Acordo com a sensação incômoda de que tem algo diferente no ar. Leva uns três segundos até minha memória me socar no peito: eu dormi no colo do Caio. No colo. Do meu irmão. Como se eu tivesse oito anos outra vez e o mundo inteiro pudesse ser resolvido com um abraço apertado.
Viro o rosto no travesseiro e solto um gemido abafado. Meu corpo ainda está pesado e a cama está tão absurdamente confortável que a ideia de levantar para ir à aula parece uma ofensa direta à minha dignidade humana. Espio o horário no celular. 6h52.
Não. Só… não.
Quero distância de corredores lotados, trabalhos atrasados e pessoas falando sobre provas como se fosse a coisa mais importante do universo. Viro para o outro lado, puxo o cobertor para cima do rosto e deixo a preguiça me vencer sem nenhuma resistência heroica.
Durmo de novo antes de conseguir terminar a frase “só mais cinco minutos”.
Quando acordo pela segunda vez, a luz do sol já invadiu o quarto sem pedir licença. As cortinas deixam filetes dourados atravessarem o tecido e a minha visão leva alguns segundos para se ajustar. Pego o celular: 10h11.
Caramba.
Alongando o braço preguiçosamente, levanto devagar, como se o meu corpo tivesse voltado de uma batalha épica. Caminho até o banheiro arrastando os pés, o piso frio beijando as minhas solas descalças. Tomo um banho rápido, mais para acordar do que para qualquer outra coisa. Molho o rosto, hidrato a pele com pressa e já começo a me sentir gente.
Abro o armário e puxo um biquíni preto simples, um dos poucos que realmente gosto. Visto também um short jeans gasto, coloco um boné azul e enfio protetor solar e uma toalha na bolsa. O corpo ainda está relaxado demais para lidar com o mundo. E, sinceramente? Eu preciso de sol. Preciso do mar. Preciso do tipo de silêncio que só existe quando o vento salgado bagunça o seu cabelo.
Na cozinha, preparo uma torrada com queijo e como em pé mesmo, apoiada no balcão, ouvindo o barulho preguiçoso do ventilador. Depois disso, pego os meus fones de ouvido, coloco a bolsa no ombro e desço rumo à praia como alguém que está fugindo de si mesma, mas de um jeito saudável, por incrível que pareça.
O cheiro do mar me abraça antes mesmo dos meus pés tocarem na areia. A luz está forte, mas não agressiva. Estendo a minha esteira em um espaço vazio, deixo a minha bolsa ao lado e passo bronzeador, o corpo inteiro aquecendo sob a carícia do sol. Coloco os fones, escolho Arctic Monkeys, porque existe algo reconfortante na voz arrastada de Alex Turner, e fecho os olhos.
É impressionante como o tempo desacelera aqui. Como se a vida inteira estivesse respirando junto comigo.
Pela primeira vez em dias, sinto paz. De verdade. Uma pausa honesta, sem pensamentos me puxando pelos tornozelos.
Depois de um tempo que não sei medir (pode ter sido dez minutos ou uma hora), levanto, amarro o boné com força para não voar e vou em direção ao mar. A água está fria o suficiente para me acordar de novo, mas não gelada demais. Caminho até ela bater na cintura e mergulho de uma vez, deixando o mundo inteiro sumir por alguns segundos.
Quando volto à superfície, sinto algo parecido com alívio. Como se eu tivesse tirado um peso que nem sabia que carregava.
Fico ali um pouco, deixando as ondas brincarem comigo, e então retorno ao apartamento com o corpo leve e o cabelo ensopado. Subo as escadas devagar, sentindo a areia escorregar dos meus pés. Assim que entro em casa, jogo a bolsa no chão e vou direto para o banheiro.
Desta vez, o banho é caprichado. Shampoo, condicionador, máscara, o ritual completo. Deixo a água escorrer pelos ombros enquanto canto baixinho, ainda com o som do mar pulsando na cabeça. Lavo o cabelo com paciência, mas, quando termino, não tenho força moral nenhuma para secar. Apenas enrolo na toalha e deixo o destino agir.
