Clínica

1424 Words
Julia narrando. Resmungo quase chorando quando meu despertador toca. É uma merda ter que acordar cedo em pleno fim de semana, mas tenho obrigações, infelizmente. Vou visitar meu pai em sua clínica, hoje sem a Jade, minha melhor amiga. Não gosto de ir sozinha para lá, sempre fico m*l depois e gosto de alguém segurando minha mão. Tomo um banho quentinho para tentar acordar, me olho no espelho ainda de toalha e sorrio vendo meu corpo. O gostosão surtado deixou vários chupões e minha b***a vermelha. Pena que o pós-sexo foi deprimente, mas agora tenho história para contar, pelo menos. Me sento em frente à minha penteadeira/escritório/biblioteca, olho desmotivada para as manchas; não vão sair com corretivo e base, o jeito é apelar para o velho método: cachecol e blusa de gola alta. Apenas fica um pouco suspeito pelo enorme calor que faz, mas quem vai pensar que é isso? Resmungo morrendo de calor, estaciono em frente à clínica e pego as sacolas que sempre trago para meu pai, telas e coisas de pintura. Minha mãe, que não gostava dele e apenas casou com ele por ter engravidado de mim, acabou torturando-o mentalmente durante anos, fazendo sua doença se agravar e deixá-lo no estágio em que está hoje. Ele tem esquizofrenia. Ele diz que escuta várias pessoas; ele descrevia para mim quando eu era pequena, mas com o tempo ele apenas resumiu para "as vozes". Em certo momento, ele diminuiu a quantidade de falas e agora se expressa através da pintura. Minha casa está cheia dos quadros que ele me dá de presente. Ele ama pintar e gosto de vê-lo feliz assim; aqui, com a rotina e tudo mais, ele vive bem. A enfermeira já me reconhece de longe e corre vindo me ajudar com as coisas. — Quantas telas! O senhor Hector vai adorar — ela diz sorrindo, e eu assinto. — Também trouxe as tintas das cores que me pediu. Como ele está? — Olha, dona Júlia, na mesma. É receptivo com as pessoas, mas ainda com seu jeito dele. Suas risadinhas e conversas sozinhas voltaram. Ele não quer mais tomar o remédio. — Juli — escuto a voz dele atrás de mim e sou surpreendida com seu abraço. Ele faz os desenhos de círculos em minhas costas com o mesmo hábito de sempre, me fazendo sorrir. — Oi, pai. Eu trouxe presentes para você. Como você está? — Demorou — ele diz apontando para mim, e eu assinto, andando com ele até seu quarto. — É, eu tive que viajar a trabalho, mas você pode me mostrar as pinturas que fez nesse tempo? — ele assente sorrindo e corre na frente, indo mostrar. Entro em seu quarto vendo a grande janela aberta e milhares de quadros nas paredes, faces de várias pessoas e uma paisagem muito linda com flores e um céu azul. A enfermeira se retira, nos dando privacidade, e eu me sento na cama, olhando um quadro que parece ser eu, sorrindo com uma flor na mão. É lindo. — Anjo falou, você vai ter flor, em você — ele diz, pegando minha mão, e eu deito minha cabeça em seu ombro, sem entender. — O que mais o anjo falou? — Falou para comer gelatina de cereja, precisamos pintar ursos. Anjo gosta de ursos — ele sorri piscando várias vezes e mexe em seu cabelo bagunçado. — Papai, você escutou mais alguém? — Tem anjo, r**o, lata e menino. r**o é do m*l, filha. Ele fala para eu fazer coisas ruins, mas os outros o deixam calado. Eles ficam falando aqui — ele sussurra tudo e mexe a cabeça nervoso, piscando incansavelmente. — E os remédios? — sussurro, e ele sorri indo até um pote de tinta. — Aqui, segredo: ruiva do m*l que me dá eles. Confio no grandão n***o. Ruiva tem cabelo do m*l, filha do r**o — ele fala tudo piscando e olhando para o chão. — Se eu trazer o grandão de volta, você toma? — ele assente rindo, me fazendo rir também. Ele é maluquinho e às vezes dá medo se realmente embarcar nos papos que ele conta, mas eu o amo mesmo assim. Dirijo para a casa do meu chefe em pleno sábado para um