Capítulo 2 – As Marcas da Escolha

716 Words
O amanhecer trouxe uma calma que parecia mentira. O orvalho brilhava nas folhas como lágrimas da floresta, e os primeiros raios de sol atravessavam as copas das árvores com delicadeza. Eu estava sentada ao lado de Arleo, com a cabeça encostada em seu ombro, tentando entender tudo que havia acontecido. Depois do reencontro, não conseguimos voltar ao vilarejo. Algo dentro de mim sabia que o caminho de volta já não existia. A floresta me acolhera, me reconhecera. E Arleo havia sido marcado por ela também. A luz dourada em seu peito, agora suave e cintilante, parecia pulsar com meu próprio coração. — Você tem certeza disso? — ele perguntou, tocando de leve a marca em seu corpo. — Essa... essa promessa? — Tenho. A floresta escolheu você, Arleo. E eu também. Ele sorriu, ainda confuso, mas havia uma firmeza nova em seus olhos. Aquele menino corajoso que um dia me defendera de provocações agora era um homem diante da magia. Começamos a andar pela clareira. As árvores se curvavam sutilmente quando eu passava, como se me saudassem. Pequenas luzes flutuavam ao nosso redor, e eu podia ouvi-las sussurrando. Palavras em uma língua que eu ainda não compreendia, mas que meu coração reconhecia. — Sua magia está acordando, Mayara — disse Arleo. — Posso sentir no ar. Ele estava certo. Eu também podia. Começava com um calor leve sob a pele, como se algo dourado fluísse pelas minhas veias. Quando fechei os olhos, senti pequenas faixas de luz se desenharem em meus braços. Eram como tatuagens vivas, cintilantes, que desapareciam quando eu abria os olhos. — É lindo... — murmurei. — Mas também assusta. — Tudo que é verdadeiro costuma assustar no começo. Mas você não está sozinha. Ficamos em silêncio por um tempo. Depois, decidimos procurar abrigo. Não sabíamos quanto tempo passaríamos ali. Encontramos uma antiga cabana entre as árvores, coberta por folhas e musgo, mas ainda firme. Era como se tivesse sido deixada para nós. Limpamos o lugar, organizamos o que pudemos. As noites eram frias, mas o calor da presença de Arleo bastava para aquecer meus pensamentos. Em uma dessas noites, ele me contou sobre os dias em que estive desaparecida. Sobre como todos desistiram de mim. — Milena dizia que você tinha se perdido por imprudência — contou ele. — Que não valia o risco procurar. Mas eu sabia que não era verdade. — Milena sempre me olhou estranho... — murmurei. — Não sei por quê. — Acho que ela sempre soube que havia algo especial em você. E isso a incomodava. O nome dela me trouxe um arrepio. Milena. A filha do camponês silencioso, a amiga de Aurora. Sempre observadora, sempre calada. Agora, tudo fazia sentido. Ela sabia. Naquela mesma noite, Arleo segurou minhas mãos com firmeza. — Mayara... eu preciso dizer algo. — Diga. — Quero que sejamos mais que isso. Mais do que sobreviventes, mais do que companheiros. Quero ser seu para sempre. Quero me casar com você. Meu coração parou por um instante. Os olhos dele ardiam com ternura e coragem. Eu quis dizer sim, mas algo me impediu. A memória do desprezo do meu pai adotivo, da maneira como ele nunca me considerou parte da família. — Não sei se podemos... Se você for até minha casa, meu pai vai recusar. — Então não vamos pedir permissão. Vamos fazer isso do nosso jeito. E assim, fugimos mais uma vez. Atravessamos as árvores, com as estrelas por testemunhas. Encontramos um templo antigo, feito de pedra e folhas. Ali, sob a bênção da floresta, selamos nosso amor. Foi na nossa primeira noite como marido e mulher que algo dentro de mim se partiu e se abriu ao mesmo tempo. A magia reagiu ao nosso vínculo. As faixas douradas cobrindo minha pele brilharam com força, minhas unhas emitiram luz como fogo suave, e por um instante, senti algo crescer em minhas costas. Uma dor doce, como brotos de asas. Arleo me abraçou com carinho, ofegante, mas em paz. — Você é feita de magia, Mayara. E eu sou feito para te proteger. Adormecemos em meio às luzes flutuantes, com a sensação de que o mundo inteiro respirava junto conosco. Mas as sombras não dormem. Milena, em sua solidão escura, sentiu a mudança. E pela primeira vez, sua própria magia se moveu.
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