Na cozinha, preparo um risoto de frango com legumes, um dos poucos pratos que sei fazer sem destruir completamente a panela. Coloco queijo por cima, sento à mesa e como devagar, pensando no teatro, no ensaio de hoje, no quanto aquele palco é a única coisa que não perco nem se o mundo desabar.
E como se fosse um sinal, o horário já está perto do início do ensaio.
Tomo um gole de água, calço os meus tênis e sigo para o teatro sem pressa, mas com aquela energia que aparece sempre que vou pra lá. Assim que entro, o professor de direção me olha como se estivesse vendo uma auréola brilhando atrás de mim.
– Olha só quem chegou iluminada – ele comenta, sorrindo. – Dormiu bem ou encontrou Deus?
– Talvez os dois – respondo, pendurando a minha mochila e subindo para o palco.
Os colegas sorriem, comentam algo sobre eu estar “radiante”, mas não faço esforço para entender. Só deixo que a energia do lugar me absorva.
Quando a encenação começa, o texto sai de mim como se tivesse nascido ali. Minha voz está firme, meu corpo responde ao personagem com naturalidade, meus movimentos fluem sem esforço. O professor até interrompe em certo momento, não para corrigir, mas para elogiar.
– É isso, Júlia. Exatamente isso. Guarda essa sensação. Você está entregando o que o papel exige.
E eu sinto. Sinto de verdade. Como se estivesse exatamente onde deveria estar.
O ensaio termina com palmas espontâneas, e eu saio leve, como se o meu peito tivesse expandido.
Depois sigo para o estágio. O ambiente é tranquilo, o movimento está baixo e o dia passa com uma facilidade surpreendente. Faço o que precisa ser feito, converso com duas colegas e até tomo um café gelado oferecido pela recepcionista.
Quando o expediente termina, decido passar no quiosque do Caio. Já sinto o cheiro de fritura e sal antes mesmo de avistar a placa torta no alto.
Aproximo-me e vejo Caio sorrindo para uma chamada de vídeo. Assim que chego perto, reconheço as vozes animadas.
– Mãe! Pai! – digo, já largando a mochila em cima do balcão. – Que horas são aí?
– Mais tarde do que deveria, se dependesse do seu pai – minha mãe responde, ajeitando o chapéu enquanto mostra ao celular uma foto de um cenário cheio de verde e céu aberto. – Mas estamos ótimos! A África é maravilhosa, Júlia. Vocês dois precisam vir conhecer isso aqui.
– Pensa num povo simpático – meu pai completa. – E num calor que faz você se arrepender de todas as roupas pretas que já comprou na vida.
– A gente tá planejando – Caio diz, embora eu saiba que planejar, no caso dele, significa “não faço ideia de quando, mas quero parecer empolgado para vocês ficarem felizes”.
– Vocês precisam vir – minha mãe insiste. – Estou falando sério. Isso aqui muda a gente.
– Muda o quê? – pergunto, rindo.
– Tudo – ela responde. – A forma de ver o mundo, a forma de ver as pessoas, a forma de ver vocês mesmos. É impossível voltar igual.
Sorrio sem perceber. Talvez eu precise disso um dia.
Conversamos mais alguns minutos. Eles mostram um mercado local, um restaurante ao ar livre, um animal que meu pai descreve como “uma mistura de cachorro, ovelha e bicho preguiça”, e então se despedem com a promessa de ligar novamente à noite.
– Eles parecem bem – digo.
– Eles estão vivendo a melhor fase da vida – Caio responde, preparando um suco enquanto eu começo a arrumar algumas mesas. – Merecido até demais.
O movimento do quiosque é moderado, e eu ajudo Caio por um tempo. Passo cartão, entrego pedidos, limpo mesas. O vento está bom e a noite começa a ganhar um brilho dourado.
É quando Levi aparece.
Desce a areia com passos tranquilos, como sempre. A camiseta branca contrasta com a pele morena, o cabelo bagunçado pelo vento. E, por algum motivo que eu não compreendo muito bem, hoje ele não me irrita.
