# Capítulo 3: A Corte de Cinzas
O silêncio que se instalou nos aposentos de Azael após sua partida abrupta era quase tátil. Elena abraçou os próprios braços, sentindo o arrepio do frio das sombras arrepiar a pele exposta por sob a fina seda cinza. Ela caminhou lentamente até a imensa janela em arco, observando a imensidão do submundo de Obsidian.
Lá embaixo, rios de fogo violáceo cortavam vales de pedra n***a, e sentinelas com armaduras escuras patrulhavam as muralhas externas como espectros silenciosos. Ela era uma prisioneira em um mundo de pesadelos, mas, estranhamente, a fúria nos olhos dourados de Azael a assustava menos do que a frieza dos anciãos de sua própria vila. Ele era um monstro, sim, mas um monstro que não usava máscaras de falsa moralidade.
Ela não teve muito tempo para contemplar o abismo. A porta de ferro fundido rangeu novamente, abrindo-se para revelar não o lorde demônio, mas uma figura de elegância perturbadora.
## A Serpente da Corte
A mulher que entrou no quarto caminhava com a graciosidade de uma pantera. Sua pele era de um tom cinza-pálido, quase translúcido, e seus cabelos, longos e lisos como fios de prata, caíam até os quadris. Ela vestia um vestido justo de couro de dragão e placas de metal polido que acentuavam suas curvas perigosas. Seus olhos eram completamente negros, sem esclera ou pupila, brilhando com uma inteligência maliciosa.
Era a **Duquesa Lilith**, uma das poucas fêmeas de sangue puro que ousavam disputar a atenção de Azael na corte de Obsidian.
— Então... esta é a nova mascote do Lorde — disse Lilith, sua voz parecendo o deslizar de escamas sobre a areia. Ela rodeou Elena, avaliando-a com nojo evidente. — Uma humana. Uma criatura de carne frágil que sangra por qualquer motivo e apodrece em poucas décadas. Azael deve estar realmente entediado para trazer um verme desses para seus aposentos reais.
Elena manteve-se firme, embora seu coração disparasse. Ela sentia a aura de Lilith — um calor sufocante e opressor, diferente do frio glacial e majestoso de Azael.
— Se sou tão insignificante, por que a Duquesa se deu ao trabalho de descer de seu pedestal para me ver? — perguntou Elena, sustentando o olhar sombrio da demônia.
Lilith parou abruptamente a poucos centímetros de Elena. Suas unhas, afiadas como adagas de obsidiana, ergueram-se e pairaram perigosamente perto da garganta da humana.
— Insolente — sibilou Lilith. — Você não entende onde está, pequena presa. Neste palácio, o sangue humano serve apenas para duas coisas: para ser bebido em taças de ouro ou para pintar as paredes em dias de festa. Azael odeia sua raça. Ele baniu os humanos de suas terras há séculos. Se ele te mantém aqui, é apenas para brincar com sua agonia antes de descartá-la. E eu terei o maior prazer em ajudar no processo de descarte.
Antes que Lilith pudesse encostar suas garras na pele de Elena, uma presença avassaladora inundou o corredor externo, fazendo as chamas azuis das lareiras vacilarem até quase se apagarem.
## A Ira do Lorde de Obsidian
Azael entrou no quarto. Sua expressão era uma máscara de fúria contida. Suas runas vermelhas brilhavam intensamente sob a camisa preta entreaberta, e a pressão no ar fez com que Lilith recuasse imediatamente, recolhendo suas garras com uma reverência apressada, embora pouco sincera.
— Lilith — a voz de Azael era um trovão contido, ecoando pelas paredes de pedra. — Eu não me lembro de ter lhe dado permissão para entrar nos meus aposentos privados. Ou para tocar no que me pertence.
— Meu Lorde — disse Lilith, suavizando a voz para um tom sedutor que não combinava com o veneno de segundos atrás. — Eu apenas queria ver a nova... aquisição. Temi que sua generosidade para com os humanos pudesse enviar uma mensagem de fraqueza para a Corte de Cinzas, especialmente agora que os rebeldes estão se mobilizando.
Azael deu um passo à frente, e a própria sombra atrás dele pareceu se esticar, cobrindo o quarto com asas invisíveis.
— Minha generosidade? — ele zombou, aproximando-se de Lilith com uma lentidão predatória. — Eu não conheço essa palavra. E se eu decidir manter um verme no meu quarto para o meu próprio divertimento, nenhum lorde ou duquesa deste reino tem o direito de questionar. Saia da minha presença antes que eu decida que sua cabeça decorará melhor o meu salão de banquetes do que o seu pescoço.
