— Júlia.
— …
— JÚLIA.
Senti meu corpo ser sacudido como se estivesse no epicentro de um terremoto.
— Acorda, inferno — Caio resmungou, me arrastando da cama com a delicadeza de um trator.
Abri um olho. Só um. A luz do quarto parecia um holofote apontado direto na minha alma.
— Sai, Caio — gemi, me agarrando ao lençol como se fosse meu último resquício de dignidade humana. — Eu tô morrendo.
— Morre depois. Agora levanta. Escola. — Ele cruzou os braços. — Pessoas responsáveis assumem o próprio B.O.
— Então eu tô isenta — murmurei. — Não sou responsável.
Ele riu tão alto que doeu no meu cérebro.
— Levanta — ele repetiu, tirando o meu travesseiro. — Vai. Anda. Antes que eu carregue você.
Ele me empurrou até eu ficar sentada. Eu devo ter parecido um cadáver recém-reanimado.
— Toma — ele me entregou um comprimido. — Pra ressaca. Se entope de vodka e depois quer morrer. Pega água ali.
— Tô triste — murmurei. — Você não me protegeu de mim mesma.
— Eu não tenho capacidade de lutar contra a sua burrice — ele retrucou, rindo.
— Te odeio…
— Beijos. — E me empurrou pro banheiro. Literalmente. — Meia hora na cozinha. Nem um minuto a mais.
A porta se fechou nas minhas costas.
O banho foi um choque térmico. Gritei quando a água gelada bateu nas minhas costas.
— CAIOOOOOOO!
— O quê?! — ele gritou de volta.
— A água tá gelada!
— E vai continuar! — ele respondeu, rindo.
Escovei os dentes como uma zumbi, quase cochilando em pé. Amarrei o cabelo em um coque bagunçado. Coloquei a primeira roupa que encontrei no chão, uma blusa larga demais, uma calça que não combinava e tênis sujos. Pelo menos não estava pelada, o que já era vitória. Desci me arrastando até a cozinha.
Caio me olhou e começou a rir.
— Você parece um gremlin desidratado.
— Some — resmunguei, sentando e apoiando a cabeça na mesa.
— Come — ele disse, empurrando o prato. — Ou desmaia.
Comi como uma formiga cansada.
A caminhada até o ponto de ônibus foi uma tortura. Peguei o ônibus no automático e, claro, dormi. De boca aberta, provavelmente.
— Moça… moça… — o cobrador me cutucou. — Tua parada é a próxima.
— Valeu, João… — murmurei. Ele já me conhecia. Infelizmente.
Desci do ônibus tropeçando nos próprios pés.
Clara me viu e soltou uma gargalhada.
— Meu Deus, Júlia! Que alma te atropelou?!
— A minha própria — murmurei. — Vamos entrar antes que eu desmaie no pátio.
Passei a aula inteira dormindo. Literalmente. A professora só desistiu de tentar me acordar depois da terceira vez.
Mas o pior foi lembrar, no fim do período, que a última aula era educação física.
E eu, obviamente, não trouxe roupa.
— Você tá ferrada — Clara comentou.
— Ah, é? Nem percebi.
A escola me emprestou um uniforme que parecia de criança de sete anos. A camiseta batia quase no meu umbigo e o short era tão apertado que eu parecia um personagem deformado.
E ainda era dia de vôlei.
— Perfeito — ironizei para o universo.
Quando virei para a arquibancada, os meus olhos encontraram Matheus.
Ele estava sentado, observando. Sem tristeza. Sem sorriso. Só… neutro.
Clara arregalou os olhos.
— Não vai lá falar com o seu namorado?
— Nós terminamos — respondi, como se estivesse comentando sobre o clima.
— VOCÊS O QUÊ?!
O ginásio inteiro virou pra gente.
Tapei a boca dela com força.
— Cala a boca, i****a — sibilei.
Soltei devagar.
— Foi isso mesmo que você ouviu.
— Você só pode estar maluca — ela repetiu, e alto de novo.
Senti a minha paciência evaporar.
— Talvez eu esteja. Mas isso não é problema seu.
Saí pro outro lado da quadra. Olhei de novo para a arquibancada.
Vazia.
Matheus tinha ido embora.
Senti um aperto no peito. Não tristeza. Mais… incômodo.