Talvez seja o sol. Ou o mar. Ou o fato de eu ainda estar num raro estado de paz.
– Boa noite – ele cumprimenta, simples.
– Boa – respondo, sem drama, sem sobrancelha levantada. Só boa mesmo.
Ele estranha. É tão visível que Caio chega a sorrir.
E é assim que a noite vai seguindo, tranquila, até Caio soltar a frase que muda o rumo do resto da noite:
– Levi, jantar lá em casa hoje?
E claro que Levi aceita.
Sempre aceita.
E lá vamos nós.
Subimos para casa quase juntos, eu um pouco na frente, Caio logo atrás carregando algumas coisas do quiosque, e Levi caminhando com aquela tranquilidade irritante que parece sempre calculada, mesmo quando não é. Ele entra como se fosse parte da mobília, o que, na prática, já virou verdade.
Assim que Caio joga as chaves na mesinha da sala, Levi já vai para a cozinha como quem está entrando no próprio templo.
– O que vai ser hoje, chef? – Caio pergunta, batendo a porta da geladeira com o quadril.
Levi prende o cabelo num elástico no pulso, gesto que não combina com ele e, por isso mesmo, me pega desprevenida.
– Risotto al tartufo com parmesão – responde com naturalidade, como se estivesse dizendo “vou fazer um ovo”.
Eu e Caio nos entreolhamos. O queixo do meu irmão quase cai.
– Tu vai fazer risoto de trufa? – Caio repete, como se tivesse ouvido errado.
– Se você tiver trufa, eu faço. Se não tiver… eu improviso. – Ele abre a geladeira, examina o interior com uma seriedade de cirurgião. – Ah. Vai ser improviso mesmo.
– A gente tem queijo? – pergunto, aproximando-me da bancada.
– Temos – ele responde sem olhar, já separando panela, cebola, alho, manteiga, arroz arbóreo. – E você vai ralar.
Me entrega o ralador como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Eu? – pergunto.
– Você – ele confirma, com aquela calma que me provoca mais do que deveria.
Obedeço, porque não existe quem consiga dizer “não” a Levi quando ele entra nesse modo profissional. Após lavar as mãos, ele corta a cebola com precisão absurda, movimentos rápidos, eficientes, sem desperdiçar um milímetro. O som da faca contra a tábua é quase terapêutico.
Caio abre uma cerveja e se encosta no balcão para observar.
– Impressionante – ele comenta. – Nem parece o mesmo cara que come miojo às três da manhã.
Levi dá uma risada curta.
– O miojo é para emergências. Isso aqui é… – ele pausa, pegando uma frigideira. – Isso aqui é arte.
Reviro os olhos.
– Humildade mandou lembranças.
– Não é questão de humildade – Levi responde. – É questão de aceitar fatos.
Ele realmente disse isso. Em voz alta. Com total seriedade.
E eu quase gargalho.
A cozinha inteira se enche do cheiro da cebola refogada, da manteiga derretendo devagar, daquele perfume suave que precede o vinho branco evaporando na panela. Levi mexe o arroz com dedicação, punho firme, movimentos circulares.
A elegância dele é absurda. Não é afetada, nem performática. É só… natural. Invisível para ele mesmo. Gritante para mim.
– Você faz isso parecer fácil – comento.
– Porque é – ele responde, calmamente.
– Péssimo amigo – digo, olhando para Caio. – Tu só chama ele pra jantar quando quer comida boa.
Caio levanta as mãos, fingindo inocência.
– Eu sou um homem simples. Tenho prioridades. Uma delas é não comer macarrão sem sal.
Levi ergue uma sobrancelha, mas continua mexendo o risoto.
– E ele ainda tem coragem de se gabar – caço o meu irmão.
– Óbvio que tenho! – Caio ri. – Eu tenho o melhor amigo cozinheiro gourmet do planeta.
– Não sou gourmet – Levi rebate.
– É sim – eu e Caio respondemos juntos.
A cozinha explode em risadas.
O jantar fica pronto e, sinceramente, dá vontade de aplaudir. O risoto está cremoso, brilhante, com o aroma perfeito de vinho, manteiga e alho. Nos sentamos à mesa e, por alguns minutos, só existe o som das colheres batendo no prato.
