06

725 Words
Só muito tempo depois eu entenderia que o problema não estava em mim. Henrique tinha criado uma ideia doentia dentro da própria cabeça. Ele dizia que eu era pura. E, para ele, essa pureza precisava permanecer intacta. Na cabeça dele, tocar em mim significava destruir justamente aquilo que dizia admirar. Eu não sabia disso. Eu só sabia que dormia ao lado do meu marido e me sentia sozinha. E então começaram as traições. Eu sabia que Henrique tinha outras mulheres. Não porque tivesse visto alguma coisa claramente. Mas porque mulher sente quando existe outra pessoa ocupando um espaço dentro do casamento. Ele chegava diferente. Algumas vezes desaparecia por horas. O telefone tocava e ele se afastava. Existiam conversas que paravam quando eu entrava no cômodo. Eu nunca tinha conseguido pegá-lo. Nunca tinha encontrado uma prova que pudesse colocar diante dele e dizer: eu sei. Mas eu sabia. E, mesmo sabendo, eu permanecia. Talvez porque ainda acreditasse naquilo que minha mãe havia me ensinado. Amor se constrói. Talvez eu ainda esperasse que, algum dia, Henrique olhasse para mim e percebesse a mulher que tinha ao lado. Até que houve uma manhã que mudou tudo. Henrique chegou em casa. Era cedo. Muito cedo. Ele entrou sem dizer quase nada. Parecia destruído. Eu nunca tinha visto aquele homem daquele jeito. Ele foi direto para o quarto. Deitou. E dormiu. Dormiu durante horas. Até a noite. Quando finalmente acordou, eu estava ali. E foi então que vi Henrique chorar. Não foi uma lágrima. Não foi um choro contido. Ele chorou desesperadamente. Como se tivesse perdido alguma coisa que não conseguiria recuperar. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer. Aquela não era a tristeza de um homem que havia discutido com alguém. Era desespero. Era dor. E, pela primeira vez, tive certeza de que aquilo tinha a ver com a mulher que eu sabia que existia. Henrique chorou até não conseguir mais ficar acordado. E acabou dormindo novamente. Foi quando eu olhei para o celular dele. Fiquei alguns segundos parada. Eu sabia que não deveria. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava entender. Peguei o aparelho. Abri. E encontrei as mensagens. Foi assim que descobri que a mulher tinha morrido. A suposta amante de Henrique estava morta. E, mesmo depois de saber da morte dela, ele continuava escrevendo. Mensagens desesperadas. Como se ela ainda pudesse responder. Como se pudesse ler. Como se existisse alguma possibilidade de voltar no tempo. “Atende.” “Por favor, me responde.” “Eu vou buscar você.” “Eu vou tirar você dessa gaiola.” “Você vai viver livre comigo.” Eu li aquelas mensagens com as mãos tremendo. Ele falava com uma mulher morta como se ainda pudesse salvá-la. Como se ela ainda estivesse presa em algum lugar. Como se ele tivesse prometido tirá-la de uma vida que ela não queria viver. E naquele momento eu entendi que aquela mulher não tinha sido apenas mais uma. Ela tinha sido diferente. Muito diferente. Porque eu nunca tinha visto Henrique olhar para ninguém daquela maneira. Nem para mim. Eu era a esposa. Mas aquela mulher... Aquela mulher tinha levado uma parte dele que eu nunca consegui alcançar. E foi depois da morte dela que o homem que eu conheci em Minas começou a desaparecer de vez. Ele ficou mais fechado. Mais irritado. Mais distante. E depois, mais agressivo. As palavras começaram primeiro. — Você não serve para nada. Eu ficava parada. Não reconhecia aquele homem. Depois vieram as proibições. Agressões. Eu queria trabalhar. Ele não deixava. Queria sair sozinha. Ele questionava. Queria visitar alguém. Ele queria saber quem, onde, quando e por quê. Até minhas roupas passaram a incomodá-lo. — Mulher minha não precisa trabalhar fora. Eu tentava conversar. Tentava entender. Tentava acreditar que era apenas uma fase. Afinal, eu tinha me casado acreditando que amor se construía. Então eu continuava construindo. Mesmo quando ele começava a destruir. Até chegar um momento em que percebi uma coisa. Eu tinha passado tanto tempo tentando aprender a amar Henrique que esqueci de aprender a amar a mim mesma. E, quando finalmente entendi isso... eu fugi. Sem saber para onde ir. Sem saber o que faria. Sem dinheiro suficiente. Sem família para me acolher. Sem saber se ele iria me encontrar. Mas com uma certeza que finalmente era minha.. eu não voltaria.
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