Acordo com o som irritante da vibração insistente do celular em cima da mesa de cabeceira. Não foi o alarme, eu sempre acordo antes dele, como se o meu corpo tivesse uma paranoia natural contra horários. Mas hoje a vibração é contínua, insistente, dramática demais para ser qualquer pessoa que não ele.
Eu já sei antes de pegar o celular.
Matheus.
Quando viro o aparelho, a tela acende e me cega por meio segundo. Preciso piscar várias vezes para focar nas notificações.
14 mensagens.
5 áudios.
3 figurinhas aleatórias com gatinhos apaixonados.
Eu suspiro e deslizo o dedo para abrir a conversa. Não por vontade, mas por obrigação emocional, a mesma obrigação que me mantém nesse namoro que nunca me coube direito.
As mensagens começam inocentes:
“Bom dia, meu amor ❤️”
“Você acordou?”
“Tá tudo bem?”
Depois, evoluem para o desespero típico:
“Você tá brava comigo?”
“Fiz alguma coisa?”
“Por favor, fala comigo quando acordar.”
E então vem o áudio que mais parece um podcast que eu sei que não devo ouvir, mas acabo ouvindo mesmo assim. Matheus começa com aquela voz afetiva, meio nasal, sempre carregada de emoção demais para um horário tão cedo:
“Amor… eu só queria te desejar um bom dia. Você sumiu ontem, fiquei preocupado. Me avisa quando estiver bem, tá? Desculpa se falei algo errado. Eu só quero você feliz.”
Eu fecho os olhos enquanto ouço. Deveria doer mais. Não dói. Só cansa.
Matheus é… bom. Ele é fofo. Atencioso. O tipo de pessoa que compra chocolate porque ouviu você comentar que estava com vontade. O tipo que segura a sua mão com força, como se tivesse medo de você escorregar pelos dedos.
O problema é que eu não sinto nada equivalente ao que ele sente. Nada que justifique a intensidade dele. Nada que justifique as expectativas que ele projeta.
Eu namorava Matheus por um motivo tão pequeno e vergonhoso que quase dá vergonha admitir em voz alta: eu temia que ninguém mais fosse gostar de mim daquele jeito.
E ele gostava. Muito. À beira do exagero, mas gostava.
E eu aceitei isso porque… bem, aceitar qualquer coisa sempre pareceu mais fácil do que lidar com o vazio.
Respondo com o básico:
“Bom dia. Tô bem. Só dormi pesado.”
Ele visualiza imediatamente, claro, e liga. Eu não atendo. Ele respeita e manda mais mensagens:
“Tudo bem, amor. Vou te ver na escola?”
“Posso te encontrar no intervalo?”
Eu digo que sim, mesmo sabendo que não quero. Mas seria c***l demais dizer o contrário.
E eu ainda não aprendi a ser c***l.
Levanto da cama, arrumo o cabelo no espelho, ou tento, já que ele insiste em ter personalidade própria e troco de roupa com a rapidez automática de quem vive repetindo a mesma rotina há meses.
Short jeans.
Camisa larga.
Tênis gasto.
A mesma Júlia de todos os dias.
Desço para tomar café, mas a casa está silenciosa. Caio deve ter saído cedo, e Levi…
Bem, Levi não dormiu aqui ontem.
Por que isso me deixa estranhamente aliviada, eu não faço ideia. Ou faço, mas não quero admitir.
Finjo ignorar essa parte e sigo para a escola.
O corredor da escola sempre tem cheiro de desinfetante barato misturado com perfume doce demais das meninas populares. É uma combinação que eu já associo automaticamente à perda de paciência.
Entro na sala e encontro meus amigos no canto de sempre. Débora acena com a mão, animada demais para alguém que acabou de acordar.
— Amiga, você sumiu ontem à noite! — ela reclama, como se eu tivesse obrigação de responder mensagens até enquanto durmo.
— Dormi cedo — digo, jogando a mochila na cadeira.
— Cedo tipo… dez da noite? — ela pergunta, desconfiada.
— Tipo nove.
Ela arregala os olhos como se eu tivesse confessado um crime grave.
— Meu Deus, você é uma idosa de dezoito anos.
— Dezessete — corrijo.
— Piorou.
Os outros riem. O professor entra logo em seguida, evitando que a conversa continue. Eu agradeço mentalmente. Não estou com humor social hoje. Nem ontem. Nem anteontem.
As aulas seguem arrastadas, como sempre. Entre uma explicação e outra, o celular vibra. Matheus de novo:
“Tô no corredor. Te esperando.”
Ele não precisava estar aqui agora. Eu não pedi. Ele veio porque sempre vem.
No intervalo, encontro ele encostado na parede, com aquela expressão doce demais que faz o meu estômago embrulhar, não por borboletas, mas por culpa.
— Oi, amor — ele diz, se aproximando e depositando um selinho rápido. — Achei que tinha acontecido alguma coisa.
— Só dormi — repito, forçando um sorriso que não alcança os meus olhos.
