Teresa Plath CID F60.3

671 Words
Teresa estava no seu último ano de formação do curso de Psicologia, havia decidido por essa graduação quando encontrou livros do Freud na biblioteca da universidade, enquanto ainda cursava sua primeira graduação em Humanidades. Uma graduação interdisciplinar, que lhe possibilitava conhecer diferentes aspectos da área de humanas para, só então, decidir qual curso faria no chamado "segundo ciclo" de sua graduação. Era um método diferente de graduação, porém muito enriquecedor, porque Teresa sempre amou Humanidades desde pequena. No Ensino Médio, suas matérias preferidas eram Filosofia e Sociologia. Não havia a menor dúvida de que ela estava no lugar certo. No entanto, sobre sua segunda graduação, oscilava entre Direito e Psicologia, no começo. Também teve contato com as artes nesse período, e se encantou com o teatro. Não diria que se encantou, Teresa sempre amou atuar, desde pequena, mas teve poucas oportunidades para explorar esse interesse. Pensou em largar tudo e ir para o Rio de Janeiro fazer o curso de Artes Cênicas no Tablado. Desistiu, não por medo de largar o curso, a família, ou o que quer que seja. Desistiu porque estava em um relacionamento há alguns anos, que iniciou quando ela ainda tinha 16. Com um rapaz que disse em alto e bom som que, não aceitaria nunca se relacionar com uma atriz e que ela teria que desistir daquele namoro se realmente fosse embora para perseguir seu desejo. Ela perdeu a sua virgindade com ele, e por ter crescido em família evangélica, sua mãe sempre lhe dizia que deveria f********o apenas depois do casamento. Teresa sempre teve forte ligação com sua mãe, em especial, com a opinião dela sobre absolutamente tudo que ela fizesse. Imaginar sua reprovação ao descobrir que ela não havia cumprido com esse preceito, a fazia sentir muito pavor. Portanto, encucou que deveria se casar com o rapaz, não importa o quanto lhe custasse. Nesse caso, esse relacionamento de 6 anos que teve duração dos seus 16 aos seus 22 anos, lhe custou muito mais do que a ida ao Rio de Janeiro para estudar Artes Cênicas, mas isso é assunto para outra hora, por ser demasiado extenso. Enquanto concluía seu último ano de graduação, conseguiu um estágio remunerado, em uma clínica para crianças com autismo e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Um trabalho que era desgastante, complexo e a fazia chegar exausta em casa todos os dias. m*l conseguia dar conta das atividades curriculares e, quase sempre, se sentia impotente diante dos comportamentos apresentados por essas crianças com quadros tão difíceis de serem tratados. Teresa já morava em uma cidade vizinha à sua cidade natal há alguns anos, por causa da universidade. Sempre dividiu apartamento com alguma amiga e lidava muito bem com isso. Só que, naquele ano, decidiu que gostaria de morar só pela primeira vez. Não totalmente só. Pensava em dividir seu espaço particular com uma gatinha, que ela nomearia Juma, em homenagem a sua personagem preferida da teledramaturgia brasileira. Pensar em morar finalmente sozinha, com total privacidade, sem pensar em mais ninguém além de si mesma, lhe trazia uma inexplicável paz. Parecia que, só assim, o seu tão desejado sossego chegaria. Ela poderia surtar sem ninguém ver, conversar sozinha, dar os seus gritos quando estivesse em crise depressiva ou agressiva. Poderia, quem sabe, quebrar seus objetos na parede com ódio, sem que ninguém olhasse e pensasse que ela era uma completa maluca. Teresa vislumbrava esse momento como a oportunidade de uma total liberdade de ser quem é. No entanto, o dinheiro que seus pais mandavam, pois ainda a sustentavam, e a remuneração do seu estágio, não eram suficientes para que ela arcasse com todas as despesas dessa mudança. Para além das questões financeiras, Teresa também havia recém recebido o seu diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline, portanto, para os que a amavam e sabiam da sua condição, morar sozinha representava um grande risco para a sua integridade física. Teresa nunca era a mesma Teresa, então não podiam confiar em deixa-la sozinha. Como era cansativo ser Teresa, ela pensava consigo. Quase sempre.
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