02 CONTINUAÇÃO PESADELO

1462 Words
CONTINUAÇÃO… PESADELO NARRANDO Hoje eu completo oito anos preso. E quatorze anos no comando da facção e do alemão. O jaca eu tomei depois que o chefe morreu e não tinha herdeiro pra assumir. Oito anos atrás me trancaram numa cela achando que tinham acabado comigo. Mas eu já estava no poder há anos antes disso. Eu construí um império aos dezoito anos. Eu olho pra trás… e penso no que fiz com Balinha. E sei. Com Julia vai ser pior. Balinha me tirou meus pais. As duas pessoas que eu amava mais do que a mim mesmo. Mas eles eram adultos. Já tinham vivido. Já tinham amado. Já tinham sentido o mundo... mesmo que o mundo tenha sido c***l com eles. Julia não. Julia me tirou um filho. Um pedaço meu. Sangue do meu sangue. Ela me tirou a chance de ouvir a primeira palavra. De ensinar a andar. De mostrar como um homem protege o que é dele. E só não levou tudo o que eu sou… porque eu nunca me entreguei por inteiro. Eu nunca contei todos os meus segredos. Nunca mostrei tudo o que sou e tudo o que eu tenho. Nunca dei a ela acesso ao que realmente sustentava meu império. Se eu tivesse feito isso… talvez eu nem estivesse vivo. Conheci Julia num baile no Jacarezinho. Na época eu morava no Complexo do Alemão. Mas sendo dono dos dois morros, eu fazia questão de marcar presença. Um fim de semana em cada. Era estratégia. Era domínio. Era lembrar todo mundo quem mandava... mesmo quando eu não dizia uma palavra. Eu já estava no poder há anos. Mas polícia nenhuma sabia quem eu era. Meu vulgo corria o país inteiro. Pesadelo. O nome estava em relatório, em escuta, em operação frustrada. Mas meu rosto? Só quem morava dentro do morro sabia. Nos bailes eu nunca dei recado. Nunca subi em palco. Nunca peguei microfone. Nunca precisei. Eu não me apresentava como dono. Eu não anunciava poder. Eu era poder. Minha postura entregava. O silêncio impunha. A forma como os outros se moviam quando eu passava… confirmava. E naquela noite ela estava lá. No meio da multidão. Olhar atento demais pra quem fingia estar só curtindo música. Ela dançava. Mas observava. Sorria. Mas calculava. E eu… que sempre fui o homem que enxerga perigo antes dele nascer… escolhi enxergar só a mulher. E foi ali que começou o único erro da minha vida que eu não consegui consertar. Ainda. Julia conseguiu cativar todo mundo. O Jacarezinho inteiro. Meu irmão. Meu primo. Os homens que cresceram comigo. As mulheres da comunidade. Ela entrou no papel como se tivesse nascido pra ele. Sabia a hora de sorrir. Sabia a hora de abaixar a cabeça. Sabia a hora de parecer pequena ao meu lado. Pra quem via de longe… ela era só mais uma mulher rendida a um traficante. Pra quem via de perto… era pior. Ela parecia amar. Amava por completo. Sem medo. Sem vergonha. Me olhava como se eu fosse o único homem no mundo. E eu, que nunca dei confiança pra ninguém… dei tudo pra ela. Mas no fundo… no fundo ela nunca foi minha. Foi uma missão bem-feita. Uma farda invisível. Uma arma apontada pro meu peito o tempo inteiro. Julia não foi só uma traidora. Ela foi paciente. Calculista. Esperou o momento certo. Esperou eu baixar a guarda. Esperou eu amar. E quando eu estava mais vulnerável… ela puxou o gatilho. Levou o que eu tinha de mais valioso. Meu filho. Meu nome. Minha liberdade. E quase levou algo que ninguém nunca conseguiu tocar... Minha vontade de continuar. Ela quase me destruiu a ponto de eu nunca poder recuperar o que é meu. Mas cometeu um erro. Ela me deixou vivo. E homem como eu… não morre pela metade. Volta inteiro. E pior. Eu sempre deixei uma ordem clara pros meus homens. Pro meu irmão, que é meu sub. Pro meu primo, que é gerente. Se um dia o BOPE subisse o morro em emboscada… não era pra revidar. Era pra deixar acontecer. Terror nunca aceitou isso. Ele nunca aceitou a ideia de me levarem..., mas ele sabe. Comigo não se bate de frente. Eu penso dez passos antes. Eu sei que polícia nenhuma nesse país me quer morto. Morto eu