Horas se passaram.
O uísque no meu copo já tinha acabado há muito tempo, mas a queimação no meu estômago só aumentava.
Eu estava sentada no sofá branco, com o notebook no colo, assistindo ao incêndio que eu mesma tinha provocado. A internet estava em chamas.
Meu artigo, "O Coveiro dos Portos: A Tirania Oculta de Juan Tenorio", tinha viralizado. Era o assunto número um no Twitter. Os comentários no site da Gazeta chegavam aos milhares por minuto.
Eram puro ódio digital direcionado ao homem que estava, naquele exato momento, encostado na parede de vidro do outro lado da sala, olhando para a cidade como se fosse o dono dela.
— As ações da Tenorio International caíram 4% no after-market — eu disse, lendo a notificação que pipocou na tela. — O conselho está convocando uma reunião de emergência. A hashtag "ForaTenorio" está nos trending topics.
Fechei o notebook com força.
— Está feito. O mundo te odeia. Eu cumpri minha parte.
Levantei-me, minhas pernas um pouco rígidas por ficar tanto tempo na mesma posição.
— Eu posso ir embora agora?
Juan se virou devagar. Ele tinha tirado a gravata e aberto mais um botão da camisa. Parecia relaxado, quase entediado com o caos que destruía sua reputação lá fora.
— Claro que não.
A resposta foi tão calma que me irritou mais do que se ele tivesse gritado.
— Por quê? — Eu dei um passo à frente, frustrada. — Afinal, você conseguiu negociar com aquele seu... rival ou não? Você disse que pagou o preço. Que o contrato estava cancelado.
— Consegui — ele caminhou até o bar para se servir de mais uma dose. — Os... “Boinas” não são mais o problema.
— Então qual é? Abra a porta, Juan.
— O problema, Lara, é que a notícia por enquanto só está na internet — ele girou o copo na mão, o líquido âmbar capturando a luz fraca da sala. — O mundo digital é rápido, mas o submundo é lento. É físico. A notícia de que você é minha inimiga mortal tem que se espalhar pelas ruas. Pelos becos, pelos portos, pelas bocas dos fofoqueiros que não usam essas redes sociais de adolescentes.
Ele me encarou.
— Isso só vai acontecer pela manhã, quando os jornais impressos chegarem às bancas e a cidade acordar de verdade. Até lá, para qualquer um que não esteja online agora, você ainda é um alvo.
Olhei ao redor da cobertura silenciosa.
— Eu vou ter que dormir aqui? — A pergunta saiu como um lamento.
Juan deu de ombros, indiferente.
— Não é como se eu fosse um completo estranho.
— É pior — eu retruquei, abraçando meu próprio corpo como se sentisse frio. — Você é o Juan Tenorio. Já ouvi falar muito sobre as suas "conquistas". Eu sei como você opera.
Ele sorriu. Aquele sorriso perigoso que ele usou no restaurante, o sorriso que desarmava defesas.
— E ainda assim, me beijou.
Senti meu rosto esquentar. A lembrança do toque dele, da minha resposta ávida no sofá na noite passada, ainda estava viva na minha pele.
— Um erro — disparei. — Um erro que não vai se repetir.
— Vai sim.
A voz dele baixou um tom, tornando-se rouca, vibrante. Ele começou a caminhar na minha direção.
— Vai — ele repetiu. — Porque você sabe que quer. E quer muito.
Eu queria recuar, mas meus pés pareciam chumbados no chão.
Os olhos verdes dele me afetaram de uma maneira que nenhuma lógica conseguia explicar. Ele inteiro me afetava.
À medida que ele se aproximava, era como se ele crescesse diante de mim. A presença dele preenchia o ar, sugando todo o oxigênio. O mundo era apenas ele.
Parecia que suas sombras se desprendiam do corpo e dominavam as paredes, fechando o cerco, escurecendo tudo ao redor até que só houvesse o brilho do seu olhar me prendendo no lugar.
Ele parou a um centímetro de mim. O calor do corpo dele era uma onda física.
Eu não consegui impedir outra vez.
Minha mente gritou "corra", mas meu corpo gritou "fique".
Fechei os olhos e, rendendo-me à gravidade que ele exercia sobre mim, inclinei-me e mergulhei no seu beijo.