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928 Words
Além disso, na minha cabeça, certas atitudes simplesmente não combinavam com alguém que estava em um relacionamento. O problema é que Veridiana nunca dizia claramente que nós não tínhamos um relacionamento. Quando eu falava que ela era minha mulher, ela não me corrigia. Quando eu falava sobre nós dois, ela não dizia que não existia um nós. Ela simplesmente continuava. E eu fui acreditando. Durante quase dois anos, eu acreditei. Eu dava tudo para ela, não porque ela pedisse sempre, mas porque eu gostava de vê-la feliz. Uma PCX, roupas de marca, celular novo, salão toda semana, joias, cordões de ouro, anéis. Tudo que ela queria, eu dava. Dinheiro nunca foi problema. Se ela queria alguma coisa, eu resolvia. Eu achava que estava cuidando dela, achava que estava mostrando o quanto ela era importante para mim. Só que, enquanto eu me aproximava cada vez mais, ela parecia se afastar. Quando eu chegava da boca querendo ficar com ela, ela dizia que estava cansada, que queria dormir. Às vezes simplesmente levantava e saía. Começou a desaparecer, ia para lugares que eu não conhecia, dizia que estava na casa de alguma amiga, amigas que eu nunca tinha visto. E quando eu perguntava, ela ficava irritada. Eu também ficava. Principalmente quando começaram a falar. A favela sempre fala. Mas eu nunca gostei que minha vida virasse assunto, muito menos a minha relação. O que mais me deixava puto era ouvir as pessoas falando de Veridiana como se soubessem quem ela era. Diziam que ela não era aquilo que eu pensava, que eu não enxergava a mulher que tinha ao meu lado. Eu odiava ouvir aquilo. Porque, na minha cabeça, eles não conheciam Veridiana. Eu conhecia. Eu tinha dormido com ela, tinha acordado ao lado dela, tinha ouvido seus planos, tinha visto seus medos, tinha colocado meu coração nas mãos dela. Quem eram aquelas pessoas para dizer que eu não sabia quem ela era? Eu não queria acreditar. Até aquela noite. Até o dia em que ela saiu sem me avisar. Eu estava na boca quando percebi que ela não estava em casa. Procurei em todos os cômodos. Nada. Liguei. Nada. Procurei pela favela. Nada. Então fui até o pé do morro. Os rapazes que ficavam ali disseram que tinham visto ela sair. Arrumada, bonita, como se fosse para algum lugar importante. Eu fiquei dentro do carro. Esperando. A madrugada inteira. Não saí dali. Não dormi. Não fui embora. Fiquei esperando ela voltar. Quando o dia começou a clarear, eu finalmente a vi subindo o morro, sozinha, cambaleando, bêbada. E quando ela levantou os olhos e me viu, o rosto dela mudou. Ela se assustou. Eu saí do carro. Naquele momento, eu já não estava pensando direito. Só queria respostas. Coloquei ela dentro do carro e levei para casa. O resto da história eu lembro em pedaços. As perguntas, a raiva, o silêncio dela, a minha voz ficando cada vez mais alta. Até que eu perguntei o que não queria ouvir. — Você ficou com alguém? Ela ficou em silêncio. Eu ainda esperava que ela negasse, que dissesse que eu estava louco, que risse da minha cara, qualquer coisa. Mas ela só me olhou. E então disse: — Paquetá, você acha que eu sou sua? Eu não entendi. Até hoje não sei se conseguiria entender. Ela continuou: — Mas eu não sou sua. Eu sou minha. A arma estava sobre a mesa. Eu vi quando ela pegou. Mas não tive tempo. O estampido tomou a sala. A dor veio depois. Quente, violenta. Meu corpo perdeu a força. A bala tinha atingido meu quadril. Eu caí. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela virou a arma para si. Eu tentei chegar até ela, tentei. Mas não consegui. O segundo disparo ecoou pela sala. E naquele instante, tudo parou. Eu só conseguia olhar para ela. Corri… ou tentei correr. Arrastei o corpo. Não sei nem como cheguei perto. Peguei Veridiana nos braços. Chamei pelo nome dela uma vez, duas, dez. Mas os olhos dela já estavam perdendo a vida. Os batimentos foram desaparecendo. E eu não consegui fazer nada. Nada. Ela morreu ali. Na minha frente. Na minha sala. Nas minhas mãos. E eu fiquei. Essa é a parte que ninguém entende. Ela morreu. Eu sobrevivi. Mas alguma coisa em mim morreu naquele mesmo dia. Até hoje eu me pergunto por quê. Por que ela fez aquilo? Por que chegou naquele ponto? Por que nunca me disse que não queria estar comigo? Às vezes eu penso que ela nunca me amou. Talvez nunca tenha querido nada daquilo. Talvez eu tenha amado sozinho durante todo aquele tempo. Mas eu não sei. E essa é a pior parte, não saber. Porque se eu soubesse que ela nunca me amou, talvez fosse mais fácil aceitar. Ou talvez não. Olhei novamente para a fotografia sobre a estante. Veridiana sorria. O mesmo sorriso que um dia me fez acreditar que eu tinha encontrado a mulher da minha vida. Passei a mão pelo rosto. — Você podia ter ido embora… — Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Eu teria deixado você ir. Mentira. Talvez eu não tivesse deixado. Talvez esse tenha sido o problema desde o começo. Eu queria acreditar que teria. Mas não sei. A única coisa que eu sei é que, depois dela, nunca mais consegui olhar para o amor da mesma forma. E talvez nunca mais consiga. Porque, para mim, sempre foi ela. Eu queria Veridiana. Se não fosse ela… não seria ninguém. Pelo menos era isso que eu acreditava. Até aquele momento.
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