Mais um dia, sem notícias

1595 Words
- O notebook está aberto, ela estava escrevendo... - A Mãe contou para a tia de Teresa. - Ela sempre estava escrevendo. - A tia olhou para o aparelho e para as roupas no chão que, curiosamente, a mãe não havia guardado. - Posso? - Disse apontando para as roupas no chão. - Não... E se tiver sido um crime? - Você... - A tia respirou fundo - Sabe bem que não se trata disso. - Ela vai aparecer. - E se não? - Segurou o braço da mulher, completamente iludida na sua expectativa. - Ela não deixaria a gata com fome. - Tudo bem... Você me chamou. O que eu posso fazer enquanto não temos notícia? - Leia comigo. Leia em voz alta. A tia pegou um dos vários papéis que estavam sobre a escrivaninha, na pilha dos não lidos. - É o que faremos até ela voltar, então... Texto 6: O sentido da existência, bibliotecas celestiais e um livro espesso Nesse lapso temporal em que eu me encontro, a civilização denominou 15 de Agosto. Deus, como eu odeio Agostos. É um mês sem graça, que parece que nada de incrível vai realmente acontecer. E quando acontece alguma coisa, é uma tragédia. Como a perda do meu tio/avô em 2 de Agosto de 2017. Então nesse tempo, eu só espero, com medo, duas coisas: ou que a vida seja terrivelmente sem graça e entediante, ou que alguma tragédia aconteça. Torço para que o mês acabe logo, e que venha a primavera. Setembro. Nada há de mudar assim do dia para a noite, no transpassar de uma data para a outra. Só que transformamos o tempo, essa coisa que não existe, em algo feito de pedaços e nomes. Essa ânsia de nomear tudo para que faça algum sentido. Sentido. Eu venho procurando por isso, por essa palavra e pelo que ela significa. O que ela significa afinal? sentido. adjetivo 1. que se ofende ou melindra facilmente; suscetível, sensível. 2. que causa pesar; plangente, lamentoso. “canto s.” Foi o que eu encontrei no dicionário. Certamente sobre alguém que está sensível a algum acontecimento. Veja bem, não é desse sentido que eu estou falando. Tem mais a ver com o significado das coisas, a razão delas, a razão de ser. Por que somos como somos? Por que fazemos o que fazemos? Só que, eu provavelmente tenha a ver com o sentido que está descrito no dicionário mesmo, porque sou demasiadamente suscetível, sensível e pesarosa. Cômico, paradoxal e até um tanto dilacerante. Eu descobri assim numa tarde de Agosto, que o significado da palavra sentido se parece tanto comigo. Poderia ser o próprio significado do meu nome (que na verdade significa morena). Então seria o significado do que eu sou, da minha alma, que aí já não cabe no dicionário. Imagine um dicionário com o significado das almas de todos os seres vivos. Deve ser esse o famoso livro da vida que Deus guarda consigo na sala do trono. Renderia uma boa história. Uma menina que acorda de repente em uma biblioteca luminosa, não compreende o que aconteceu enquanto dormia. Talvez tenha morrido. Eu, ao menos, sempre desejei morrer dormindo. Então ela se depara com uma porção enorme de livros e descobre que um deles tem algo fantástico, jamais visto na terra. O significado das almas das pessoas. De todos os seres humanos viventes e os que já se foram. Depressa, com muita curiosidade, ela folheia aquele livro gigantesco que não parece real, devido a espessura nunca antes vista. “Seria ótimo um Crtl + F para que eu pudesse pesquisar o meu nome rapidamente” pensa a garota consigo mesma. Folheia e percebe que sequer está em ordem alfabética. Isso vai demorar… pensa enquanto rói as unhas, com receio de que alguém chegue de supetão. Deus ou um anjo bibliotecário. Só que a curiosidade de saber qual o real significado da sua alma é tão inquietante, ainda mais tratando-se de uma menina com diagnóstico de depressão e buscando um sentido para viver. “Está nesse livro, eu posso sentir… Quando eu encontrar o significado da minha alma, todo esse vazio, inércia e tristeza vão passar. Eu serei completamente renovada por essa descoberta” Folheia… folheia… folheia… Se cansa. Pensa que poderia haver ao menos um copo d’água ou um local para dormir e continuar a sua procura amanhã. Só que não havia nada além das prateleiras, das paredes brancas e do chão branco de porcelanato, que reluzia como uma pedra preciosa. “Com uma garrafa de café, eu juro que esqueceria esse sono e continuaria relutando até achar o meu nome nesse livro…” Acontece que a garota já havia passado por inúmeros nomes. Achou, inclusive, de alguns conhecidos, mas sua avidez por ser imediatamente sarada após encontrar o seu, não permitiu que ela demorasse a ler os significados dos outros. Não importava o sentido da vida daquela gente. Para ela, não importava