Capítulo Especial
Veridiana (Falecida) Narrando.
Eu sempre fui livre. Desde pequena. Talvez livre até demais para aquilo que esperavam de mim. Foi por isso que saí da casa dos meus pais e fui morar com a minha avó. Não queria ter ninguém perguntando onde eu estava, que horas voltaria ou com quem tinha saído. Eu queria poder acordar e decidir o que fazer da minha vida. Se eu quisesse sair e passar cinco dias fora, eu passava. Se quisesse ficar em casa, ficava. Se quisesse conhecer alguém, conhecia. Eu não queria dar satisfação. Nunca quis. Eu sempre fui assim. Um pássaro. E pássaro não nasceu para viver dentro de gaiola. Talvez por isso eu tenha tatuado um no corpo, para lembrar de quem eu era. Porque existe uma coisa que eu sempre acreditei: pássaro preso não canta. Ele lamenta. E eu não queria passar a minha vida lamentando.
Foi andando pelas ruas da comunidade que eu conheci Paquetá. Eu passava pela rua da boca e, em algum momento, ele estava ali. E, meu Deus… ele era lindo. Aquele homem tinha uma muralha de músculos no corpo, tatuagens espalhadas pela pele e uma presença que fazia qualquer pessoa olhar duas vezes. Era o sonho de qualquer mulher. E, naquela época, também era o meu. Eu só não sabia que o homem que me fazia perder o fôlego acabaria sendo o mesmo que me faria sentir sufocada.
No começo, era perfeito. Nós éramos dois irresponsáveis. Não existia hora, não existia lugar. Se a vontade aparecesse, a gente fazia acontecer. E eu gostava. Gostava daquela adrenalina, gostava de estar perto dele, gostava da forma como ele me olhava, gostava de descobrir aquele homem que ninguém conhecia. Porque Paquetá podia ser c***l com o mundo, podia ser temido, podia ser ignorante, podia carregar aquela postura de homem que ninguém tinha coragem de desafiar. Mas comigo… ele era diferente. Comigo, Paquetá era carinho, era atenção, era cuidado. Era como se eu fosse o universo dele. E talvez esse tenha sido o problema. Eu virei o universo dele. E ele começou a querer também ser o meu universo.
— Vem morar comigo.
No começo, eu não sabia dizer não. Talvez porque eu gostasse dele, talvez porque eu gostasse da vida que ele me proporcionava. Porque, vamos ser sinceros, eu não passava vontade de nada. Ele me dava tudo. Roupas, joias, celular, dinheiro. A melhor vida que eu poderia ter. Se eu queria alguma coisa, ele dava um jeito. Se eu precisava de alguma coisa, ele resolvia. E ele fazia tudo aquilo sorrindo, como se me ver feliz fosse suficiente para deixá-lo feliz também. Eu gostava daquela vida. Mas não amava aquela vida. E, principalmente, eu não amava Paquetá da maneira como ele me amava.
Eu acho que essa foi a maior injustiça que fiz com ele. Porque eu deixei que ele acreditasse. Nunca disse claramente que éramos um casal. Mas também nunca disse que não éramos. Quando ele falava sobre nós, eu deixava. Quando dizia que eu era mulher dele, eu ficava em silêncio. Quando falava sobre família, eu mudava de assunto. Porque dizer a verdade significava perder tudo aquilo que eu tinha. E eu não queria perder.
Só que, aos poucos, a minha liberdade começou a desaparecer. Primeiro foram as perguntas. Depois, os lugares. Depois, as pessoas. Depois, as roupas. Depois, os horários. Tudo tinha uma explicação. Tudo era proteção.
— Lá embaixo eu não consigo proteger você.
— É perigoso.
— Eu não conheço aquelas pessoas.
— Você tem que pensar na nossa relação.
E talvez ele realmente acreditasse que estava me protegendo. Esse era o pior. Ele não enxergava uma prisão. Ele enxergava uma família. Eu enxergava uma gaiola. E quanto mais ele tentava construir aquela vida comigo, mais eu sentia vontade de fugir. Eu queria voar.
