Hoje tive mais uma crise depressiva, daquelas em que nada faz sentido, nem mesmo as coisas que antes você mais amava e conseguia se divertir. É a sensação de um vazio, de um poço sem fundo, que você escava desce até o final para, quem sabe, descobrir alguma coisa em seu interior. Alguma coisa que lhe desperte razões, motivos e sentidos. Eu tenho uma vida perfeita, nunca fui abusada quando criança e não carrego comigo grandes traumas, pelo contrário, fui filha mais velha durante 6 anos e era extremamente mimada e cuidada por minha mãe. Já pensei se seria essa a raiz do problema. No entanto, ela não para aí nesse ponro. Meu pai sofreu dos mesmos sentimentos de vazios, seguidos de hipomania, típicos do transtorno bipolar. Era mais explosivo do que implosivo como eu, que me machuco pela culpa e para não machucar as pessoas.
Hoje, quando ele me viu chorando, eu disse "voltou ontem..." ele já sabia do que se tratava. Aos seus 47 anos, ele me disse que vai chegar uma fase em que eu sequer vou me lembrar dessas crises, que elas serão só uma fase difícil da minha vida, da qual eu sairei mais forte. Tenho medo de sair morta. Então me mortifico nas palavras, porque elas me encontram, parafraseando Manoel de Barros. Quando sou encontrada por elas e tento, desesperadamente, descrever exatamente o que eu sinto, parece que a dor diminui um pouco. Continua sem fazer sentido algum, mas pelo menos agora, nesse momento, eu estou fazendo algo que amo, e nada nos movimenta mais do que o amor.
Dia desses, enquanto chovia, gravei um víde, porque amo dias chuvosos, eles me acalentam, especialmente se eu coloco um moletom e fico olhando o céu cinza pela janela. Sinto paz, sinto como se estivesse em casa. No vídeo, eu disse algumas palavras que brotaram em minha mente que é sempre barulhenta.
15 de Outubro
"Eu detesto tudo o que é claro, especialmente nesses momentos, em que eu sinto como se nada fizesse sentido e, nem eu mesma fizesse sentido. Parece que, em minha cabeça, estar no mundo é como se fosse um castigo. Hoje foi aniversário do meu irmão, e eu acordei feliz. Fiz vários exercícios de mobilidade porque são os únicos que eu tenho gostado de fazer, Nesse momento, eu pensei: a vida é boa. Basta eu olhar do jeito certo. Então às 15:00 eu senti que nada disso fazia sentido. E como diz no livro de Eclesiastes, tudo é vaidade e correr atrás do vento. Assim, eu sigo aqui, correndo atrás do vento. De uma maneira estranha, eu sinto saudade de onde eu vim antes de parar aqui no planeta terra. Uma saudade que eu não consigo explicar e uma vontade constante de voltar para lá.
Eu nunca entendi a frase 'quando você olha para o abismo, o abismo também olha para você' eu só fui entender, quando eu tive depressão. Então eu entendi que quando você olha para ela, ela olha para você também. Quanto mais você sente vontade de não existir, mais ela te puxa. Como se você estivesse olhando para um poço, bem fundo e escuro, e ele te chamasse: vem para cá, vem logo para cá...
E aí você vai se distanciando do mundo e indo cada vez mais em direção ao poço. Você desce, desce, desce, desce... E quando enfim olha para cima, parece que você já desceu demais para conseguir subir. Você acredita, enganada pelo poço, que quando chegar ao final dele, você finalmente alcançará a paz que procura, então finalmente descansará. Foi só então que eu entendi a frase 'quando você olha para o abismo, ele olha para você de volta"