CAPÍTULO 4

2070 Words
Acordei com aquela sensação boba de animação, coisa que eu não sentia fazia um tempo. Era sábado e eu precisava distrair a cabeça antes que ela começasse a me sabotar outra vez. Clara vinha pra cá à noite e, por alguma razão, eu queria que tudo fosse leve, divertido… normal. Talvez eu estivesse tentando compensar a confusão emocional da semana, ou talvez eu só quisesse fingir, por algumas horas, que a minha vida não estava um caos silencioso. Tomei banho, amarrei o cabelo num coque bagunçado e fui para o shopping. Eu estava decidida a me dar pequenas recompensas, nada caro, porque a minha conta bancária não permite extravagâncias, mas o suficiente para eu me sentir um pouco mais feminina, ou cuidada, ou viva… sei lá. Entrei na primeira loja de cosméticos e fiquei rodeando as prateleiras como quem tenta parecer decidida, mas não tem a menor ideia do que realmente quer. Peguei máscara facial, esfoliante, hidratante cheiroso, um gloss novo e um esmalte vinho fechado que me lembrou automaticamente a Clara, não sei bem por quê, talvez porque ela sempre pareça saída de um filme, com aquele jeitinho retraído que engana. Depois fui ao mercado comprar o combo clássico de noite de garotas: chocolate, Doritos, Coca-Cola, algumas frutas para fingir saúde e ingredientes para uma tábua improvisada que ficaria bonita mesmo sendo barata. Voltei pra casa e arrumei tudo. Caio passou por mim na cozinha e fez aquele olhar de irmão mais velho que tenta disfarçar preocupação com provocação. — Então a princesa vai ter noite de garotas? — ele perguntou abrindo a geladeira. — Uau, parabéns por saber interpretar linguagem não verbal — respondi apontando para as guloseimas sobre o balcão. Ele jogou uma bolacha no ar pra tentar pegar com a boca e errou miseravelmente. — Adultíssimo — provoquei. Ele riu e sumiu para o quarto dele. O clima estava leve e isso era raro. À noite, quando Clara chegou, parecia uma versão tímida dela mesma. Sempre que Caio aparecia, ela virava uma criatura silenciosa, como se ele fosse um professor universitário avaliando cada movimento dela. — Oi, Júlia… — disse baixinho, entrando devagar. — Relaxa, mulher. Ele não morde — falei fechando a porta. — Mas ele olha… — ela sussurrou, como se fosse segredo. Revirei os olhos. — Ele olha porque é fofoqueiro, não porque você é intimidante. Ela riu de um jeito curto, ainda contida, mas aos poucos foi soltando os ombros. Levei-a direto para o meu quarto, onde espalhei as guloseimas, produtos e cobertas como se estivéssemos nos preparando pra hibernar. — Meu Deus, Júlia, você comprou o mercado inteiro — Clara comentou. — Estratégico. Se dermos errado emocionalmente hoje, pelo menos teremos açúcar. Colocamos o filme, um romance melodramático daqueles cheios de coincidências absurdas, e começamos a skincare. Clara era do tipo que chora fácil; seus olhos marejaram já na segunda declaração clichê do protagonista. — Eu não acredito que você está chorando disso — falei rindo. — Você não tem coração, só pode — ela respondeu fungando. — Coração eu tenho. Só é… seletivo. Ela tacou uma almofada em mim. Depois do filme, sentei atrás dela na cama para fazer tranças no cabelo dela. Quando mexo em cabelo alheio, minha mente fica mais quieta, mais racional. Talvez por isso eu tenha falado demais. — Clara… posso te contar uma coisa? — perguntei. Ela endireitou a postura, atenta. — Claro que pode. Suspirei. — É sobre o Matheus. Ela virou metade do rosto, curiosa. — O que tem ele? — Ele é ótimo. Tipo… realmente ótimo. O problema sou eu. Eu não sinto por ele o que alguém deveria sentir pelo próprio namorado. E ele merece alguém que seja recíproca. Clara arregalou os olhos como se eu tivesse confessado um crime. — Júlia, você enlouqueceu? O Matheus é perfeito pra você! Revirei os olhos. — Perfeito pra qualquer pessoa. Menos pra mim. — Você vai jogar fora um cara desses? — ela perguntou indignada. — Menina, pelo amor