Capítulo 11: Don Juan

1203 Words
Eu dirigia com uma mão no volante e a outra no câmbio, forçando o motor ao limite. O velocímetro marcava duzentos e vinte, mas parecia que eu estava parado. As árvores passavam como vultos fantasmagóricos nas laterais da estrada sem iluminação. Duas horas de viagem transformadas em quarenta e cinco minutos de pura adrenalina suicida. O cheiro de Lara Duarte ainda estava impregnado no couro do banco do passageiro. Minutos atrás, aquele cheiro era a única coisa que importava. Agora, parecia uma memória de outra vida. Uma distração fatal. Enquanto eu brincava de caçar uma jornalista na minha torre de marfim, os lobos reais tinham invadido meu quintal. Os portões de ferro da Villa Tenorio surgiram na escuridão. Eles se abriram antes mesmo que eu freasse, meus guardas reconhecendo o ronco do motor. A Villa não era uma casa; era uma fortaleza antiga, construída pelo meu avô com pedra bruta e paranoia. Mas esta noite, a fortaleza tinha falhado. Pisei no freio diante da entrada principal. O carro derrapou no cascalho, parando a centímetros da escadaria. O silêncio era absoluto. Não havia grilos, nem vento. Apenas a quietude pesada da morte. Roca estava me esperando na porta. O capataz, que horas antes tinha recebido a promoção da sua vida no cemitério, agora parecia ter envelhecido dez anos. Ele estava pálido, segurando uma submetralhadora contra o peito. — Don Juan — a voz dele tremeu. Eu saí do carro. O ar da noite rural era frio e úmido. — Onde ele está? — Perguntei, sem parar para cumprimentos. — Na sala de jantar, senhor. Não tocamos em nada. Entrei na casa. O hall de entrada cheirava a cera de madeira e... cobre. Aquele cheiro metálico inconfundível. Sangue. Caminhei rápido pelo corredor, meus passos ecoando no piso de pedra. Roca e dois outros soldados me seguiam em silêncio respeitoso. Entrei na sala de jantar. A cena era exatamente como a foto, mas a realidade tinha uma textura que câmeras não capturavam. O sangue não era apenas uma mancha; era uma poça espessa e escura que absorvia a luz do lustre de cristal. Miguel estava sentado na cabeceira da mesa. O lugar do meu pai. Sua cabeça pendia para trás, presa apenas por tendões e vértebras. O corte na garganta era limpo. Profissional. Cirúrgico. Quem fez isso não sentia raiva; apenas trabalhava. Caminhei até ele, meus sapatos evitando o sangue no tapete persa. Olhei para o peito dele. A boina preta. Uma txapela basca tradicional. Estava presa na carne de Miguel com uma faca de combate militar. E na boca... a moeda. Inclinei-me, ignorando o cheiro da morte. Usei um lenço de bolso para retirar a moeda de entre os dentes frouxos de Miguel. Era pesada. Ferro antigo. De um lado, o brasão de Navarra. Do outro, uma inscrição gasta em Euskara. Um pagamento. Ou um troco. — Os guardas do perímetro? — Perguntei, ainda examinando a moeda. — Mortos, senhor — Roca respondeu, a vergonha transbordando na voz. — Degolados antes que pudessem pegar o rádio. Eles entraram como fantasmas. Eram Bascos, Don Juan. Tenho certeza. A assinatura... — Eu vejo a assinatura, Roca. Eu me virei para o corpo de Miguel. O paletó dele estava aberto. Os bolsos internos, revirados. Um frio gelado desceu pela minha espinha. — Onde está o tablet dele? — Minha voz saiu calma, mas era a calmaria antes da tempestade. — E o celular pessoal? Roca engoliu em seco. — Sumiram, senhor. Levaram tudo. Fechei a mão ao redor da moeda, o metal frio mordendo minha palma. Eles não vieram apenas matar. Vieram colher. Miguel era meu braço direito. No tablet dele estavam as rotas, os nomes dos Jefes de Plaza no Rio de Fevereiro, as contas numeradas... e a minha agenda. Minha agenda recente. Lara. A pesquisa completa sobre Lara Duarte. Endereço. Histórico. O fato de que eu cancelei reuniões para vê-la. O fato de que eu a levei para a minha cobertura. Se Iñaki tinha aquele tablet, ele tinha o mapa do meu império. E tinha o nome da única fraqueza civil que eu permiti entrar na minha vida. — Senhor... — Roca deu um passo à frente, os olhos cheios de fúria vingativa. — Me dê a ordem. Eu reúno trinta homens agora. Vamos queimar o galpão dos Bascos no porto. Vamos caçar Iñaki e trazer a cabeça dele. Olhei para Roca como se ele fosse e******o. — Caçar os Bascos? Em uma guerra aberta? — Eu balancei a cabeça. — Eles são paramilitares, Roca. Eles vivem para a guerrilha. Se você marchar contra eles agora, vai voltar em sacos pretos. — Mas eles mataram Miguel! É uma declaração de guerra! Não podemos parecer fracos! — Não fale como se você entendesse o quadro completo, capataz — eu o silenciei com um olhar. Mirei o corpo de Miguel uma última vez. Um aviso. Isso não foi um ataque aleatório. O Clã Basco trabalha por contrato, mas também tem honra distorcida. Matar um homem sem inimigos e deixar uma moeda... havia uma mensagem ali que eu precisava decifrar antes de atirar no escuro. Guerrear contra os executores de São Pietro, enquanto os outros Dons assistiam, era suicídio. Era exatamente o que meus rivais queriam. — Limpe isso — ordenei, virando as costas para o cadáver. — Mande o corpo para a família dele com uma pensão vitalícia generosa. — E os Bascos? Parei na porta da sala de jantar. — Consiga o canal seguro — eu disse, meus olhos fixos na escuridão do corredor. — Não ameace. Não grite. Não me envergonhe. Apenas envie uma mensagem para Iñaki. — O que devo dizer? — Diga a ele que o pagamento foi recebido — apertei a moeda na minha mão. — E que o Don Tenorio deseja uma audiência. — Uma audiência, senhor? — Roca parecia confuso. — O senhor vai... conversar? — Vou olhar nos olhos dele — respondi. — Quero saber se ele fez isso porque foi pago, ou se fez isso porque eu o ofendi. Se fosse negócio, eu poderia cobrir a oferta. Se fosse pessoal... Pensei em Lara. Pensei no tablet desaparecido. — Marque o encontro. Onde ele quiser. Irei sozinho. Glossário: Txapela (Basco): Pronuncia-se "Tchapéla". É a boina tradicional do País Basco. Mais do que um chapéu, é um símbolo de identidade cultural e nacional para os bascos. No contexto da cena, deixá-la sobre o corpo é uma assinatura clara da autoria do clã. Euskara (Basco): A língua falada pelos bascos. É uma "língua isolada", o que significa que não tem parentesco com nenhuma outra língua conhecida no mundo (não vem do latim como o português ou espanhol). É conhecida por ser extremamente difícil de aprender para forasteiros. Navarra: Uma região histórica no norte da Espanha, intimamente ligada à história e cultura do povo basco. Jefe de Plaza (Espanhol): Literalmente "Chefe da Praça" ou "Chefe de Território". No contexto do crime organizado, uma "plaza" é uma região geográfica estratégica ou uma rota de tráfico específica (como uma cidade ou um porto). O Jefe de Plaza é o comandante regional que tem autoridade absoluta sobre aquela área, controlando todas as operações ilegais nela e respondendo diretamente ao alto comando do Clã.
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