Foi aí que senti a dor.
Uma bola explodiu no meu rosto com força suficiente para me derrubar no chão.
Clara estava rindo.
Óbvio.
Foi ela.
Engoli seco, levantei.
O mundo girou.
Mas eu joguei.
E joguei bem.
Acertei Clara pelo menos umas quatro vezes.
E ganhei a partida.
Quando o apito final soou, olhei para ela com a expressão mais vitoriosa que consegui produzir em modo ressaca.
Fui para o vestiário me trocar, de cabeça erguida e alma capengando.
O teatro foi pior.
O professor olhou pra mim como se eu fosse um insulto à arte.
— Júlia, onde está a sua evolução? Onde está sua presença de palco?
— No meu cu — respondi sem pensar.
Silêncio mortal.
— Vá embora. Descanse. Hoje não é seu dia — ele decretou.
Mas eu precisava ir pro estágio. E fui.
Fiz o mínimo aceitável.
As horas passaram arrastando como se alguém tivesse puxado o mundo pro modo lento.
Quando finalmente acabou, praticamente corri pra casa.
Tomei banho.
Comi qualquer sobra da geladeira.
E eu m*l encostei a cabeça no travesseiro antes de apagar.
Acordei um pouco menos destruída do que ontem, mas ainda destruída o suficiente pra querer ignorar o mundo inteiro. Peguei o celular para ver as horas.
08:00.
Caralho.
Saltei da cama como se tivesse levado um choque. Não havia tempo pra drama. Joguei água no rosto, passei desodorante, coloquei a primeira roupa que encontrei, catei uma fruta e saí correndo porta afora enquanto mordia a maçã como uma fugitiva.
Cheguei na parada justo a tempo de ver o ônibus indo embora.
— Vai tomar no c* — falei alto, sem nem tentar ser educada.
Sentei no banco irritada e peguei o celular.
Eu: Perdi o ônibus.
Caio (visualizado na hora): Sua cara isso.
Revirei os olhos.
Eu: Manda dinheiro do Uber.
Caio: E o seu dinheiro?
Eu: Gastei tudo na noite das garotas.
Caio: Problema seu. Espera o próximo ônibus.
Eu: Eu te odeio.
Bloqueei a tela com força.
Meia hora depois, um carro parou na minha frente. Vidro preto. Suspense.
O vidro desceu.
Levi.
Ele levantou os óculos escuros devagar, daquele jeito blasé que só ele consegue fazer parecer natural.
— Vamos. — disse apenas.
Entrei no carro como uma alma penada.
— Eu podia ter pego um Uber — murmurei.
— Com qual dinheiro? — Levi rebateu.
— Do meu irmão.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Claro.
O resto da viagem foi silencioso. Nem confortável, nem desconfortável. Um meio-termo estranho.
Desci do carro sem agradecer. Eu não tinha energia nem pra cordialidade.
Assim que entrei na escola, senti os olhares. Cochichos. Risadinhas abafadas. Aquele clima de “sabemos algo sobre você”.
Meu estômago virou.
Corri pro banheiro. Olhei minha roupa, meu rosto, meu cabelo… tava tudo normal ou pelo menos normal o suficiente pra não justificar aquilo.
Quando voltei pro corredor e entrei na sala, levei outro choque.
Clara estava sentada com outra garota. Rindo. Conversando. Como se nunca tivesse sido minha amiga.
Passei direto e fui para o fundo. Sentei onde deu. Me sentia deslocada dentro da minha própria vida.
O professor entrou na sala com uma prancheta na mão:
— Hoje é dia de prova.
A pancada veio na alma.
A prova.
Eu tinha esquecido completamente.
Quando recebi a folha, parecia que estava escrita em albanês. Tentei me concentrar. Não deu. Meus olhos ardiam. Meu cérebro não funcionava.
Era oficial: eu ia me dar muito m*l.
Quando o sinal tocou, saí da sala derrotada. Eu só queria ir para o teatro e tentar salvar o resto do dia.
Mas Matheus apareceu no corredor e me puxou pro lado tão rápido que quase infartei.
— Que susto, c*****o! — coloquei a mão no peito.
— Desculpa — ele disse, aflito. — Mas eu precisava falar com você.
Suspirei.
