Eu não estou dentro dos padrões de beleza. Pelo menos não dentro do padrão do Complexo do Alemão. Aqui, beleza é barriga chapada. É cintura fina. É perna malhada. É b***a dura de academia. É peito de silicone que parece que vai explodir se alguém apertar. Aqui, o corpo vale mais que caráter. A aparência fala mais alto que a índole. E eu? Eu sou a gordinha do morro. Peso cerca de cento e vinte quilos. Tenho s***s fartos. b***a grande. Pernas grossas. Minha barriga não é chapada. Também não é absurda. Mas existe. Aparece. Marca presença. Eu sou grande. Inteira. Visível demais pra quem gosta de apontar defeito. Invisível demais pra quem só enxerga padrão. Mas independente de qualquer coisa… Eu me amo assim. Demorei anos pra aprender isso. Anos ouvindo piada. Anos sendo comparada. Anos sendo a filha errada. Porque no meio de tudo isso, tem uma coisa que ninguém pode tirar de mim... Eu sei quem eu sou. Eu não deixo ninguém me diminuir. Ninguém me desprezar. Ninguém me fazer sentir menos. Ninguém… quer dizer. Quase ninguém. Porque dentro daquela casa… Meus pais ainda conseguem. E a minha irmã mais velha… Ela consegue ainda mais. Marina é dois anos mais velha que eu... dona de uma corpo que toda mulher sonha. Todo homem deseja..., mas eu mesma prefiro ser como sou a ter um corpo lindo e não ter caráter, índole... em ser um pessoa fútil que machuca as outras somente por diversão e maldade. Marina é a primeira filha. Ela veio exatamente como meus pais sonharam. Bonita. Corpo dentro do padrão. Cintura fina, barriga lisa, curvas desenhadas como se fossem feitas sob medida pro desejo dos outros. Marina consegue dinheiro fácil. É chamada pros bailes. Para as festas do morro. Pros camarotes onde os donos e os frentes aparecem. E lá ela é o que eles querem que ela seja. Ri quando mandam rir. Dança quando pedem. Encosta quando puxam. E o dinheiro vem. Fácil. E ela gosta... Eu nunca julguei minha irmã. Mas eu nunca quis aquilo pra mim. Mesmo que eu tivesse o corpo dela… eu não faria. Não saberia fazer. Não conseguiria me vender, nem por luxo, nem por validação. Às vezes eu penso que talvez seja por isso que Deus me fez diferente. Não como castigo. Mas como proteção. Meus pais não veem assim. Pra eles, Marina é investimento. Eu sou prejuízo. Eles me humilham. Dizem que eu não presto. Que sou gorda. Que sou feia. Que homem nenhum vai me querer. E que a única coisa que se salva em mim é a minha cabeça. Foi por isso que me fizeram estudar. Enfermagem. Eu queria? Não. Eu sempre gostei de crianças. Sempre quis ser professora. Queria sala de aula. Quadro cheio de desenho. Mãozinhas sujas de tinta me abraçando no final da aula. Mas segundo meus pais, enfermagem daria mais dinheiro. E dinheiro sempre foi o único idioma que eles souberam falar. Então eu estudei. Me formei. Me tornei boa no que faço. Cuido das pessoas com um carinho que ninguém nunca teve comigo. Porque se tem uma coisa que eu aprendi vivendo naquela casa… é que dor reconhece dor. E eu sei reconhecer a dor dos outros de longe. Marina só me ajudou uma vez na vida. E não… não foi porque ela quis. Foi porque era conveniente. Pra ela. Pros meus pais. Quando eu me formei, foi ela quem falou com o sub do morro. Disse que eu estava terminando a faculdade, que precisava trabalhar. Ele conversou com o chefe… com o tal do Pesadelo… e dias depois eu estava empregada no hospital do Complexo. Engraçado. O homem que manda em tudo aqui decidiu meu futuro… e eu nunca nem vi o rosto dele. Como nunca vi o dono do morro? Porque aos treze anos meus pais me mandaram pra Minas, pra casa da minha avó. Disseram que eu ia ficar lá até terminar os estudos e a faculdade. Que eles não iam ficar olhando pra minha cara e me sustentando sem eu “servir pra nada”. Eu fui. Sem reclamar. Minha vó não era como eles. Ela era colo. Era comida quente. Era oração antes de dormir. Era carinho no cabelo. Mas eu nunca contei pra ela o que a filha dela fazia comigo. Nunca contei das humilhações. Da