O aviso foi claro. Lilith engoliu em seco, lançando um último olhar carregado de promessas de morte para Elena antes de passar por Azael e desaparecer no corredor escuro.
## Desejo e Desprezo
Novamente sozinhos, o silêncio voltou a reinar, mas agora estava carregado de uma eletricidade perigosa. Azael respirava pesadamente. Ele se aproximou de Elena, seus olhos de ouro líquido fixos nos ombros nus dela, que tremiam levemente devido ao frio e à tensão.
— Você atrai problemas, humana — ele rosnou, parando tão perto que ela podia sentir o calor emanando de seu peito, apesar do ar gelado ao redor.
— Eu não pedi para ser trazida para cá — Elena respondeu, dando um passo atrás até que suas costas encontrassem a parede fria de pedra.
Azael a seguiu, encurralando-a. Ele apoiou as duas mãos na parede, uma de cada lado da cabeça de Elena, inclinando seu corpo maciço sobre o dela. Ele era uma muralha de poder, e Elena parecia minúscula sob sua sombra.
— Você deveria estar tremendo de medo de mim, não desafiando meus convidados — ele murmurou, o rosto a centímetros do dela. Seus olhos desceram para os lábios rosados de Elena, que se entreabriram em uma respiração curta.
O conflito interno de Azael era evidente em suas feições esculpidas. Ele queria odiá-la. Ele queria jogá-la aos cães. Mas a proximidade daquela pele macia, o calor doce que emanava de seu corpo e a pureza que ela carregava — algo que ele nunca vira no submundo — o atraíam como um ímã. Era uma obsessão nascente que ele tentava, em vão, combater com violência e desprezo.
— Eu não tenho medo de você, Azael — ela sussurrou, sua voz suave agindo como um bálsamo e uma tortura para os sentidos do demônio. — Eu tenho pena.
Os olhos de Azael se estreitaram em fendas douradas.
— Pena? De mim? O Lorde de Obsidian? — Ele soltou uma risada ríspida, mas havia uma nota de urgência em sua voz. Sua mão desceu da parede e envolveu o pescoço dela, não para apertar, mas para sentir a pulsação frenética de sua artéria. — Você é uma prisioneira. Sua vida depende do meu humor. Um aperto do meu punho, e você deixa de existir.
— Você pode tirar minha vida, mas não pode governar minha mente — disse Elena, sustentando o olhar. — E, enquanto me mantiver aqui, você terá que conviver com o fato de que um "verme" humano sabe exatamente o que você tenta esconder por trás de toda essa crueldade.
Azael rosnou, um som baixo e puramente animal. O desejo venceu o orgulho por um breve e terrível segundo. Ele inclinou a cabeça, seus lábios roçando a curva do pescoço de Elena, logo acima de onde seus dedos seguravam.
Elena prendeu a respiração. A carícia de seus lábios frios contra sua pele quente enviou uma descarga elétrica por todo o seu corpo. Suas mãos, instintivamente, subiram para o peito dele, agarrando o tecido de sua camisa preta, mas ela não o empurrou.
— Você é uma praga, Elena — ele sussurrou contra a pele dela, sua voz rouca de frustração e desejo. Ele inalou o perfume de jasmim dela como se fosse um homem sufocando. — Uma praga que eu deveria exterminar.
Ele subiu os lábios lentamente pela mandíbula dela, parando a milímetros de sua boca. O calor de sua respiração misturou-se com o dela. Elena fechou os olhos, esperando pelo beijo que parecia inevitável...
Mas, com um esforço de vontade sobre-humano, Azael afastou-se abruptamente.
Seu rosto estava contraído de ódio — não dela, mas de si mesmo por ter cedido tão facilmente. Ele se virou de costas, os punhos cerrados ao lado do corpo, as runas brilhando em uma tonalidade quase n***a de fúria.
— Vista-se com algo decente — ele ordenou, sua voz fria como o gelo de Obsidian novamente. — A partir de amanhã, você servirá no salão principal. Veremos se sua insolência continua quando você perceber que, neste mundo, os de sua espécie não passam de entretenimento para os monstros.
Sem esperar por uma resposta, ele saiu do quarto, batendo as pesadas portas de ferro atrás de si e deixando Elena no escuro, com os lábios ainda formigando e o coração batendo no ritmo frenético de uma tempestade iminente.