Henrique Bastos Narrando
Eu comecei minha carreira acreditando que conhecia o mundo. Interior de Minas. Cidade pequena. Gente que conhecia a vida de todo mundo e famílias que acreditavam saber o que era melhor para os filhos.
Eu era jovem, tinha disciplina, ambição e uma certeza dentro de mim: eu iria crescer. Foi nessa época que conheci Assucena. A família dela gostou de mim antes mesmo que ela tivesse tempo de decidir se gostava.
Para eles, eu era o homem certo. Trabalhador. Responsável. Policial. Tinha futuro.
E Assucena...
Assucena era diferente.
Pura.
Foi assim que passei a enxergá-la. Ela tinha uma inocência que eu não encontrava nas outras mulheres. Era delicada, reservada, obediente. Quando olhava para ela, eu não pensava em desejo. Pensava em posse. Ela seria minha esposa. Minha mulher.
E eu queria que permanecesse exatamente como a conheci. Por isso nunca toquei nela daquela maneira. Não depois do casamento. Não porque eu não pudesse. Porque eu não queria destruir aquilo que considerava perfeito. Na minha cabeça, se eu tirasse a virgindade de Assucena, alguma coisa morreria.
A pureza dela.
E uma mulher pura era o que eu queria ao meu lado. O problema é que um homem continua sendo homem. E eu tinha necessidades. Então procurava outras mulheres. Era simples. Eu voltava para casa e encontrava Assucena exatamente como queria.
Pura.
Intocada.
Minha.
E aquilo me fazia acreditar que não havia nada errado. Eu traía minha esposa, mas, na minha cabeça, não estava realmente traindo aquilo que considerava nosso casamento.
Até conhecer Veridiana. Ela foi diferente. Completamente diferente. Parecia uma feiticeira. Não sei explicar de outra maneira. Ela entrava em um lugar e parecia que o resto desaparecia. Eu ficava olhando. Vidrado. Ela tinha alguma coisa que me deixava maluco.
Nos encontramos algumas vezes.
Poucas.
Sempre difíceis.
Mas de alguma forma, suficientes.
Era como se alguma coisa estivesse impedindo Veridiana de se entregar completamente àqueles encontros. No começo, pensei que fosse medo. Depois comecei a desconfiar que existia outro homem. Talvez um namorado. Talvez um marido. Ela nunca respondia direito. E quanto menos dizia, mais eu queria descobrir.
Até que, na última vez que nos encontramos, ela falou sobre ele.
Paquetá.
Foi ali que tudo mudou. Eu finalmente entendi. Ela tinha alguém. E não era qualquer homem. Era um homem que eu sabia que não deveria enfrentar. Mas naquele momento eu não pensei como policial. Pensei como homem. Porque, pela primeira vez na vida, eu tinha encontrado uma mulher que me fazia esquecer todas as regras que eu mesmo acreditava seguir.
E então Veridiana morreu.
Mas até hoje eu não sei exatamente o que aconteceu naquele dia. Só sei que ela morreu. E, dentro de mim, sempre existiu uma certeza: Paquetá matou aquela mulher. Talvez porque fosse mais fácil acreditar nisso do que aceitar que ela pudesse ter escolhido partir.
E naquele dia alguma coisa dentro de mim mudou. Eu não consegui simplesmente seguir em frente. Não depois de perder aquela mulher. Não depois de saber que Paquetá continuava vivo.
Eu precisava crescer.
Precisava subir.
Precisava chegar a um lugar onde ninguém pudesse olhar para mim de cima.
Então fiz exatamente isso.
Trabalhei.
Subi na carreira. Conquistei patente, respeito e poder. Tudo porque eu tinha uma dívida. E um dia eu pretendia cobrar. Porque, na minha cabeça, Paquetá tinha tirado de mim a única mulher que conseguiu me deixar completamente fora de controle. E eu queria devolver na mesma moeda.
Ele tirou minha garota de mim.
E eu encontraria alguma coisa que doesse nele da mesma forma. Eu só ainda não sabia o quê.