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759 Words
Vogas Narrando Ver o Paquetá do jeito que ele está hoje é uma morte lenta. E não estou falando da cadeira. Nunca foi sobre a cadeira. O homem continua comandando o Complexo do Alemão como sempre comandou. Nada mudou na gestão. Nada sai do lugar sem ele saber. Se está dentro do escritório, continua sendo ele quem dá a palavra final. Mas eu conheci Paquetá antes dela. Conheci o homem cheio de vida, o cara que gostava de viver, de sair, de estar no meio da rapaziada, que gostava de liderar, que tinha visão para tudo. Paquetá enxergava uma situação antes mesmo de ela acontecer. Era difícil passar a perna nele. Mulher, então? Nunca vi Paquetá se dobrar por nenhuma. Até ela. A falecida. Nem gosto de falar o nome. Não consigo. Porque aquela mulher não levou só a própria vida naquela noite. Ela matou uma parte do meu amigo também. E não estou falando que ele morreu porque ficou cadeirante. Não é isso. Ele está vivo. Está de pé onde precisa estar. Continua sendo o homem que manda. Continua sendo meu irmão. Mas aquele Paquetá que eu conhecia… aquele morreu junto com ela. Eu odiava aquela mulher. E não era sem motivo. Toda oportunidade que ela tinha de desrespeitar Paquetá, ela aproveitava. Aparecia na boca com umas roupas que deixavam praticamente tudo à mostra, sabendo muito bem que aquilo incomodava. Saía. Sumia. Voltava quando queria. E traição? Isso nunca foi novidade para quem estava de fora. Os vapores chegavam em mim, um contava uma coisa, outro vinha com outra. — Vogas, fica ligado. — Vogas, ela está dando mole. — Vogas, vi ela com fulano. Eu ouvia. Guardava. E uma vez eu tentei falar com Paquetá. Uma vez. Foi o suficiente para quase perder meu irmão. Ele estava cego. Completamente cego. Eu tentei mostrar o que estava acontecendo, mas ele não quis ouvir. Disse que eu estava julgando ela. Que eu não conhecia a mulher que ele conhecia. E talvez, naquele momento, ele realmente acreditasse nisso. Depois daquele dia, eu nunca mais me meti. Nunca mais. Eles tinham o quadrado deles. Eu tinha o meu. Quando Paquetá estava sozinho, éramos nós dois. Quando ela estava por perto, eu nem parava. Não queria discussão. Não queria ouvir. Não queria olhar. Eu preferi preservar a minha amizade com ele. Só que, mesmo mantendo distância, eu continuava vendo. E era impressionante como aquela mulher tinha mudado Paquetá. O cara não conseguia enxergar um palmo na frente da própria cara. Logo ele. Um dos homens mais visionários que eu conheço. Paquetá nunca deu confiança para mulher nenhuma. Nunca rendeu para ninguém. Nunca deixou mulher entrar na cabeça dele. Até ela. E eu não conseguia entender. Até hoje não consigo. Então aconteceu. Aquela tragédia que, para mim, já estava anunciada. Só não sabia quando. Nem como. Até hoje eu não sei todos os detalhes. Paquetá não fala. E eu não pergunto. Aprendi que existem assuntos que você não toca se quer continuar sendo irmão de alguém. Só sei que ela morreu. E, sinceramente? Ainda bem. Talvez pareça c***l. Talvez seja. Mas eu não vou fingir que sinto falta. O problema é que ela morreu e Paquetá ficou. Ficou com uma sequela daquela relação desgraçada. Ficou com a culpa. Ficou com as perguntas. Ficou com uma cadeira de rodas. E ficou com uma versão dele mesmo que eu nem reconheço mais. O mais absurdo é que ele chamava aquela mulher de minha mulher. Enquanto ela, para a comunidade inteira, dizia que não tinha relacionamento sério com ninguém. Era como se ele estivesse vivendo uma relação sozinho. E ela sabia. Todo mundo sabia. Só ele não queria saber. Às vezes eu penso que ele gostava mais daquilo que acreditava ter do que daquilo que realmente tinha. Porque Veridiana nunca pareceu querer o mesmo que ele. Mas vai falar isso para um homem apaixonado. Não adianta. Hoje eu faço o que posso para ver meu irmão se reerguer. Nós comandamos o Alemão juntos, ele do escritório, de dentro de casa e eu na boca. Ele continua sendo a cabeça. Eu faço o resto andar. E é assim que vai ser. Porque Paquetá pode ter perdido muita coisa naquela história. Mas não perdeu o irmão. Eu estou aqui. E vou continuar. Agora, se tem uma coisa que aquela história me ensinou, foi a nunca dar confiança para mulher. Casamento? Estou fora. Namoro? Também. Relacionamento? Nem pensar. Eu nasci sozinho. Vou morrer sozinho. Porque mulher enganou até o d***o. Vai querer enganar logo nós? Comigo não. Nunca mais.
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