de Deus. A culpa veio como um soco no estômago. Eu já estava acostumada, convivia com ela como quem convive com uma dor de cabeça leve, mas persistente. — É que… eu não consigo forçar — admiti. — Já tentei. Clara balançou a cabeça, inconformada, mas segurou a minha mão. — Só pensa bem. Você pode se arrepender. O resto da noite foi leve de novo. Conversamos sobre nada e tudo ao mesmo tempo, fizemos unhas, tiramos fotos idiotas, rimos até doer. Em algum momento, dormimos deitadas na cama, a luz ainda acesa e a televisão no mudo. De manhã, Clara tomou café comigo e saiu às pressas para um aniversário. Assim que fiquei sozinha, a lembrança da conversa voltou como uma onda fria. Enquanto eu lavava a louça, parecia que cada prato que eu ensaboava empurrava o meu cérebro para a mesma conclusão inevitável. Quando terminei, peguei o celular. Tantas mensagens dele. Tantas que eu ignorei na semana inteira. Meu estômago embrulhou. Respirei fundo e digitei: "Bom dia! Precisamos conversar sério." A resposta veio rápido demais: "Claro, baby. Mas hoje eu estou de voluntário em uma casa de repouso. Consegue passar lá em casa hoje à noite? Precisa que eu te busque?" Meu coração apertou. "Não precisa, estarei lá às 19h." Ele respondeu com um emoji apaixonado. A culpa piscou dentro de mim como uma luz fluorescente prestes a queimar. O resto do dia se arrastou, pesado, devagar. Quando deu a hora, saí antes de Caio chegar para não ter que explicar nada, ainda. Respirei fundo diante da porta de Matheus. Toquei a campainha. E esperei. Matheus abriu a porta rápido demais, como se estivesse esperando do outro lado. Estava arrumado, cheiroso, com aquele cuidado impecável que sempre me deixava ainda mais desconfortável, como se eu fosse um problema em embalagem bonita. Ele sorria. E segurava um presente. Ótimo. Mais culpa pra a minha coleção. — Oi, meu amor — ele disse baixinho, inclinando-se para me dar um beijo carinhoso. Deixei. Mas não senti nada além de aperto e um vazio irritante que eu fingia que não enxergava. — Entra — ele pediu, animado. Sentei no sofá. Ele se sentou do meu lado, colado, quase como se temesse que eu evaporasse se houvesse algum centímetro de distância entre nós. Coloquei um sorriso falso no rosto. Eu sabia que estava horrível, mas era o máximo que conseguia. — Você disse que era sério… — ele comentou, ajeitando-se, preocupado. Assenti. Minha garganta fechou. As minhas mãos estavam suando. — É — respondi. Silêncio. Ele esperou. Eu… não consegui. — Jú? — ele chamou com a voz mais gentil do mundo, e aquilo só piorou tudo. — Pode falar. Eu tô aqui. Respirei fundo. — Matheus… eu… — engoli seco. — Eu gosto muito de você. De verdade. Você foi uma das melhores pessoas que já passaram na minha vida. Ele sorriu com leveza, achando que a conversa ia pra outro lugar. Meu estômago virou. — Mas eu acho que não sinto… o suficiente. O sorriso dele morreu devagar, como se alguém apagasse uma luz dentro dele. — Como assim? — perguntou baixinho. — Eu tentei. Juro que tentei. Mas… não consigo corresponder como você merece. Ele não disse nada. Seus olhos marejaram na hora. Eu continuei, porque precisava. — Você é incrível, Matheus. Incrível mesmo. Só que… eu não estou apaixonada. E isso não é justo com você. Você merece alguém que seja recíproca. Ele engoliu as lágrimas, mas uma escapou pelo canto. — Eu… — ele passou a mão no rosto. — Eu meio que já imaginava. Só… torcia pra ser coisa da minha cabeça. Fiquei me convencendo de que você estava ocupada, cansada… que era só fase. A sensação de querer vomitar subiu até a minha garganta. — Me desculpa — murmurei. — Você não tem que pedir desculpa — ele disse rápido, limpando o rosto. — É melhor ser sincera do que continuar comigo por pena. Eu… agradeço por você ter vindo falar. Ficamos em silêncio. Um silêncio pesado, mas honesto. — A gente ainda pode ser amigo? — ele perguntou com um meio sorriso vulnerável que quebrou o meu