viro algo maior. Morto eu viro bandeira. Vivo… eu viro troféu. Me prender com vida dá coletiva de imprensa. Dá promoção. Dá manchete. “Maior traficante do país capturado.” É isso que eles querem. E foi por isso que naquela noite me levaram fácil. Não porque eu não podia reagir. Mas porque eu sabia que reagir era morrer. E morrer não estava nos meus planos. Aqui de dentro do presídio eu ainda comando o Rio. Ainda comando o que é meu. Ordem não precisa de corpo presente. Precisa de respeito. E medo em alguns casos. E eu tenho os dois. Daqui de dentro eu busquei meu filho. Cada contato. Cada informação. Cada nome que apareceu ligado à Julia. Eu estou perto de achar. E quando eu achar… Eu vou sair daqui. Eu só não saí ainda porque eu quero meu filho ao meu lado quando isso acontecer. Julia cometeu o pior erro da vida dela me enganando. E eu nem chamo de traição. Pra trair alguém precisa existir algo real. Mesmo que seja desejo. Mesmo que seja paixão. E nada nela foi real. Ela não me traiu. Ela me usou. E por isso ela vai pagar. Por ter me enganado. Por ter tirado meu filho de mim. Por ter achado que podia entrar na minha vida, arrancar um pedaço e sair ilesa. Tudo o que eu cobro… eu cobro com sangue. Sempre foi assim. E eu nunca tive medo das consequências. Se eu já era r**m pelo que fizeram com meus pais… agora eu sou pior pelo que ela fez comigo. Antes eles queriam o Pesadelo. O maior e mais temido traficante do país. Agora… agora eles vão querer tirar o d***o das ruas. Porque quando eu sair daqui eu não volto pra negociar. Eu volto pra dar sentença. E pra capitã Julia Andrade só existe uma. Uma única. Sangrar até a morte. Chego na sala onde recebo meu advogado. Tales já está sentado. Terno alinhado. Pasta na mesa. Olhar atento. Eu me sento na frente dele. As algemas batem na madeira. O agente ainda fica alguns segundos ali, nos encarando, depois sai e fecha a porta. O silêncio pesa. Eu encaro Tales. PESADELO—E o que tem pra mim? TALES—Você disse que queria sair daqui pela porta da frente. _ Eu apenas inclino a cabeça. —Então tem que ser agora, Pesadelo. Ou você sai pela porta da frente… ou vai ter que sair como foragido. _ Eu sustento o olhar dele. PESADELO—Já encontraram meu filho? TALES—Ainda não. _ Minha mandíbula trava. —Mas estamos no caminho. PESADELO—Caminho não é linha de chegada. _ Ele passa a mão no rosto, respira fundo. TALES—Você quer sair daqui foragido? Quer dar ao seu filho um pai que vive escondido? Sempre olhando por cima do ombro? _ Eu fico em silêncio. Ele continua. —Eu sei que você quer estar com ele. Mas a chance de você sair pela porta da frente é real. Limpa. Com condicional. Com juiz assinando. _ Eu passo as mãos pelo rosto mesmo algemado. PESADELO—Quanto tempo? TALES—No máximo duas semanas. _ Duas semanas. Oito anos resumidos em quatorze dias. Eu penso rápido. Julia tinha coisas sobre mim. Escutas. Relatórios. Suposições. Mas vulgo não é prova. Vulgo não mantém ninguém preso sem provas concretas. E depois de oito anos, com bom comportamento e sem prova concreta que sustente o que dizem que eu sou… eu posso sair. Eles nunca conseguiram provar que Pesadelo tem rosto. E isso vai ser a surpresa deles. PESADELO—Dá continuidade no processo. _ Mas isso precisa ficar entre nós. _ Eu me inclino pra frente. —Isso fica entre eu, você e o juiz. _ Ele concorda. —Meu irmão não pode saber. Ninguém do morro pode saber. Se vaza, eu viro manchete antes da hora. TALES—Entendido. PESADELO—Eu não vou sair daqui como fugitivo. _ Minha voz baixa. Fria. —Eu vou sair como um homem livre. E quando eu pisar lá fora… ninguém vai poder me jogar de volta. TALES—Vou agilizar tudo. _ Eu encosto na cadeira. Duas semanas. Depois de oito anos… Duas semanas me separam do meu filho. E do início da sentença da capitã Julia Andrade. AMORES ESPERO QUE ESTEJAM GOSTANDO. O LANÇAMENTO É DIA 10/03..., MAS IREI SOLTANDO ALGUNS CAPÍTULOS ATÉ LA. 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