Ele segura minha mão. Eu deixo. Ele fala sobre o treino de futebol, sobre um professor que pegou no pé dele, sobre o cachorro que mordeu o próprio r**o de madrugada. Meu corpo está ali. Minha mente, não.
E eu me odeio por isso.
Depois da escola, vou direto para o teatro. É o único lugar onde a minha cabeça parece funcionar de forma coerente. Talvez porque o palco exige presença, exige foco. Exige que eu seja algo além do que sou no resto do dia.
Estamos ensaiando uma adaptação moderna de Dom Casmurro. Não faz o menor sentido, mas o diretor insiste que vai ficar genial. Eu faço o papel de Capitu adolescente. Sempre achei irônico: Capitu, a personagem mais interpretada de maneiras diferentes na literatura brasileira, sendo interpretada por mim, que nem consigo interpretar os meus próprios sentimentos direito.
No palco, fico de frente para Lucas, que interpreta Bentinho. O diretor fala:
— Júlia, mais intensidade no olhar! Ela não é só observadora. Ela provoca sem dizer nada.
Se ele soubesse como esse papel é desconfortavelmente próximo da minha realidade, talvez ele tivesse escolhido outra atriz.
Eu tento. Entro na cena. Sinto a respiração de Lucas. Sinto o peso do olhar dele. Sinto a personagem crescendo dentro de mim.
E por alguns segundos, eu deixo de ser eu.
Deixo de ser o caos frágil, inseguro, irritado.
Sou Capitu. Enigmática. Forte. Presente.
É libertador.
Quando a cena termina, o diretor bate palmas.
— Agora sim! É isso! Júlia, você encontrou alguma coisa aí. Continua assim.
Eu só balanço a cabeça, tentando recuperar a minha versão real, não a ficcional.
O ensaio termina com todos exaustos, suados e reclamando. Saio pela porta lateral, ainda com a sensação do palco presa na pele. E então vejo.
Matheus.
De pé.
Sorrindo.
Segurando uma sacola de papel.
— Surpresa! — ele diz, abrindo os braços como se esperasse que eu corresse para ele.
Eu não corro. E me xingo mentalmente por isso.
Ele estende a sacola.
— Comprei isso pra você.
Lá dentro, um livro. A Solidão da Imaginação. Eu tinha comentado que queria ler. Uma única vez. Sem esperar nada.
E lá estava.
Meu coração aperta, não de amor, mas de um tipo incômodo de ternura e culpa misturados.
— Matheus… não precisava.
— Eu quis — ele diz, orgulhoso. — Eu sei que você gosta dessas coisas profundas demais que ninguém entende.
Eu solto uma risada fraca.
— Obrigada. De verdade.
Eu lhe dou um selinho, tentando ser a mais carinhosa possível, ele estende a mão, e eu dou a minha. Caminhamos até o carro dele. Ele fala sobre a surpresa, sobre o livro, sobre como queria me ver ensaiando. Eu deixo que a conversa siga, mesmo sem participar muito.
Pelo menos hoje…
Pelo menos hoje, quando chego em casa, a sala está vazia.
Caio não voltou.
E Levi não está por aqui.
Graças a Deus.
O silêncio me alivia de um jeito que eu não esperava.
E, claro, isso diz mais sobre mim do que eu gostaria de admitir.
Tomo banho como quem tenta lavar um dia inteiro pela segunda vez. A água quente bate nas minhas costas e, por alguns segundos, fico ali parada, sem me mexer, deixando a mente dissolver em silêncio. É estranho como a água facilita o pensamento, ou o desmancha, depende do humor. No meu caso, faz os dois.
Quando finalmente saio, os meus dedos já estão enrugados e o meu rosto está quente demais, mas pelo menos o meu corpo parece mais leve. Coloco um pijama velho, confortável, daqueles que não têm a menor intenção de impressionar ninguém. Amarro meu cabelo ainda úmido, um laço de fita que sempre me deixa com cara de criança de sete anos. Não ligo. Hoje eu não preciso ser nada além de alguém que respira.
Jogo-me no sofá com um suspiro exagerado, puxo uma manta meio desbotada e deixo um programa aleatório passando na TV, só para me fazer companhia. Não demora muito até o apartamento ganhar vida com o barulho da porta sendo destrancada.
Caio chega como quem atravessou uma guerra civil. As chaves quase caem da mão, a mochila escorrega do ombro e o seu primeiro movimento consciente é ir direto à geladeira.
– Dia difícil? – pergunto, sem tirar o olhar da TV, porque a minha maneira de demonstrar carinho é fingindo desinteresse.
– Quer trocar de vida por vinte e quatro horas? – ele rebate, pegando uma cerveja e se jogando ao meu lado no sofá.
O cheiro frio do álcool se mistura ao do meu shampoo recém-ativado pela água quente. Ele abre a garrafa com um estalo e dá um gole generoso, apoiando a cabeça no encosto.
– Sério, Ju… se hoje tivesse mais uma hora, eu fugia do país.
