capítulo 10

910 Words
# Capítulo 10: O Amanhecer de Ferro A luz cinzenta do submundo infiltrou-se pelas janelas ogivais dos aposentos reais, cortando a penumbra e trazendo consigo a fria realidade da manhã. O casulo protetor das asas de Azael havia se recolhido. Quando Elena abriu os olhos, o calor da noite anterior parecia uma miragem distante. Azael já estava de pé, completamente vestido com sua túnica de veludo escuro e botões de prata. Ele estava de costas para a cama, observando o horizonte de cinzas através do vidro. Suas runas haviam retornado ao tom vermelho opaco, controlado e distante. A postura relaxada da madrugada fora substituída pela mesma rigidez aristocrática e imponente de sempre. Elena sentou-se na cama, puxando os lençóis de veludo n***o para cobrir o corpo nu. Ela esperava o habitual ataque de palavras venenosas, o empurrão ríspido ou a ordem para que voltasse a limpar os chãos do palácio. Ela se preparou para a dor. Mas o que veio foi o silêncio. Um silêncio gélido, porém diferente. — Balthazar trará novas vestes para você — disse Azael, sem se virar. Sua voz era o mesmo barítono arrastado e firme, mas não carregava o nojo de antes. Era uma neutralidade cirúrgica. — Você não retornará aos aposentos dos servos. Ficará nos quartos da ala leste. São aposentos dignos de uma convidada da corte. Elena piscou, surpresa com a mudança. — Uma convidada? Ou uma prisioneira com privilégios? Azael finalmente virou a cabeça de lado, o perfil esculpido e perfeito banhado pela luz pálida. Seus olhos de ouro líquido fixaram-se nela por um segundo longo demais, um vislumbre do desejo reprimido lutando contra as correntes de seu orgulho. — Não confunda a minha tolerância com fraqueza, humana — ele respondeu, a voz fria como o mármore. — O que aconteceu aqui foi uma necessidade da carne. Um expurgo. Nada mudou. Você continua sendo uma criatura inferior, e eu continuo sendo o senhor deste reino. Mas... eu não permitirei que a nobreza de Obsidian pense que o que passou pelas minhas mãos pode ser tratado como lixo comum por terceiros. Ele caminhou em direção à porta com sua elegância predatória. Antes de sair, parou, mantendo as mãos enfiadas nos bolsos da casaca. — Fique fora do meu caminho. Não me procure, não me olhe e não espere que eu vá repetir o erro desta noite. Você teve sua utilidade. Agora, volte a ser insignificante. A porta bateu. Ele não a havia maltratado, não a havia insultado como antes. Mas a frieza de suas barreiras autoimpostas era uma barreira tão intransponível quanto as muralhas do palácio. Azael estava resistindo com todas as suas forças ancestrais ao sentimento que ameaçava desmoronar seu império. ## O Novo Espaço e o Veneno na Sombra Horas depois, Elena foi instalada na ala leste. Os aposentos eram, de fato, magníficos. Havia uma cama com dossel de seda azul-tempestade — curiosamente da cor de seus olhos —, banheira de água termal e janelas que davam para um jardim de rosas de metal n***o. Ela não era mais obrigada a trabalhar. Era mantida em uma gaiola de ouro. Enquanto caminhava pelo jardim ao entardecer, Elena tentava processar o comportamento de Azael. Ele a possuíra com uma paixão avassaladora, a salvara dos maus-tratos, mas agora a tratava com uma distância calculada. *Ele está com medo*, ela percebeu com uma clareza cortante. *O grande lorde demônio está apavorado com o poder que uma simples humana tem sobre ele.* — Aproveitando o luxo antes da queda, humana? — a voz sibilante de Lilith ecoou atrás de uma estátua de gárgula. Elena virou-se, encontrando a duquesa de prata. Mas Lilith não parecia apenas furiosa; ela parecia desesperada. Seus olhos inteiramente negros emanavam uma fumaça escura de puro ódio político e pessoal. — Fiquei sabendo que Azael a mudou de ala — disse Lilith, aproximando-se, o vestido de couro de dragão rangendo. — Ele acha que está te protegendo ao te afastar dos servos. Mas ele só está provando para toda a corte que você é o ponto fraco dele. E no submundo, os pontos fracos são eliminados. — Se ele quisesse me proteger, ele estaria aqui, Duquesa — Elena respondeu, mantendo a voz firme e o olhar indiferente. — Mas ele não está. Ele me ignora tanto quanto ignora você. A diferença é que eu não preciso rastejar pelo salão de armas para ter a atenção dele. Lilith avançou um passo, mas parou abruptamente quando uma sombra densa e gélida se projetou sobre o jardim. Azael não estava lá fisicamente, mas a sua presença rúnica — uma barreira invisível de energia protetora e autoritária que ele havia colocado ao redor da ala leste — repeliu a aproximação de Lilith com um estalo de estática n***a. Lilith recuou, arfando, percebendo a marca de proteção invisible que Azael havia colocado sobre Elena. — Ele colocou um selo de posse em você... — Lilith sussurrou, horrorizada. — Ele enlouqueceu. A Corte de Cinzas vai saber disso. Eles vão usar você para arrancar a coroa da cabeça dele, e eu farei questão de entregar a chave da sua cela. A demônia desapareceu em uma névoa de cinzas. Elena olhou para as próprias mãos, sentindo a leve vibração da magia de Azael ao seu redor. Ele continuava distante, orgulhoso e frio, recusando-se a admitir que a amava. Mas, nas sombras, suas ações provavam que ele estava disposto a enfrentar o próprio inferno para garantir que ninguém a tocasse.
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