almoço. Eu realmente gosto do senhor Russo; se não gostasse, eu nunca estaria vindo almoçar aqui no meu dia de folga. Pelo menos minha melhor amiga vai estar lá. A Jade acabou arrumando um namorado doido daquela família, o filho do meio do meu chefe. O único que vai para a empresa e vivia surtando na minha frente, mas agora ele é p*u mandado dela. O segurança me reconhece e abre o portão. Vejo o casal conversando perto do carro caro do Antoni. Minha amiga sorri para mim, e eu saio do carro correndo até ela. Ignoro o grandalhão que a segura e abraço a Jade mesmo assim. — Obrigada por ter ido ontem, amiga. Foi incrível — sorrio lembrando da noite, e a Jade me olha sem entender. — Obrigada pelo cartão VIP, Antoni. — De nada — ele responde surpreso. Posso não gostar dele ter roubado minha amiga de mim, mas se ele ama e cuida dela, eu apoio. — O que aconteceu ontem, dona bonita? — a Jade pergunta cruzando os braços. Olho para seu namorado esperando ele sair, mas quando não acontece, ignoro. — Eu tive uma das melhores noites de sexo da minha vida. Eu fiquei com um GOSTOSO, amiga. Do céu, ele é muito bem dotado e safado — ela ri, e eu passo a mão no pescoço lembrando da sua boca. Pena que ele era surtado; se não fosse, eu teria aproveitado muito mais. — Por isso da gola, né, safada? — Você não é lésbica? — o Antoni pergunta rindo, e eu n**o com a cabeça. — Não, por quê? — o Antoni fica em silêncio, e eu começo a rir olhando para sua cara. — Achou que eu queria pegar a Jade, né? Meu filho, se eu quisesse já tinha pegado. Ninguém resiste ao meu olhar. Ele olha com raiva para mim, e eu continuo rindo com a Jade. — Vamos entrar? — assentimos para minha amiga e cruzo nossos braços. O Antoni fica me encarando para soltar sua mulher, e eu encaro de volta, não soltando minha amiga. O Antoni abre a porta ainda me encarando. — Meus filhos — dona Antonella, esposa do meu chefe e uma grande amiga, diz vindo até a porta. Ela me abraça primeiro, me fazendo soltar a Jade e rir. — Que saudade, Ju! A viagem foi incrível, viu? Obrigada por ter nos acompanhado e arrumado tudo. — Obrigada — agradeço sorrindo e vejo meu chefe vir me abraçar também. Eles são maravilhosos. Fora o meu pai e minha mãe sumida, eu não tenho família. Quer dizer, tenho a Jade, que meio que nos adotamos; ela também não tem ninguém. E quando conheci o senhor Giovanni Russo e comecei a trabalhar para ele, senti de verdade que ele me tratava como filha. Sua esposa, quando me conheceu, foi igual. É até engraçado nas viagens que fizemos de trabalho. O senhor Giovanni pedia minha comida, a dona Antonella gostava de fazer compras comigo e me dar coisas. Eles me compravam até sorvete quando íamos na rua. — Querida, temos uma novidade — dona Antonella fala me abraçando de lado. — Eu vou me aposentar — ele fala feliz, e eu sinto o choque, mas sorrio mesmo assim. — Meus parabéns, Giovanni — o abraço, e ele ri dando tapinhas nas minhas costas. — Eu vou sempre te visitar na empresa, viu, maluquinha? Você vai trabalhar com meu filho. Ele vai começar a ir para lá. — O mais velho? Pelo amor, senhor Giovanni, me diga que é o Andrew. O mais velho eu vi poucas vezes; ele é bem sério e concentrado. Seria ok trabalhar com ele, eu acho. O tipo maluco dele é menos surtado, mais controlador. Já o outro... Sei pouco da fama dele, apenas coisas que ouvi nos elevadores da empresa. Tem muita informação correndo por eles. — Será nosso filho Alec, mas fica tranquila que não será agora, Ju. Ele estava na cidade, mas voltou hoje cedo para o último país que visitou resolver umas coisas. — Eu vou sentir saudades de vocês dois — revelo, e eles me abraçam. — Vamos sempre te visitar, e você não ache que vai escapar das nossas tardes de compras ou almoços, mocinha — dona Antonella me adverte, e dou risada.
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