– Qual seria o país ideal para fuga? – pergunto, puxando a manta para cobrir os meus pés.
– Qualquer um que não tenha planilha, reunião e ser humano falando alto.
Dou uma risada curta. Essa definição poderia servir para muitos lugares, mas para Caio parece um pesadelo pessoal.
Ele vira a cabeça na minha direção e me observa por alguns segundos, daqueles que começam a deixar a gente desconfortável.
– Você tá com cara de quem pensou demais hoje – ele comenta, apontando a garrafa na minha direção.
– Minha cara tá normal – retruco.
– Não. Tem a sua cara normal e tem a sua cara “estou tendo uma crise existencial silenciosa e ninguém percebe porque sou dramática em segredo”.
Reviro os olhos. Ele não está errado. E odeio isso.
– Eu… – começo, mas a frase fica presa na garganta. Tenho ensaiado mentalmente esse assunto desde a cafeteria, mas agora, com Caio do meu lado, tudo parece infantil.
Ele espera. Caio sempre espera.
– Você já… – paro de novo. – Já ficou com alguém porque achou que… não ia aparecer outra pessoa melhor?
Ele arqueia uma sobrancelha.
– Tá falando de quem?
Meu silêncio responde por mim.
Ele deixa a garrafa apoiar entre as pernas e vira o corpo, ficando totalmente voltado para mim.
– Júlia. – O tom muda. Fica mais sério, mais cuidadoso. – Você quer terminar com o Matheus?
Minha respiração falha por meio segundo.
Eu não sei.
Ou sei demais, e não quero admitir.
– Eu… – Tento colocar ordem nas palavras, mas elas se embaralham. – Ele é bom pra mim. Ele… gosta de mim. Você sabe como eu sou. E eu fico pensando: e se… e se isso for o máximo que alguém vai gostar de mim? E se eu deixar passar… e me arrepender?
O rosto de Caio suaviza, mas a resposta dele é firme.
– Ju, gostar não funciona como dívida. Você não tem que ficar com alguém só porque ele te coloca num pedestal. Isso não é amor, é medo.
Sinto um incômodo subir pelo peito.
– Eu queria amar ele – digo, e minha voz já está falhando.
– Você queria amar a ideia de alguém te amar tanto – ele corrige, sem acusações, só verdade.
A frase bate forte demais. Mais do que eu gostaria de admitir.
– Eu sei que você se sente insegura às vezes – ele continua. – Sei que acha que não é suficiente, ou que ninguém vai te escolher. E eu juro que não sei de onde você tirou isso. Porque você é… muita coisa. Muita mesmo. Só que você não consegue enxergar.
É c***l como palavras simples conseguem desmontar uma pessoa inteira. Eu sinto os olhos queimarem, piscam rápido, mas é inútil.
A primeira lágrima cai, traiçoeira. E quando percebo, já estou chorando de verdade. Odeio chorar na frente dele. Odeio me sentir pequena. Odeio o nó no peito que parece não passar nunca.
– Ei… – Caio murmura, e antes que eu possa esconder o rosto, ele já me puxou. É automático. Instintivo.
Meu corpo se encaixa contra o dele como se fosse um movimento ensaiado desde sempre.
Ele me abraça apertado, firme, sem hesitação, e isso desfaz o resto da defesa que eu tinha.
– Eu só… – tento explicar entre soluços. – Eu queria sentir algo. Qualquer coisa. Do jeito certo.
– Você não tem obrigação nenhuma – ele diz no topo da minha cabeça. A voz está baixa, quente, quase um sussurro. – Você merece viver algo verdadeiro. E se não sente agora… não adianta forçar.
Choro mais um pouco, afundada no peito dele, e sinto a mão de Caio subindo devagar pelas minhas costas, num gesto reconfortante que eu lembrava vagamente da infância. Quando eu tinha medo do escuro, era ele que deitava no tapete do meu quarto até eu dormir. Ele que afastava os monstros imaginários. Ele que dizia que eu estava segura.
E agora é igual.
Ele me ajeita de modo tão natural que, quando percebo, estou praticamente no colo dele. Meu rosto escondido na curva do pescoço, as minhas mãos segurando a camisa dele sem perceber.
– Respira – ele sussurra. – Tá tudo bem. Eu tô aqui.
A calma dele é contagiosa. Lentamente, o meu corpo vai relaxando, os soluços diminuem, o cansaço me invade. A respiração dele é constante, uma âncora.
E é estranho, porque eu deveria me sentir constrangida.
Mas não sinto.
Sinto… em casa.
A última coisa que percebo é o calor da mão dele fazendo um carinho distraído no meu braço e o som abafado da TV preenchendo o restante do silêncio. Meu rosto ainda úmido, os meus olhos pesados demais para manter abertos.
A sensação é tão familiar que chega a doer: como se o tempo tivesse voltado e eu fosse aquela menina com medo do escuro outra vez.
A diferença é que agora o escuro está dentro de mim.
E mesmo assim, Caio continua me protegendo.
Adormeço no colo dele antes que consiga pensar no que isso significa.