coração. Assenti. Ele se aproximou e me abraçou. Foi um abraço longo, sincero… quase doído. Quando nos afastamos, ele respirou fundo. — Quer que eu te leve pra casa? — Prefiro caminhar — respondi. — Preciso… organizar a cabeça. Ele respeitou. — Me manda mensagem quando chegar. Só pra eu saber que você chegou bem, tá? Assenti e saí. O vento da praia estava quente, mas agradável. Caminhei sem rumo por alguns minutos, tentando fazer o meu cérebro parar de repetir tudo o que eu tinha acabado de dizer. A brisa noturna fazia o ar cheirar a sal e calmaria. Mas a calmaria durou pouco. Ouvi música. Uma fogueira. Risadas. E uma roda de pessoas dançando à beira-mar. Um luau. E, como se o universo tivesse roteiro próprio, começou a tocar "Sweater Weather", do The Neighbourhood, minha música favorita desde a adolescência. De repente, eu estava lá, no meio, bebendo alguma coisa que alguém me ofereceu sem eu perguntar, dançando como se o meu corpo estivesse em modo automático. Eu precisava daquilo. Precisava desligar. Precisava sumir por alguns minutos de mim mesma. Foi numa dessas voltas desengonçadas que virei a bebida sem querer em uma garota que estava atrás de mim. Ela se virou na hora. — Qual o seu problema, princesa? — ela disparou. — Não sabe segurar um copo? — Foi sem querer — respondi, tentando manter a calma. — Sem querer é o c*****o. Você tropeça sempre que vê gente mais bonita que você? Arregalei os olhos. — Amiga… tá exagerando. Ela deu um passo à frente, pronta pra continuar a briga, mas alguém segurou a minha cintura por trás. Um braço firme. Quente. Seguro. — Ela disse que foi sem querer — uma voz grave afirmou ao meu lado. — E você vai aceitar. A garota bufou. — Quem é você, bonitão, o segurança dela? — Se precisar, sou — ele respondeu com um sorriso provocador. Ela revirou os olhos, deu meia volta e saiu pisando firme na areia. Eu virei para olhar quem tinha me defendido. Bronzeado. Corpo de quem surfa ou treina. Olhos azuis impossíveis. Estilo badboy sem esforço. — Obrigada, seja lá quem você for — falei, meio rindo. Ele sorriu. — Me chamo Zayan. E você é… — Júlia — respondi. — Nome bonito. Combina com você. Revirei os olhos. — Deve dizer isso pra todas. — Só para as mais bonitas. Não pude evitar a risada. Dançamos juntos. Ele sabia conduzir. Sabia tocar. Sabia olhar. Quando percebi, estávamos nos beijando. Um beijo quente, firme, seguro. Diferente de tudo que eu já tinha experimentado. E eu deixei. Porque eu precisava. Porque eu queria. Até que vi o céu clareando atrás do mar. Merda. — Eu… preciso ir! — falei me afastando. — Algum problema? — ele perguntou. — Meu irmão. Se ele me ver chegando agora, eu morro. — A gente pode se ver de novo? — ele insistiu. Respirei fundo. Peguei um guardanapo no bar. Escrevi o meu número. — Vê se me liga. E saí correndo. Quando entrei em casa, achei que Caio estaria dormindo. Errado. Ele estava sentado na parte superior do sofá, me encarando como se fosse meu pai. — Onde você estava? — ele perguntou sério. — Eu… eu… eu… — Onde você estava, Júlia? — repetiu mais firme. — Estava com a Clara — menti. — Não foi isso que ela me disse. — Traíra — rosnei baixinho. Ele suspirou. — Não sei por que você mente pra mim se sabe que eu só vou te dar um sermão, no máximo. Derrotada, joguei a chave em cima da mesa. — Eu… terminei com o Matheus. E… precisei arejar a cabeça. — O álcool faz o efeito contrário — Caio comentou. Arregalei os olhos e comecei a me cheirar. — Como você…? Ele ergueu uma sobrancelha. — Júlia. Eu convivo com você desde que você nasceu. — Foi só isso — respondi rápido demais. — Não fiz merda. Caio me analisou, desconfiado, mas deixou passar. — Vai tomar banho. Você tá fedendo. — Você fede todos os dias e eu não falo nada — respondi, já correndo. Uma almofada passou voando na minha direção. E eu sorri. Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu me sentia viva.
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