O céu se rasgou como pergaminho em chamas.
Milena surgiu no horizonte envolta em sombras ondulantes, com os olhos vazios como noites sem lua. Atrás dela, as criaturas que invocara — espectros da floresta corrompida, feitos de trevas vivas — rastejavam como veneno pelas raízes. Ela flutuava sobre o chão como uma deusa esquecida, envolta em véus escuros que pareciam absorver a luz ao redor.
Eu estava de pé no centro do Círculo das Raízes, ainda flutuando após o ritual. Minhas asas vibravam com o novo poder que havia despertado, e a coroa de pedras em meus cabelos brilhava com a força de mil auroras. Meus pais estavam ao meu lado, e atrás de nós, Arleo e Elorik preparavam-se para proteger o santuário.
Milena não falou de imediato. Seus olhos percorreram cada rosto como lâminas.
— Mayara — sua voz era baixa, mas ressoava por toda a clareira. — A herdeira coroada. A filha das árvores. O amor da floresta. Que espetáculo patético.
Avancei um passo, com a cabeça erguida.
— Milena, você não precisa fazer isso. Eu senti a dor em você. Eu sei que ainda existe algo bom aí dentro.
Ela sorriu. Triste. Quase... humana.
— Eu também senti algo uma vez. Mas tudo o que recebi foi desprezo. Eu amava você, Mayara. Como irmã. Como sombra. Mas o que recebi? O brilho que eu nunca tive. O amor que você nunca me ofereceu.
Meu coração doeu. — Milena...
— Silêncio! — ela gritou. — Eu fui invisível até que a escuridão me enxergou. E agora, você vai me ver também.
Com um gesto, o chão tremeu.
As criaturas avançaram, em um rosnado coletivo que parecia vir do ventre da floresta moribunda. Arleo correu para o lado esquerdo da clareira, sua lâmina de luz se acendendo como um cometa. Elorik levantou os braços e invocou uma muralha de ar cristalino que deteve a primeira onda de sombras. Meus pais se mantiveram atrás de mim, conectados ao poder ancestral do lugar, canalizando energia para me sustentar.
Mas Milena não recuou. Ela não era apenas a comandante. Era a tempestade.
Com um grito, ela liberou uma explosão de magia escura que rasgou as árvores e rachou o solo. Tive que criar uma cúpula de raízes e luz para proteger meus pais.
— Mayara! — gritou Arleo. — A magia dela está alimentada pelo Coração da Noite! Não podemos vencê-la com força. Precisamos quebrar a fonte.
Fechei os olhos e me conectei à floresta. As árvores me sussurraram uma verdade: o Coração estava fundido à alma de Milena. Ela havia se tornado sua portadora.
— Então eu preciso tocá-la — disse, firme.
— Isso pode te matar — alertou Elorik.
— Ou pode salvá-la.
Me ergui sobre as asas de luz. Meu corpo brilhou, minhas faixas douradas se tornaram quase brancas. A cada batida do meu coração, a floresta respondia. O solo tremia com minha presença. As criaturas hesitaram. Até Milena sentiu.
— O que é isso? — ela sussurrou, olhando para mim como se visse algo que não compreendia.
— É o que você deixou para trás.
Avancei. Voando. Girando entre os ataques das sombras. Cada toque meu purificava parte do campo de batalha. Cada golpe que eu desviava revelava raízes vivas sob o solo. Senti o eco de antigas rainhas da floresta, ouvindo seus sussurros, sentindo suas bênçãos.
Milena tentou me deter, criando lâminas de escuridão, mas Arleo apareceu, defendendo meu avanço. Sua espada brilhou com a luz do nosso vínculo. Ele enfrentava os monstros não com raiva, mas com amor.
— Vá, Mayara! Eu estou aqui!
E fui.
Toquei Milena no peito, bem sobre o coração.
Ela gritou, mas não recuou. Ficou ali, parada, como se o toque tivesse queimado por dentro. Meus olhos viram o que estava escondido:
A criança que ela foi. Abandonada. Ignorada. Sedenta de afeto.
— Você não está sozinha — sussurrei. — Nunca esteve. Eu errei por não ver você antes. Mas agora... agora eu vejo.
Minhas mãos se iluminaram. A escuridão ao redor dela começou a rachar, como uma concha. Os véus de trevas que a cercavam se desfizeram um a um. Primeiro seus braços, depois seu rosto. Até que sua verdadeira forma foi revelada: magra, frágil, ferida.
Milena caiu de joelhos. As sombras gritaram e se dissiparam como fumaça levada pelo vento. O céu clareou. O aroma da floresta voltou. A vida retomava seu curso.
Ela me olhou com olhos cheios de lágrimas — azuis, como eram antes.
— Mayara... me perdoa?
Eu a abracei. Senti sua alma tremer contra meu peito.
— Sempre.
O Coração da Noite se desprendeu de sua alma como uma pedra sem brilho. Elorik a envolveu em um feitiço de contenção.
O campo de batalha estava em silêncio. As criaturas tinham desaparecido. O Círculo das Raízes respirava alívio. A luz voltou a brilhar pelas folhas, e pequenos seres encantados surgiram, dançando entre os galhos como se celebrassem nossa vitória.
E assim, com luz e perdão, vencemos a primeira grande batalha.
Mas o coração da floresta ainda batia inquieto.
Ainda havia segredos enterrados. Forças antigas despertando. E uma guerra que se anunciava além das árvores.