Capítulo 12:
O selo protetor na ala leste ardia discretamente na penumbra, uma barreira de fios invisíveis de pura magia de Obsidian.
Elena observava o jardim da sacada, sentindo a vibração no ar, enquanto a pouca distância dali, na ala oeste do palácio, a traição criava suas primeiras raízes profundas.
Azael mantinha-se isolado em sua sala de guerra. O lorde demônio passava as noites debruçado sobre relatórios de fronteira, recusando-se a admitir que o verdadeiro motivo de seu isolamento era o medo de cruzar o corredor e ceder novamente ao magnetismo da humana.
Ele forçava sua mente a focar no aço e no sangue, trancando a lembrança da pele de Elena no canto mais obscuro de sua memória imortal.
Ele achava que, mantendo-se frio e distante, estava no controle. Ele estava errado.
No pavilhão subterrâneo do palácio, longe dos olhos do soberano, a Duquesa Lilith e o Marquês Valerius encontraram-se sob o pretexto de inspecionar as reservas de cristais rúnicos.
— O selo que ele colocou nela é de nível monárquico, Valerius
— sibilou Lilith, os dedos longos e cinzentos batendo no cabo de sua adaga.
— Se tentarmos matar agora, as runas de Azael vão nos incinerar antes mesmo que o sangue dela toque o chão.
Ele a marcou como propriedade absoluta.
Valerius soltou um riso baixo, ajeitando a capa de brocado escuro. Suas fendas nos olhos brilharam com o reflexo dos cristais.
— Então não tocamos nela. Ainda não — o marquês inclinou-se para a frente, a voz descendo a um sussurro conspiratório.
— Deixemos que o próprio Azael faça o trabalho. O orgulho dele é a nossa melhor arma.
Se ele descobrir que a humana supostamente está conspirando com os rebeldes de Oakhaven para assassinar ele , o que você acha que o Lorde de Obsidian fará?
Lilith sorriu, os dentes pontiagudos brilhando.
— Ele a esmagará com as próprias mãos.
O orgulho de Azael jamais perdoaria uma traição vinda de uma criatura que ele possuiu.
— Exatamente — confirmou Valerius. — Já ordenei que meus espiões plantem cartas falsas com o selo da casa Vance nos aposentos dela. Cartas detalhando os pontos fracos das defesas do palácio.
Quando Azael encontrar, a barreira invisível dele cairá... e a fúria dele assumirá o lugar.
Naquela mesma tarde, Elena decidiu deixar seus aposentos. Embora Azael tivesse ordenado que ela ficasse fora de seu caminho, o confinamento na gaiola de ouro estava sufocando seu espírito.
Ela caminhou pelos corredores desertos da galeria de arte ancestral, onde retratos de lordes do passado pareciam julgar ela com olhos pintados.
Uma silhueta alta bloqueou a luz no fim do corredor.
Era Azael.
Ele vinha acompanhado por dois guardas rúnicos, mas parou abruptamente ao vê-la.
A tensão no ar subiu instantaneamente. Suas runas piscaram em um vermelho contido sob a camisa escura, e a mandíbula dele travou.
Ele resistiu ao impulso de desviar o olhar, forçando seus olhos de ouro líquido a fitá-la com a arrogância habitual.
Elena não recuou.
Ela deu um passo para o lado, mantendo a cabeça erguida, mas sem o gelo de antes.
Havia um aviso em seus olhos azul-tempestade.
— Eu ordenei que ficasse na ala leste, humana
— disse ele, a voz um barítono cortante e desprovido de qualquer calor, embora a proximidade dela fizesse o sangue dele queimar.
— E eu decidi caminhar, Milorde
— Elena respondeu, a voz firme e calma. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância até os guardas moverem as lanças, mas Azael ergueu a mão, parando-os com um gesto seco. Elena abaixou a voz para que apenas ele ouvisse:
— Há lobos na sua mesa de conselho, Azael. O marquês e a duquesa não estão apenas insatisfeitos.
Eles estão tecendo uma corda.
Azael estreitou os olhos. O orgulho dele falou mais alto, repelindo o aviso como se fosse um insulto à sua inteligência.
— Acha que preciso dos conselhos de uma prisioneira para governar meu próprio reino?
— ele deu um passo à frente, pairando sobre ela, a aura gélida colidindo contra o calor dela.
— Cuide da sua insignificância, Elena. Minha corte é feita de cobras, e eu sou o dono do veneno.
Ninguém se move sem que eu permita.
Volte para os seus aposentos antes que eu perca a pouca paciência que me resta.
Ele passou por ela sem olhar para trás, a capa esvoaçando, rígido em sua negação de que ela pudesse realmente se importar com a segurança dele
— ou de que ele se importasse com o fato de ela saber.
Ao retornar para o seu quarto na ala leste, Elena percebeu algo errado. O aroma sutil de jasmim de seus aposentos fora substituído por um odor quase imperceptível de enxofre.
Ela caminhou até a escrivaninha. Um dos gaveteiros fundos estava milimetricamente desalinhado. Ao abri-lo, seu coração falhou uma batida. Escondido sob seus panos de linho, havia um rolo de pergaminho amarrado com uma fita vermelha
— o selo de sua família, a casa Vance, que ela não via desde a queda de Oakhaven.
Ao desenrolar o papel, ela leu as coordenadas dos portões subterrâneos do Palácio de Espinhos e uma frase final em tinta fresca:
"O monstro está cego pelo orgulho. O ataque será na próxima lua."
Antes que Elena pudesse queimar o pergaminho na lareira rúnica, o som de passos pesados ecoou no corredor.
A porta não foi aberta com delicadeza; as dobradiças gemeram quando a guarda pessoal de Azael tomou o recinto, seguida pelo Marquês Valerius, que exibia um olhar de falsa surpresa e triunfo contido.
A armadilha de traição havia sido disparada, e o tabuleiro estava montado para testar se o gelo de Azael resistiria à suspeita de que sua presa o havia traído.