capítulo 1
O Lorde de Obsidian observava a colina a partir da sacada de sua carruagem de ébano, puxada por pesadelos de olhos flamejantes. Ele vestia uma casaca de veludo n***o bordada com fios de prata que pareciam se mover por conta própria, imitando serpentes. Seus dedos longos e pálidos, adornados com anéis de ferro frio, tamborilavam no parapeito.
— Criaturas patéticas — murmurou Azael. Sua voz era um barítono aveludado, mas carregado de uma vibração que fazia o ar vibrar de pavor. — Oferecem suas próprias sementes em troca de mais alguns anos de colheita. A ganância humana é o único espetáculo previsível que ainda me diverte.
Ao seu lado, Balthazar, seu lacaio de chifres recurvados e pele cinzenta, curvou-se profundamente.
— O dízimo está pronto no altar de pedra, Milorde. Desta vez, o ancião da vila garante que a oferenda é... especial.
Azael soltou um riso seco, desprovido de qualquer calor.
— "Especial" para um humano significa que ela não tem marcas de varíola e sabe cozinhar. Prepare o chicote, Balthazar. Se me fizeram descer do meu trono por lixo comum, farei a terra beber o sangue de metade desta província antes do amanhecer.
### A Doçura no Meio das Ruínas
No centro do círculo de pedras rúnicas, Elena Vance estava de joelhos. O frio da pedra cortava o tecido fino de seu vestido de linho branco — uma vestimenta de sacrifício que a fazia parecer um lírio jogado na lama. Suas mãos estavam atadas à frente do corpo com uma corda de cânhamo áspera que já havia esfolado seus pulsos delicados.
Ela não chorava. O medo estava lá, uma pulsação violenta em sua garganta, mas Elena havia aprendido cedo que as lágrimas não amoleciam o coração dos monstros — fossem eles os demônios que governavam as sombras ou os homens de sua própria vila que a venderam para salvar a própria pele.
— Fique quieta, menina — sibilou o chefe da vila, um homem gordo cujo suor cheirava a medo e vinho barato. — Se você desagradar o Lorde de Obsidian, ele queimará nossas plantações e nos deixará morrer de fome no inverno. Considere isso uma honra.
Elena ergueu os olhos azuis, frios como a tempestade que se armava no céu.
— Uma honra ser entregue a um demônio que usa nossa pele como tapete? Você é um covarde, Heitor. E a terra de vocês continuará seca, porque o sangue de uma inocente não traz chuva. Só traz maldição.
Antes que Heitor pudesse desferir um tapa em seu rosto, o vento congelou.
Literalmente.
As folhas que caíam das árvores pararam no ar, cobertas por uma fina camada de geada n***a. A pressão atmosférica despencou, fazendo os ouvidos dos humanos sangrarem. O som de cascos pesados ecoou, não na terra, mas na própria mente de cada um dos presentes.
A carruagem de Azael materializou-se das sombras. Quando a porta se abriu, o silêncio que se seguiu foi absoluto.
### O Encontro do Predador e da Presa
Azael desceu os degraus de metal n***o com uma elegância que desafiava a gravidade. Cada passo seu deixava uma marca de queimadura na grama úmida. Os aldeões caíram de joelhos, com as testas coladas na lama, tremendo tanto que o som de seus dentes tiritando era audível.
Ele nem sequer olhou para eles. Seus olhos dourados, brilhando com um tédio perigoso, varreram o altar. E então, eles pousaram em Elena.
O demônio parou.
Por um milésimo de segundo — um piscar de olhos que passou despercebido por todos, exceto por ele mesmo —, o coração de pedra de Azael falhou uma batida. Um calor desconhecido e violento disparou por suas veias, como se o fogo do próprio inferno estivesse tentando escapar de seu peito. A fragrância dela — uma mistura de jasmim selvagem, chuva e o cheiro doce e puro da juventude — invadiu seus sentidos, nublando sua mente aristocrática.
*O que é isso?*, ele pensou, e uma fúria imediata acendeu-se em seu peito. Ele odiava surpresas. Ele odiava ainda mais a sensação de que algo humano pudesse afetá-lo.
Azael caminhou até ela, seus passos lentos e deliberados. Ele parou a poucos centímetros de Elena. O contraste era brutal: ele, uma tempestade de escuridão, poder e tecidos caros; ela, uma criatura de gesso e fios de ouro, suja de terra, mas com o queixo timidamente erguido.
Com a ponta de seu dedo indicador pálido, Azael tocou o queixo de Elena, forçando-a a olhar diretamente para ele. O toque foi como gelo seco; Elena estremeceu, mas não desviou o olhar. Ela encarou as fendas douradas de seus olhos com uma audácia que beirava a loucura.
— Uma humana que não fecha os olhos diante da morte — murmurou Azael, sua voz descendo um tom, tornando-se carnal e perigosa. Sua garra raspou de leve na pele macia da bochecha dela, deixando um rastro vermelho. Ele sentiu o pulso dela acelerar contra seus dedos. — Ou você é incrivelmente estúpida, ou deseja que eu rasgue sua garganta aqui mesmo.
— Se eu fechar os olhos, não poderei ver o monstro que dita o meu destino — respondeu Elena, a voz trêmula, mas firme. — Prefiro ver a lâmina que me corta.
Azael estreitou os olhos. A insolência dela o irritava, mas o fogo que subia por sua espinha ao ouvir aquela voz doce era inegável. Ele sentiu uma vontade avassaladora de rasgar aquele vestido branco, de marcar aquela pele imaculada com seus dentes e, ao mesmo tempo, de esmagá-la sob suas botas apenas para provar a si mesmo que ela era insignificante.
Ele a desprezava. Ela era fraca. Ela morreria em algumas décadas enquanto ele permaneceria eterno. No entanto, o desejo que se acendeu nele foi tão agudo que ele quase rosnou de frustração.
— Você acha que tem alguma dignidade, pequena criatura? — Azael sorriu, um sorriso c***l que revelou suas presas afiadas. Ele soltou o queixo dela com um empurrão ríspido, fazendo-a cambalear. — Para mim, você não passa de um brinquedo. Um pedaço de carne que esquentará meus pés até que eu me canse e decida dar seus ossos para os cães do canil de Obsidian.
Ele se virou para Balthazar, sem olhar novamente para Elena, embora cada poro de seu corpo estivesse consciente de sua presença.
— Jogue-a na carruagem. Limpe-a antes de trazê-la ao meu palácio. O cheiro de lama e medo humano me dá náuseas.
Elena foi erguida sem cerimônias pelos guardas monstruosos de Azael. Enquanto era arrastada para a escuridão da carruagem, ela olhou para trás. Azael estava de costas, sua capa esvoaçando como asas de morcego contra a lua de sangue. Ele parecia o próprio rei da ruína, magnífico e terrível.
E, pela primeira vez na vida, Elena sentiu que sua alma havia sido selada para sempre.
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