Capítulo 2: O Palácio de Espinhos
A viagem até as profundezas do reino de Obsidian foi um borrão de sombras e frio cortante. Dentro da carruagem, a temperatura caía a cada solavanco, e o ar tornava-se denso, impregnado com o cheiro de enxofre e agulhas de pinheiro congeladas. Elena abraçou os próprios joelhos, tentando manter o calor do corpo enquanto a carruagem parecia descer por estradas que desafiavam as leis da física, rasgando o próprio tecido da realidade.
Quando a carruagem finalmente parou, a porta foi aberta com violência. Balthazar a puxou para fora sem qualquer delicácia.
Elena engoliu em seco. Diante dela, erguia-se o Palácio de Espinhos.
A estrutura era uma monstruosidade gótica esculpida diretamente em uma montanha de rocha vulcânica. Torres negras e retorcidas subiam em direção a um céu sem sol, onde nuvens de cinzas perpétuas eram iluminadas pelo brilho avermelhado de rios de lava que corriam pelos desfiladeiros abaixo. As janelas eram altas e estreitas, como olhos vazios vigiando o abismo. Cada centímetro da fachada era decorado com esculturas de gárgulas e gavinhas de ferro n***o que imitavam espinhos reais — uma fortaleza projetada não apenas para manter os inimigos fora, mas para lembrar aos que estavam dentro de que o sofrimento era a lei local.
— Ande, humana — sibilou Balthazar, empurrando-a pelas costas. — O Lorde não gosta de esperar, e você cheira a esterco de ovelha e desespero.
## O Ritual da Purificação
Elena foi conduzida por corredores intermináveis, onde as paredes de pedra fria transpiravam uma umidade escura. Ela não viu outros humanos; apenas sombras sussurrantes e servos de pele acinzentada que a encaravam com uma mistura de fome e diversão maligna.
Ela foi levada para uma câmara subterrânea feita de mármore n***o polido. No centro, uma piscina de água termal fumegava, mas a água tinha um tom levemente purpúreo. Três servas demônio — criaturas de beleza exótica, com olhos inteiramente negros e pequenas presas que despontavam de lábios pintados de roxo — esperavam por ela.
— Desfça-se disso — ordenou uma delas, apontando para o vestido de linho sujo de Elena.
Sem escolha, Elena despiu-se. Ela sentiu os olhos das servas cravados em sua pele clara, julgando cada curva de seu corpo frágil. Com movimentos rudes, as servas a empurraram para dentro da água quente. A água ardeu inicialmente, como se estivesse lavando não apenas a sujeira de sua pele, mas a própria essência de sua humanidade. Elas esfregaram seus cabelos com óleos perfumados de jasmim e sândalo, e escovaram seus fios dourados até que brilhassem como seda sob a luz das lamparinas de óleo.
— Ela é tão... macia — murmurou uma das servas, apertando o ombro de Elena com uma garra afiada, quase tirando sangue. — Um aperto um pouco mais forte e ela se quebra. Como o Lorde Azael suporta algo tão insignificante?
— Ela é um brinquedo — respondeu a outra com desdém. — Brinquedos são feitos para serem quebrados.
Após o banho, Elena foi vestida com uma túnica de seda cinza-escura, quase transparente, que se moldava ao seu corpo. Não havia roupas de baixo, nem sapatos. Seus pés descalços tocavam o chão de pedra gélido, um lembrete constante de sua vulnerabilidade.
## A Presença do Predador
Elena foi levada aos aposentos privados de Azael. As portas duplas de ferro fundido abriram-se silenciosamente, revelando um quarto imenso. O chão era coberto por tapetes de pele de bestas exóticas. No fundo, uma cama monumental com dossel de veludo n***o parecia um altar de sacrifício. Lareiras queimavam com chamas azuis, que emitiam calor, mas nenhuma luz reconfortante.
Azael estava de pé junto a uma imensa janela em arco, de costas para a porta. Ele havia retirado a casaca formal e vestia apenas uma camisa de seda preta com os primeiros botões abertos, revelando a clavícula esculpida e o início das runas vermelhas que serpenteavam por seu peito. Seus cabelos negros estavam levemente desalinhados, e ele segurava uma taça de cristal com um líquido escarlate.
— Saiam — ordenou ele, sem se virar.
As servas curvaram-se e retiraram-se rapidamente, fechando as portas pesadas atrás de si. O clique da fechadura ecoou como um veredicto no silêncio do quarto.
Elena permaneceu parada perto da entrada, com os braços cruzados sobre o peito em uma tentativa instintiva de se proteger. O cheiro de Azael — uma mistura inebriante de tempestade, fumaça e algo puramente masculino e perigoso — preencheu seus pulmões.