— Matheus… não tem chance da gente voltar. Eu não tô brincando com isso.
Ele balançou a cabeça.
— Não é isso. Juro. Não que eu não quisesse, mas… não é sobre nós.
— Então fala logo — pedi, já cansada de mistério.
Ele respirou fundo.
— Clara não é sua amiga.
Revirei os olhos, impaciente.
— Se for sobre a bolada de ontem—
— Não é. — Ele me cortou. — Ninguém te disse nada?
Neguei com a cabeça.
O maxilar dele travou.
— Traíras.
Um frio subiu pela minha espinha.
— Matheus, fala logo. — minha voz saiu pequena. — Tô ficando nervosa.
— Clara e Nicole estão espalhando que você me traiu. Que o fim do namoro foi culpa sua. E que você tá arrependida e eu não te quero mais.
Minha mente parou.
Depois ferveu.
— Filhas da put*— sibilei, sentindo o sangue ferver na cabeça.
— Eu nunca achei que ela faria isso — ele disse.
— Deixa comigo. — respondi seca. — Obrigada por me avisar.
Ele me olhou com aquele jeito triste que sempre me desmontou.
— Eu ainda me preocupo com você, Júlia.
Assenti sem responder nada. Eu não tinha espaço emocional pra isso agora.
Fui embora. O teatro foi melhor que ontem, mas ainda r**m. No estágio, fiz o mínimo possível. Era o máximo que eu podia oferecer naquele estado mental.
Quando cheguei em casa, finalmente pude respirar. Tomei banho, comi qualquer coisa da geladeira e me joguei na cama com o corpo implorando por descanso. Eu só queria desligar.
O celular começou a vibrar.
Número desconhecido. Ótimo. Mais uma chance de me estressar.
Atendi mesmo assim.
— Alô?
Silêncio curto, depois uma voz grave e fácil de reconhecer:
— Então é assim que você atende? Sem charme nenhum?
Meu coração deu um pulo i****a.
— …Zayan?
Ele riu, como se estivesse satisfeito por eu lembrar imediatamente.
— Sabia que você não ia esquecer. Só tava testando.
Revirei os olhos, mesmo sabendo que ele não podia ver.
— O que você quer?
— Saber se você ainda tá viva depois da ressaca. — ele respondeu com deboche suave.
Bufei.
— Tô, infelizmente.
— Bom saber. — Ele pareceu sorrir. — Pensei em te mandar mensagem, mas achei que você ignoraria. Então liguei.
— Seria mais provável eu ignorar a ligação, né, gênio?
— Mas você atendeu. — ele rebateu. — Então funcionou.
Tive que morder a boca pra não rir.
— Fala logo, Zayan. Eu tô caindo de sono.
— Tá. Direto ao ponto. — Ele ajeitou a voz, ficando mais íntimo, mais baixa. — Amanhã, seis da manhã, Academia Iron Pulse.
Vem treinar comigo.
— Seis da manhã? Você tá doente.
— Eu acordo às cinco. Tô te dando desconto.
Soltei uma risada cansada.
— Eu não malho.
— Você respira? — ele perguntou.
— Que?
— Então você malha. É um começo.
— Você é insuportável.
— Eu sei. Mas sou persistente. — Ele fez uma pausa. — E eu quero te ver de novo.
Senti um arrepio quente correr pelo meu pescoço. Ótimo. Exatamente o que eu não precisava.
— Vou pensar. E é só isso que posso prometer.
— Já é mais do que eu esperava. — ele disse, com sinceridade inesperada. — Se decidir aparecer, eu te ensino a não morrer nos primeiros cinco minutos.
— Que animador.
— Eu sou realista.
Ficamos um instante em silêncio, mas não era desconfortável. Só… leve.
— Vai dormir, pequena confusão ambulante. — ele disse.
— Pequena? Você tá me chamando de baixa?
— Tô te chamando de problema em tamanho compacto.
Ri baixinho, cansada demais pra manter pose.
— Boa noite, Zayan.
— Boa noite, Júlia. E não some de novo.
— Não prometo nada.
— Eu sei. — ele disse num tom quase divertido. — Por isso que é interessante.
Desliguei antes que a minha mente resolvesse pensar demais. Salvei o número de Zayan.
E dormi no minuto seguinte.