comparação constante. Do jeito que eu era tratada dentro da minha própria casa. Aquilo mataria ela. Então eu guardei. E fiz tudo o que mandaram. Estudei. Me dediquei. Me formei. Foram anos de cuidado, incentivo e amor vindo da minha avó… anos que me ensinaram que eu não era o que diziam que eu era. Voltei pro morro há quase nove anos. Quando voltei, diziam que o Pesadelo estava mais no Jacarezinho. E da única vez que eu o vi, eu era praticamente uma criança… e ele muito mais novo também. Hoje? Eu não faço a mínima ideia de como ele é. Talvez já tenha passado por mim na rua. Talvez eu já tenha atendido alguém próximo a ele. Talvez ele nem saiba que eu existo. Aqui no morro, tirando as putas, as marmitas e minha família… todo mundo me respeita. Os meninos da boca conversam comigo. Alguns me chamam de “Doutora”. Às vezes trazem doce. Salgado. Refrigerante. Quando eu saio tarde do hospital, me levam de moto até a porta. Eu gosto deles. Não faço diferença por serem bandidos. Porque antes de qualquer coisa, eles são pessoas. E muitos deles são mais gentis do que muito “cidadão de bem” lá de fora. Terror, o sub do morro, é ainda mais educado comigo. Eu brinco dizendo que às vezes ele nem parece bandido. E ele sempre responde... “Você não é alguém que mereça o meu lado bandido.” Eu vivo bem. Sou alegre. Riu fácil. Faço piada. Ajudo todo mundo. Mas isso só até eu atravessar a porta da minha casa. Ali… tudo muda. E não. Eu nunca pensei em sair. Eu tenho medo de escândalo. Medo de virar assunto. Medo de ficar na boca do povo. E eu sei que se eu saísse da casa dos meus pais, eles fariam da minha vida um inferno público. E eu quero paz. Mais do que qualquer coisa… eu quero paz. Porque no morro, amizade é uma coisa. Mas quem causa bagunça… é cobrado. E eu já vivi cobrança demais dentro de casa. Eu não quero isso pra minha vida nunca mais. Entro no hospital e já vejo a Geovana encostada no balcão da recepção, mexendo no celular. Ela sempre foi minha amiga. Desde criança. E quando eu voltei de Minas, parecia que o tempo tinha congelado pra gente. Não teve estranheza. Não teve distância. A gente só… continuou. GIGI—Oi, minha gatinha! _ Ela vem direto pra cima de mim, me abraça apertado e me dá um beijo estalado na bochecha. Eu rio, mesmo com o coração ainda pesado do que deixei em casa. MEL—Oi, meu amor. _ ela já me arrasta pra o vestiário e eu começo a me trocar, colocando o jaleco, prendendo melhor o cabelo. GIGI—O dia hoje não vai ser fácil. _ Eu olho pra ela pelo espelho. MEL—Doutor Marcos tá aí? _ Ela faz que sim com a cabeça. Marcos é amigo de infância dos meninos do morro. Mora fora, mas faz questão de trabalhar aqui. Diz que deve isso ao lugar onde cresceu. Mas quando ele vem pra plantão… Ele tira nosso couro. Atende rápido. Exige agilidade. Não aceita erro. GIGI—Vamos logo, que ele já, já começa a chamar paciente. _ Eu termino de ajeitar o jaleco. —Você comeu hoje? Ou saiu correndo de novo? _ Eu lanço aquele olhar que ela já conhece. Geovana é a única que sabe o que eu vivo dentro de casa. A única. Ela vive dizendo que eu preciso sair de lá. Que eu mereço paz. Que o dia que eu criar coragem de alugar uma casa, ela vai comigo. Divide aluguel, divide conta, divide vida. E eu penso nisso. Penso muito. Mas coragem… é uma coisa que ainda me falta um pouco. MEL—Eu como no intervalo. _ Ela cruza os braços, brava. GIGI—Você fala isso todo dia, Melissa. _ Eu dou de ombros, tentando sorrir. MEL—Eu tô bem. _ Ela me olha daquele jeito que diz claramente: “Eu sei que você não tá.” Mas não insiste. Não agora. Saímos do vestiário juntas, indo em direção aos corredores já cheios. Mais um plantão. Mais um dia. E enquanto eu coloco meu crachá no peito, eu penso que, pelo menos aqui dentro… Eu sou mais do que a filha errada. Aqui, eu sou necessária. E isso, por enquanto, é o suficiente pra me manter de pé. VAMOS LA AMORES COMENTAR E VOTAR MUITO. VAMOS TER MAIS UM CAPÍTULO HOJE.
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