O faraó que o Egipto admirava
Capítulo 1 — O Faraó que o Egito Admirava
O sol acabava de nascer sobre o rio Nilo.
Os seus primeiros raios dourados iluminavam os enormes templos, os obeliscos cobertos por inscrições sagradas e as muralhas do grandioso palácio real. O Egito despertava lentamente, mas, antes mesmo de os mercados abrirem e os sacerdotes iniciarem os rituais da manhã, uma única notícia já corria pelas ruas.
— O faraó aparecerá na cerimónia de hoje.
As pessoas sorriam.
Velhos, jovens e crianças deixavam os seus afazeres apenas para vê-lo passar. Alguns acreditavam que olhar para o faraó trazia prosperidade. Outros diziam que bastava encontrar o brilho dos seus olhos prateados para receber a bênção dos deuses.
Dentro do palácio, dezenas de servos preparavam tudo para a cerimónia.
O quarto real era amplo, silencioso e decorado com colunas douradas e cortinas de linho extremamente fino.
Rá permanecia diante de uma enorme bacia de pedra repleta de água cristalina.
Os seus cabelos dourados caíam até perto dos ombros, brilhando como fios de ouro sob a luz da manhã. A pele clara parecia quase luminosa, sem uma única imperfeição. O seu corpo forte e perfeitamente definido fazia dele uma verdadeira obra de arte viva.
Mas a sua expressão permanecia calma.
Sempre calma.
Dois criados aproximaram-se carregando uma túnica branca feita com o tecido mais fino produzido em todo o Egito.
— Majestade... os melhores artesãos terminaram esta peça durante a madrugada.
Rá olhou para a roupa durante alguns segundos.
— Coloquem-na.
Os criados obedeceram.
Com o máximo cuidado, pousaram o tecido sobre os ombros do faraó.
Durante alguns instantes...
Nada aconteceu.
Então...
Rá fechou lentamente os olhos.
A sua respiração tornou-se pesada.
O pescoço começou a ficar avermelhado.
Os braços estremeceram.
— Ah...
Um ardor intenso espalhou-se pela sua pele.
O tecido parecia transformar-se em milhares de pequenas agulhas.
O peito começou a queimar.
As costas ardiam como se estivessem sob o próprio sol do deserto.
Poucos segundos depois, gotas de suor escorriam pelo seu rosto.
— Tirem.
Os criados retiraram imediatamente a túnica.
Rá respirou profundamente enquanto o ardor diminuía pouco a pouco.
Um dos servos abaixou a cabeça.
— Perdoe-nos, Majestade... usamos o tecido mais delicado do reino.
— Eu sei.
Outro servo falou, quase num sussurro.
— Tentaremos novamente.
Durante anos...
Tecelões.
Costureiros.
Curandeiros.
Sacerdotes.
Até estudiosos vindos de terras distantes tentaram encontrar um tecido que não lhe causasse dor.
Nenhum conseguiu.
Nenhum.
Rá aproximou-se de uma pequena mesa onde repousava o único tecido que conseguia suportar.
Era apenas uma faixa muito leve e extremamente fina.
Com movimentos tranquilos, colocou-a à volta da cintura.
Depois vestiu algumas joias feitas especialmente para si.
Os braceletes possuíam um interior liso e delicado.
O colar não pesava quase nada.
Até a coroa fora adaptada para não ferir a sua pele.
O faraó observou o próprio reflexo na água.
Não havia vergonha.
Nunca houve.
Aquele era o único modo de viver sem dor.
Pouco depois, as enormes portas do palácio abriram-se.
Os soldados alinharam-se.
Os sacerdotes ajoelharam-se.
E Rá caminhou em direção ao grande pátio.
Assim que apareceu...
Um silêncio absoluto tomou conta do lugar.
Logo em seguida...
— Vida longa ao faraó!
— Que Rá, o deus do Sol, proteja o nosso rei!
— O faraó mais belo do Egito!
Centenas de vozes ecoaram ao mesmo tempo.
O rei apenas levantou ligeiramente a mão.
O povo respondeu com ainda mais entusiasmo.
Entre a multidão estavam também dezenas de mulheres do harém real.
Algumas sorriam discretamente.
Outras disputavam quem conseguiria ficar mais perto.
Uma tentava chamar a atenção usando um vestido transparente.
Outra exibia joias enormes.
Outra fazia questão de rir alto sempre que o faraó passava.
Rá não olhou para nenhuma delas.
O seu rosto permaneceu sereno.
Para ele, eram apenas parte da corte.
Nenhuma despertava qualquer interesse.
Mais atrás, quase escondida entre as outras concubinas, estava Nurit.
Usava um vestido azul profundo adornado por pequenos detalhes dourados.
Os seus longos cabelos azul-escuros brilhavam suavemente sob o sol.
Algumas pulseiras de ouro fino enfeitavam os seus braços, e um delicado colar de esmeraldas repousava sobre o peito.
Era impossível não notar a sua beleza.
Ainda assim, ela permanecia tranquila.
Não fazia gestos exagerados.
Não chamava o faraó.
Não fingia tropeçar.
Nem procurava ficar na frente das outras.
Limitava-se a observar a cerimónia com um sorriso calmo.
Uma concubina ao seu lado sussurrou:
— Por que nunca tentas aproximar-te do faraó?
Nurit sorriu.
— Porque um homem que é perseguido por todos talvez precise, pelo menos uma vez, de alguém que apenas respeite o seu espaço.
A outra mulher franziu a testa.
— Mas és uma concubina.
— Sou. E farei o meu dever quando for chamada. Até lá, não preciso disputar atenção.
As palavras ficaram no ar.
Naquele mesmo instante...
Enquanto cumprimentava o povo...
Os olhos prateados de Rá moveram-se lentamente pela fileira das concubinas.
Passaram por uma.
Depois outra.
Mais uma.
Até que...
Pararam.
Por um breve instante.
Sobre Nurit.
Ela não acenou.
Não sorriu de forma exagerada.
Nem sequer tentou aproximar-se.
Apenas fez uma pequena reverência, respeitosa e elegante, antes de voltar a erguer o rosto com serenidade.
Rá continuou a caminhar.
Mas, pela primeira vez em muitos anos...
A imagem daquela jovem de cabelos azuis permaneceu na sua mente por mais tempo do que deveria.
Sem perceber...
O destino do faraó mais admirado do Egito acabava de começar a mudar.