Então comecei a fazer escondido aquilo que sabia que não poderia fazer na frente dele. Saía. Ia para boates. Conhecia pessoas. Voltava para casa de madrugada. Dizia que estava na casa de alguma amiga. Inventava histórias. Mentia. E ele perdoava. Sempre perdoava. Até que deixou de ser tão simples. Porque eu sabia que, se ele descobrisse tudo, talvez não existisse perdão. Eu sabia do que Paquetá era capaz. E sabia que, naquele lugar, uma mulher como eu não tinha muitas opções para simplesmente dizer: “Eu não quero mais.”
Eu queria viver. Só isso. Eu queria continuar sendo eu. Até que conheci ele. O policial. Eu não estava procurando por ninguém. Aconteceu. E foi diferente. Eu já tinha ficado com outros homens, já tinha desejado outros homens. Mas aquilo… aquilo foi outra coisa. Foi química. Foi conexão. Foi uma coisa que eu não sabia explicar. Pela primeira vez, eu olhei para alguém e pensei que talvez pudesse existir alguma coisa além de desejo, dinheiro, conforto e adrenalina. Eu me encantei. E isso me assustou. Porque eu já tinha um problema grande demais esperando por mim em casa.
Ainda assim, encontrei aquele policial outras vezes. E naquela noite… eu contei tudo. Contei que estava presa, que Paquetá era obcecado por mim, que eu não sabia como sair, que eu gostava de viver, que gostava de ser livre, que não queria aquela família que ele tinha construído sozinho na cabeça. Eu queria ir embora. Mas não sabia como. Porque, na minha cabeça, nenhuma saída parecia terminar bem. Ele me ouviu. Não tentou decidir por mim. Não me disse o que fazer. E talvez tenha sido exatamente isso que me fez gostar tanto dele. Ele me deixou ser minha.
Quando amanheceu, ele me deixou perto do morro. Eu desci do carro. Olhei para trás. E, por alguns segundos, pensei em não voltar. Pensei em desaparecer. Em pegar minhas coisas e nunca mais olhar para trás. Mas eu sabia que, cedo ou tarde, alguém me encontraria. Então subi. E ele estava lá. Paquetá. Esperando. Quando nossos olhos se encontraram, eu soube que aquela seria a última vez.
Ele veio até mim. Eu estava bêbada, cansada, com medo. Ele me colocou dentro do carro e me levou para casa.
Depois vieram as perguntas. Onde eu estava, com quem, por que tinha desaparecido. Eu fiquei calada. Então ele perguntou:
— Você ficou com alguém?
Eu olhei para ele. E, naquele instante, entendi que não existia resposta capaz de mudar o final daquela história. Se eu dissesse a verdade, eu não sabia o que aconteceria. Se mentisse, continuaria presa. Então eu disse aquilo que deveria ter dito desde o primeiro dia.
— Paquetá… você acha que eu sou sua?
Ele me olhou sem entender. Eu respirei fundo.
— Eu nunca fui sua.
Minha voz tremia. Mas dessa vez eu não recuei.
— Eu sou minha.
O resto aconteceu rápido demais. Um disparo. Depois outro. E tudo acabou.
Eu não sei se existe justiça em uma história como a minha. Não sei se fiz escolhas certas. Não sei se deveria ter procurado outra saída. Talvez existisse uma. Talvez eu simplesmente não tenha conseguido enxergá-la naquela noite. Mas uma coisa eu sabia, eu não queria morrer pertencendo a ninguém. Eu queria ter vivido. Queria ter continuado sendo livre. Queria descobrir até onde aquele sentimento pelo policial poderia chegar. Talvez tivesse sido amor. Talvez tivesse sido apenas a primeira vez em que me senti verdadeiramente vista. Eu nunca vou saber. Porque algumas histórias terminam antes de começar. E a minha terminou naquela sala. Deixando Paquetá vivo. Deixando perguntas sem resposta. E uma única certeza, eu passei a vida inteira tentando escapar de uma gaiola. E, no fim, não consegui sair dela viva.