o seu próprio sentido até então, quanto mais os dos outros. A garota acabou dormindo exausta, usando uma das folhas do grande livro como travesseiro. Acordou em seu quarto, e percebeu que não passava de um sonho extremamente real. Como ela gostaria de retornar aquela biblioteca, que parece localizar-se em alguma região celestial. Pensou na quantidade de nomes que viu, e como pouco se ateve aos significados daquelas almas todas. Se sentiu egoísta por isso. Seria interessante olhar para outras vidas, outros sentidos e, quem sabe neles, descobrir algo que lhe causasse qualquer emoção. Ao mesmo tempo, foi tomada por um sentimento novo: esperança. No sonho, ela estava disposta a não dormir (como fazia muito), para encontrar o significado da sua alma. Ela queria, desesperadamente, ser salva de si mesma. Ela beberia litros e litros de café se ali houvesse, até ritalina talvez… Recorreria ao que fosse. Moraria naquela biblioteca, faminta e incomodada com a luminosidade que lembrava um hospital, inteiramente branco. Se o sonho não tivesse acabado, contra a sua própria vontade, ela nunca desistiria de achar o significado da sua alma. Seja por pura curiosidade, seja pelo desejo de salvar-se daquela insuportável sensação de vazio e tristeza. Pensar em tudo que ela poderia fazer em prol desse objetivo, lhe fez comparar aquele livro espesso a sua própria vida. Com todos aqueles encontros de almas que ela folheou rapidamente. Algumas dando ligeira atenção, outras sendo só viradas abruptamente já que seu nome não constava no papel. Se ela não desistiu daquele livro, talvez não tivesse coragem de desistir de algo ainda mais espesso que um compilado de significados de almas: a sua própria vida. Essa esperança lhe encheu o peito de uma nova sensação, a de que se valia a pena buscar seu nome naquelas páginas imensas, valeria viver mais um dia. Depois outro. Então veria quais seriam os encontros. Esperaria que o mês de Agosto passasse sem uma tragédia, e a primavera lhe trouxesse novas esperanças… sejam elas quais fossem. Descobrir que ela vivia desesperadamente atrás do sentido da vida, e depois perceber que a palavra sentido, em muito tem a ver com sua própria personalidade, a fez sentir, por um momento, atrelada a essa palavra, como amigas íntimas que compartilham de suas enormes semelhanças. Eu tenho sim um jeito melancólico demais de existir, um jeito… sentido. Lamentoso e sensível. Pensou. Hoje, a minha mãe descreveu a minha natureza como vitimista. Ocupar esse lugar foi como receber uma facada no peito, mas receber facadas da minha mãe é algo que já estou habituada desde que adentrei o universo da linguagem e do simbólico. Eu queria dizer que não… eu tenho mais a ver com o significado da palavra sentido (aquilo que todos buscam). Essa sensibilidade, me proporcionou aquilo que tenho de mais precioso e admirável: a arte de brincar com as palavras como se elas fossem uma matéria nas mãos de um artesão. Ele molda pacientemente, cria, expõe ao sol para secar, remexe em seu material de trabalho com destreza. As palavras e a imaginação, são as minhas maiores companheiras, e eu me lembro perfeitamente do quanto me utilizei da segunda, durante a infância, para navegar em outros universos, distantes do que eu vivia. Talvez eu estivesse demasiadamente infeliz onde eu estava, ou fosse apenas criança sendo criança. Em qualquer uma dessas opções, a imaginação me transportava para longe. A criatividade tornava esses mundos mais ricos e interessantes, e as palavras… Ah, as palavras. Elas sempre me encontraram. Eu não sou vítima por sofrer, por chorar, por me sentir deslocada do universo, do planeta terra e da dinâmica da existência, nesse modus operandi capitalista, competitivo e destrutivo que eu nasci. Eu deixei de achar que ser deslocada fosse sinônimo de algo r**m, de uma vítima, de uma coitada… eu percebi que eu estou mais certa do que todas essas pessoas que ousam pensar isso de mim. Se elas estão muito bem adaptadas a essa realidade em que vivemos, eu tenho uma péssima notícia para lhes dar. A cada dia que passa eu percebo que não sou daqui, não pertenço a esse lugar e não tive escolha ao adentrar nele. Só que já estou. O que eu posso oferecer a esse mundo que eu desprezo, se não tenho outra alternativa a não ser esperar o dia que serei enfim liberta dele? Vou ajudar aos que sofrem, como eu. Como Jesus fazia também. Quando eu partir, vou deixar as minhas palavras, porque sei que elas dançam suaves e envolventes diante do olhar de quem as lê. Quando eu for embora, espero ter deixado ajuda, acolhimento, amor e a minha marca registrada: palavras.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD