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553 Words
Paquetá Narrando A noite já tinha tomado conta do Alemão quando eu ainda estava no escritório, preso entre planilhas, ligações e problemas que pareciam nunca acabar. Meu celular tocou sobre a mesa. Olhei para a tela antes de atender. Era o clube onde eu mantinha meus quatro cachorros. — Fala. Do outro lado, o homem demorou alguns segundos para responder. — Paquetá... a gente precisa conversar sobre os seus cães. Franzi a testa. — Aconteceu alguma coisa? — Aconteceu. O Zeus e o Biorne brigaram feio. Meu corpo ficou tenso imediatamente. — Quanto feio? — Feio mesmo. O Biorne precisou levar pontos. O Zeus também ficou machucado, mas foram ferimentos mais leves. A gente conseguiu separar os dois, mas não dá mais para manter eles aqui juntos. Passei a mão pelo rosto. — E a Kyara e o Apolo? — Estão bem. Mas, depois do que aconteceu, a direção decidiu que os quatro precisam sair. Fechei os olhos por alguns segundos. — Sair? — Sim. Eles não podem mais ficar aqui. Fiquei em silêncio. Meus quatro cachorros. Kyara. Biorne. Zeus. Apolo. Quatro Pitbulls enormes. Quatro animais que, apesar de eu quase não vê-los há anos, ainda eram meus. — Então manda eles para minha casa — falei. O homem ficou em silêncio. E eu já sabia o que vinha. — Paquetá... — O quê? — Você tem certeza? Olhei para minhas pernas. Para a cadeira. Para o espaço ao meu redor. E só então a realidade bateu. Merda. Como eu ia cuidar de quatro cachorros daquele tamanho? Eu m*l conseguia me movimentar sozinho dentro de casa. Precisava de ajuda para algumas coisas básicas. E agora teria quatro animais enormes voltando para dentro da minha casa. Animais que não gostavam de gente. Esse era justamente o motivo de eu ter colocado os quatro naquele lugar. Eles não confiavam em pessoas. Na verdade, odiavam. E com Veridiana... Até hoje eu não entendia o que acontecia. Eles simplesmente não gostavam dela. Eram filhotes quando tudo começou, mas já eram grandes demais para serem tratados como cachorros pequenos. Veridiana tentava chegar perto e eles avançavam. Tentavam morder. Rosnavam. Latiram para ela. Eu precisei tomar cuidado para que ela não acabasse machucada. Por isso, quando minha vida virou aquela bagunça, mandei os quatro para o clube. Eu ia lá de vez em quando. No começo. Depois, cada vez menos. Até que os anos passaram. E eu parei de ir. Agora, pensando naquilo, uma pergunta me atingiu de repente: Será que eles ainda lembravam de mim? Eu não fazia ideia. Fazia anos que eu não via meus próprios cachorros. Talvez eles nem reconhecessem mais meu cheiro. Talvez, para eles, eu fosse só mais um estranho entrando pela porta. — Paquetá? — o homem chamou do outro lado da ligação. Voltei para a realidade. — Tô aqui. — Você realmente quer que eles voltem para sua casa? Olhei novamente para minhas pernas. Depois para a porta do escritório. — Quero. Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Mas tem um problema. — Qual? Respirei fundo. — Como eu vou cuidar de quatro Pitbulls desse tamanho sentado numa cadeira de rodas? Silêncio. E, pela primeira vez naquela noite, eu percebi que talvez tivesse acabado de ganhar um problema muito maior do que uma simples briga de cachorro.
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