capítulo 11

1190 Words
Capítulo 11 O Palácio de Espinhos amanheceu envolto em uma calmaria enganosa. As paredes de obsidiana pareciam blindadas contra o mundo exterior, mas, dentro delas, a corte fervilhava. Azael mantinha sua palavra com uma disciplina militar. Ele cruzava os corredores da ala leste com passos firmes, a capa escura flutuando ao vento, a postura erguida como uma estátua de tirano ancestral. Sempre que seus olhos dourados encontravam os de Elena na sacada ou nos jardins de rosas negras, eles se estreitaram em fendas frias. Ele não dirigia a ela uma única palavra afetuosa. Se precisava emitir alguma diretriz, o fazia através de Balthazar, mantendo uma distância cirúrgica. Ele resistia ao que sentia com o peso de seu orgulho milenar, convencido de que o desejo daquela noite fora apenas um espasmo da carne, um erro que o isolamento e o tédio haviam provocado. No entanto, o selo de proteção invisível que ele havia moldado ao redor dos aposentos dela continuava lá, pulsando como uma advertência silenciosa para qualquer predador que ousasse se aproximar. E foi exatamente essa marca de posse que acendeu o rastilho da pólvora na aristocracia do submundo. Azael convocou uma reunião com o conselho íntimo no Salão das Lâminas Partidas para discutir os dízimos das províncias humanas. Ele não queria Elena lá, mas as regras da corte exigiam que a "serva de status elevado" estivesse presente para servir o cálice ritual do governante. Elena entrou vestindo uma túnica de seda azul-tempestade, com as mãos recolhidas e a postura impecavelmente indiferente. Ela aprendeu a espelhar a frieza de Azael; não olhava para ele, não buscava sua aprovação. Na mesa, o General Malakor e o Marquês Valerius debatiam mapas de pergaminho n***o. Ao lado deles, Lilith observava Elena com um sorriso que parecia uma navalha oculta na escuridão. — Os dízimos de Oakhaven estão atrasados — comentou Valerius, lançando um olhar de soslaio para Elena. — Parece que os humanos daquela região perderam o medo do nosso Senhor desde que ele começou a colecionar... espécimes da raça deles. Azael sequer ergueu os olhos do mapa. Ele girou o anel de ferro frio em seu dedo. — Se Oakhaven atrasar mais um dia, queime a metade leste da província, Valerius. Minhas preferências de entretenimento não ditam a minha política. A raça humana continua sendo um erro efêmero que eu esmagarei sempre que necessário. As palavras dele foram duras, jogadas no ar como pedras de gelo. Elena não piscou, embora tenha sentido a pontada familiar no estômago. Ela sabia que ele estava apenas reafirmando sua soberania para os generais. Mas a verdadeira traição não vinha de Oakhaven. Vinha de dentro do próprio conselho. Após o término da reunião, Azael retirou-se com Malakor para o salão de armas, deixando Elena para recolher os cálices rituais. Foi nesse momento de isolamento que o Marquês Valerius se aproximou, fingindo examinar uma das tapeçarias góticas da parede. — Você tem espinha dorsal, humana — murmurou Valerius, a voz baixa para que os guardas da porta não ouvissem. — Uma pena que esteja sob o teto de um lorde que a usará como escudo político e depois a descartar quando a Corte de Cinzas apertar o cerco. Elena continuou organizando as taças de prata. — O que o lorde faz ou deixa de fazer não é da minha conta, Marquês. Sou apenas uma prisioneira. — Uma prisioneira com um selo real que impede qualquer um de nós de a tocar — Valerius soltou um riso abafado e conspiratório. Ele deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma malícia ambiciosa. — Azael está fraco. Ele n**a o que sente por você, mas todos nós vemos as runas dele brilharem quando você entra no recinto. A arrogância dele vai afundar Obsidian. Há outros entre nós que saberiam valorizar o seu... potencial. E que poderiam garantir sua liberdade em um novo regime. Elena congelou, a taça de cristal pesado parando a centímetros da bandeja. Valerius estava testando o terreno para uma insurreição interna. Ele não queria salvar; queria usá-la como uma ferramenta para desestabilizar o trono de Azael, oferecendo uma falsa aliança. Antes que ela pudesse responder, Lilith surgiu das sombras do corredor oposto. O olhar da duquesa alternou entre Valerius e Elena, captando o teor da conversa sussurrada. O sorriso de Lilith tornou-se predatório. Ela não interferiu; apenas guardou a informação. A traição estava ganhando ramificações. Lilith queria a coroa e a cama de Azael; Valerius queria o poder militar. Elena era o pivô que ambos pretendiam destruir. Mais tarde, enquanto Elena caminhava de volta para a ala leste, ela percebeu que a atmosfera do palácio havia mudado. Os servos demônios já não a olhavam apenas com desprezo; olhavam-na como se estivessem prestes a assistir a um sacrifício. Ao entrar em seus aposentos, ela encontrou um pequeno bilhete de pergaminho queimado sobre sua mesa de cabeceira. A caligrafia era elegante, mas tremida: "O ferro frio que protege você é o mesmo que atrairá os lobos. Valerius já moveu as peças na fronteira. Não confie no monstro que finge te odiar, mas tema ainda mais aqueles que sorriem para você nas sombras." Elena apertou o papel nas mãos. A conspiração estava se fechando ao redor de Azael, e ele, em sua arrogância cega e determinação em ignorar os próprios sentimentos, corria o risco de ser pego de surpresa pelos seus próprios oficiais. Nesse exato momento, a silhueta monumental de Azael materializou-se no arco da janela da sacada. Ele não entrou no quarto; permaneceu sob a luz da lua de sangue, a casaca escura contrastando com as runas vermelhas que brilhavam levemente no frio da noite. — Você está acordada até tarde, humana — disse ele, a voz fria, distante, mantendo a barreira que havia construído desde o amanhecer. Elena escondeu o bilhete nas dobras de seu vestido azul e caminhou até o limite do quarto, parando a dois metros da sacada. — O palácio está barulhento esta noite, Milorde — respondeu ela, sustentando o olhar dourado dele com uma seriedade cortante. — Há sussurros demais nas paredes. Talvez seu trono não seja tão firme quanto sua arrogância faz parecer. Azael soltou um riso ríspido, o queixo erguido em total desdém pelas ameaças ocultas. — Eu governo este abismo por três eras, Elena. Nenhum verme da minha corte tem a força para me arrancar daqui. E certamente não será uma fêmea humana quem me dará lições de sobrevivência. Ele a encarou por um último segundo, a fome reprimida brilhando no fundo de suas fendas douradas, uma tensão violenta travando seu maxilar enquanto ele lutava para não cruzar a linha da sacada e puxar ela novamente para seus braços. Ele odiava o fato de que a segurança dela o trouxera até ali naquela hora da noite. — Durma, humana — ordenou ele friamente. — E lembre-se de que sua vida só tem valor enquanto eu decidir que tem. Ele desapareceu em uma névoa de cinzas pretas, deixando Elena sozinha na penumbra. Ele continuava frio, orgulhoso e trancado em sua negação, sem saber que a conspiração de seus generais já havia começado a tecer a corda para o seu próprio enforcamento.
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