– Isso aqui tá indecente – Caio comenta, apontando a colher para Levi. – Indecente mesmo.
– Concordo – digo, levando outra garfada à boca. – Se tu abrir um restaurante, Caio vai virar teu mascote.
– Eu não sou mascote – Caio reclama.
– Mas quando a Estefany te chama de macotinho você não reclama. – Levi provoca divertido.
– Estefany? – repito. – Quem é Estefany, Caio?
O meu irmão começa a se atrapalhar. Ele passa a mão no cabelo, tenta beber água, mas erra o timing e quase engasga.
– Ninguém – responde rápido demais. – Só… ninguém.
– Parece alguém – digo.
– Parece muito alguém – Levi completa, cruzando os braços.
– Levi – Caio ameaça, apontando o dedo para ele.
– Eu não falei nada – Levi rebate. – Só sugeri que talvez “ninguém” seja uma expressão muito forte.
Quase engasgo com o riso.
– Caio… tu tá… saindo com ela? – pergunto, tentando parecer casual, mas provavelmente falhando miseravelmente.
– Não – ele responde. – Quer dizer… não oficialmente. Não é namoro. Não… sei lá.
– Meu Deus – digo, inclinando-me sobre a mesa. – Tu está tendo um relacionamento secreto.
– Não é secreto! – Caio corrige. – Só… recente demais pra apresentar.
Levi desliza a colher no prato e observa a cena com a maior tranquilidade do mundo.
– Júlia não vai gostar dela – Levi comenta, bebendo água.
Viro a cabeça tão rápido que quase lesiono o meu pescoço.
– O quê? Por quê?
– Ela é muito… menininha – Levi diz, escolhendo a palavra com cuidado.
– Menininha como? – pergunto.
– Tipo… aquelas que falam fino, usam laço no cabelo, tiram foto fazendo biquinho. – Ele faz um gesto vago com a mão. – Nada errado com isso, mas tu vai implicar.
Eu abro a boca.
Fecho.
Abro de novo.
– Eu não implico com todo mundo – tento defender.
Levi ergue a sobrancelha, em silêncio.
Droga. Esse silêncio é pior que qualquer resposta.
– Tá – admito. – Talvez eu implique um pouco.
– Um pouco? – Caio ri. – Júlia, tu implicou até com a moça nova da padaria porque ela falou “bom dia” com entusiasmo demais.
– Aquilo não era entusiasmo, era pra chamar tua atenção. – argumento.
Levi ri.
Cruzo os braços, indignada. – E tu, Caio, vai ter que apresentar essa Estefany pra mim. Avisei.
– Não vou mesmo – ele responde. – Não enquanto você não estiver pronta pra conhecer antes de julgar.
– Eu não julgo tanto assim – minto descaradamente.
Levi solta aquele riso baixo, quase inaudível, que me dá nos nervos.
– Isso vai ser divertido – ele comenta.
– Para de parecer animado – digo a ele. – Eu estou tentando ter uma conversa séria.
– Eu percebi – ele rebate. – É por isso que está sendo tão bom de assistir.
Jogo o guardanapo nele.
Ele desvia sem esforço.
Óbvio.
Caio apoia os cotovelos na mesa, já resignado.
– Prometo que… se a coisa continuar… eu apresento. Mas vocês não vão assustar a garota.
– Eu? – pergunto, mãos no peito. – Eu sou um anjo.
Levi tosse, claramente fingindo.
– Um anjo com tridente – ele murmura.
Quase sorrio.
O jantar segue assim: leve, divertido, cheio de provocações bobas que deixam o meu coração quente de um jeito que eu não esperava.
E por algum motivo estranho, talvez o sol, talvez o mar, talvez o fato de eu ter dormido no colo do Caio na noite anterior, eu percebo que, pela primeira vez em muito tempo, estou… bem.
Simplesmente bem.
E Levi está ali.
E Caio está ali.
E tudo parece encaixar.
Talvez por hoje, só por hoje, isso seja suficiente.