Azael virou-se lentamente. Quando seus olhos dourados pousaram nela, Elena sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ele a encarou de cima a baixo, seus olhos fixando-se na forma como a seda fina revelava as curvas de seu corpo e na palidez de sua pele contra o tecido escuro.
Um lampejo de desejo puríssimo e violento cruzou o rosto do demônio, substituído quase instantaneamente por uma expressão de profundo nojo de si mesmo. Ele odiava a reação que o corpo dele tinha à mera visão daquela fêmea humana.
— Aproxime-se — ele comandou.
Elena hesitou por um segundo, o que fez os olhos de Azael brilharem com uma fúria dourada.
— Eu não costumo repetir minhas ordens, humana. Seus pés não estão quebrados. Mova-se.
Ela deu passos curtos e silenciosos, parando a dois metros dele. A diferença de altura era intimidadora; ela m*l alcançava o peito dele.
— Você está perfumada — Azael disse, sua voz um rosnado baixo enquanto ele dava um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Mas o perfume de flores não consegue esconder o cheiro de medo que emana de seus poros. É patético. Como uma raça tão fraca consegue sobreviver?
— Nós sobrevivemos porque nos apoiamos uns nos outros — Elena respondeu, erguendo o queixo, embora seu coração parecesse uma ave enjaulada batendo contra suas costelas. — Coisa que os monstros não entendem.
Azael soltou uma risada sombria e fria. Num movimento tão rápido que os olhos humanos de Elena não conseguiram acompanhar, ele reduziu a distância entre eles. Suas garras agarraram a mandíbula dela com força, forçando-a a olhar para ele. O aperto era doloroso, mas Elena recusou-se a gemer.
— Apoiam-se uns nos outros? — ele zombou, os olhos brilhando de escárnio. — Aqueles porcos na vila a entregaram a mim sem hesitar para salvar as próprias peles inúteis. O seu "povo" a vendeu, Elena. Você foi moeda de troca. Ninguém está vindo te salvar.
As palavras dele cortaram mais fundo do que qualquer garra. Elena engoliu o nó na garganta, seus olhos azuis brilhando com lágrimas teimosas que ela se recusava a deixar cair.
— Eu sei — ela sussurrou.
A proximidade entre eles era torturante. Azael podia sentir o calor que emanava do corpo dela, tão diferente da frieza de seu próprio ser. O cheiro de jasmim dela estava nublando seus sentidos novamente. Ele olhou para os lábios rosados e trêmulos de Elena, e um desejo avassalador de tomá-los, de prová-los até que ela clamasse por clemência, quase o dominou.
Irritado com sua própria fraqueza, ele a empurrou para longe de si. Elena cambaleou e caiu de joelhos no tapete de pele.
— Você é desprezível — ele cuspiu, virando-se de costas para esconder a tensão em seu próprio corpo. — Um verme que eu poderia esmagar com um único pensamento. Não pense que sua beleza tola tem algum poder aqui. Você não passa de uma serva pessoal. Seu único trabalho é me servir e lembrar-me de quão inferiores os humanos são.
Elena levantou-se lentamente, limpando os joelhos e mantendo sua dignidade intacta.
— Se sou tão desprezível, Lorde Azael... por que seus olhos queimam quando você olha para mim?
Azael congelou. O silêncio que se seguiu no quarto foi tão denso que podia ser sentido fisicamente. Lentamente, ele virou a cabeça de lado, seu perfil aristocrático banhado pelas chamas azuis da lareira.
— Cuidado com sua língua, humana — ele sibilou, sua voz carregada de uma promessa de morte. — Eu posso fazer você implorar pela morte antes do amanhecer.
— Você pode me matar — ela disse, dando um passo atrás, mas sem desviar o olhar. — Mas não pode negar o que sente. Você me odeia... mas me deseja. E eu acho que isso o assusta mais do que qualquer inimigo.
Azael deu um passo em direção a ela, a fúria brilhando em suas runas vermelhas, pronto para fazê-la engolir cada palavra. Mas antes que pudesse tocá-la, batidas fortes ecoaram na porta do quarto.
— Milorde! — a voz de Balthazar chamou, urgente do outro lado. — Peço perdão pela interrupção, mas o General Malakor chegou com notícias da fronteira. Os rebeldes da corte de cinzas estão se mobilizando.
Azael fechou os punhos, suas garras quase perfurando a própria pele. Ele olhou para Elena uma última vez, uma promessa silenciosa de punição brilhando em seus olhos dourados.
— Isso não acabou, pequena insolente — ele sussurrou.
Ele passou por ela como uma rajada de vento gelado, abrindo as portas do quarto com um estrondo e deixando Elena sozinha na penumbra de seus aposentos, cercada pelo silêncio e pelo eco de suas próprias palavras audaciosas