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899 Words
Maite Assucena Narrando Eu me casei acreditando que aprenderia a amar. Talvez essa seja a parte mais difícil de admitir. Eu não era apaixonada por Henrique quando o conheci. Nem ele por mim. O nosso casamento não começou com duas pessoas que se olharam e decidiram passar o resto da vida juntas. Começou com os meus pais dizendo que ele era um bom partido. Henrique apareceu na nossa cidade por causa do trabalho. Naquela época, ele ainda era apenas policial e estava servindo em um batalhão no interior de Minas Gerais. Minha família conhecia algumas pessoas ligadas à corporação e, em pouco tempo, o nome dele começou a aparecer nas conversas dentro de casa. Meu pai gostava dele. Minha mãe também. Ele era mais velho, trabalhava, tinha uma carreira pela frente, sabia conversar, se vestia bem e, principalmente, transmitia aquela imagem de homem responsável que os meus pais sempre disseram que eu precisava encontrar. Eu tinha vinte anos. Ainda estava tentando descobrir quem eu era. Ainda tinha planos que nunca tinha contado para ninguém. Queria trabalhar. Queria conhecer lugares. Queria ter uma casa bonita. Queria construir minha própria vida. Mas meus pais acreditavam que já sabiam o que era melhor para mim. E Henrique parecia ser exatamente isso. Um bom partido. O homem certo. A segurança que eles achavam que uma filha precisava. No começo, eu m*l conversava com ele. Nossos encontros aconteciam porque minha família fazia questão. Minha mãe inventava almoço. Meu pai chamava Henrique para conversar. Ele aparecia na nossa casa algumas vezes. Depois começaram os cafés. As conversas. Os passeios. Tudo muito planejado. Tudo muito conveniente. E eu percebia que meus pais estavam fazendo uma coisa que eu não tinha coragem de impedir. Estavam nos aproximando. Henrique era educado comigo. Atencioso. Nunca levantava a voz. Perguntava sobre meus gostos, sobre o que eu queria fazer da vida e até brincava dizendo que eu era muito quieta. Eu sorria. Gostava da atenção. Mas ainda não sentia aquilo que minha mãe chamava de amor. Um dia, ela entrou no meu quarto enquanto eu me arrumava. — Você precisa dar uma chance para ele, Maite. Olhei para ela pelo espelho. — Eu m*l conheço o homem. — É justamente por isso que precisa conhecer. — E se eu não gostar? Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Você não precisa começar amando. Amor se constrói. Essa frase ficou na minha cabeça. Amor se constrói. Eu acreditei nela. Acreditei porque queria acreditar. Talvez fosse possível. Talvez eu não precisasse encontrar aquele amor de filme que todo mundo falava. Talvez o amor realmente estivesse nas pequenas coisas. No café preparado pela manhã. Na companhia no fim do dia. Na preocupação. No costume. Na convivência. Talvez duas pessoas pudessem começar sem amor e, com o tempo, aprender a amar. Foi nisso que eu apostei. Em Henrique. Em nós. No futuro que meus pais já tinham escolhido antes mesmo de eu perceber. Quando ele me pediu em casamento, eu não disse sim imediatamente. Olhei para o anel. Depois para ele. E pensei em tudo que minha mãe havia me dito. “Amor se constrói.” Então eu aceitei. Meus pais ficaram felizes como se tivessem acabado de ganhar um prêmio. Vi minha mãe chorando. Meu pai apertando a mão de Henrique. Todo mundo comemorando. E eu tentei sentir a mesma felicidade. Tentei imaginar aquele homem como meu marido. Meu companheiro. Minha família. Eu tentei. E talvez esse tenha sido o meu maior erro. Não ter escutado a pequena voz dentro de mim que dizia que eu ainda não estava pronta. O casamento aconteceu. E, pouco depois, deixamos Minas Gerais. Henrique recebeu a transferência para o Rio de Janeiro e nós seguimos para lá juntos. Eu fui acreditando que aquela seria a nossa oportunidade de começar de verdade. Uma casa nova. Uma cidade nova. Uma vida nova. Só nós dois. Talvez longe dos meus pais eu conseguisse descobrir quem eu era dentro daquele casamento. Talvez longe de tudo que conhecia, conseguisse finalmente construir aquilo que aceitei começar. Nos primeiros meses, eu ainda acreditava que tinha feito a escolha certa. Henrique trabalhava muito. Eu cuidava da casa. Ele chegava cansado. Jantávamos juntos. Conversávamos. Algumas noites saíamos. Outras ficávamos em casa. Era uma rotina simples. Mas havia uma coisa que começou a me incomodar. Henrique nunca tinha me tocado. Não daquela maneira. Não como um marido toca a própria esposa. No começo, achei que fosse timidez. Depois pensei que talvez ele estivesse esperando o momento certo. Eu também era inexperiente. Não sabia exatamente como um casamento deveria começar, então não queria pressioná-lo. Esperei. Uma noite. Depois outra. Depois outra. E os dias foram passando. As semanas. Os meses. Anos. Nada. Eu comecei a me perguntar se havia alguma coisa errada comigo. Será que eu não era bonita o suficiente? Será que ele não sentia desejo por mim? Será que se arrependia de ter se casado comigo? As perguntas começaram a machucar mais do que o silêncio. Eu me sentia indesejada. Humilhada. Como se fosse uma mulher que o próprio marido não conseguia desejar. E o pior era não entender o motivo. Eu me arrumava. Tentava ficar bonita para ele. Esperava algum gesto. Algum olhar diferente. Alguma demonstração de que ele me enxergava como mulher. Mas nada acontecia. Henrique nunca me tocava. E eu comecei a acreditar que talvez simplesmente não despertasse nada nele.
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