A Torre Tenorio era onde o trabalho legalizado ocorria, um formigueiro de burocracia que mantinha a fachada limpa do meu império. Mas o último andar... a cobertura era o meu santuário.
Eficiente, eu diria. Evitava que eu pegasse um trânsito tedioso para um trabalho tedioso.
Ao menos a parte oculta que eu herdei - os portos noturnos, as rotas de contrabando, o peso do título de Don - era mais interessante. Mortalmente excitante.
Só não me deixava mais e******o do que a mulher que subia o elevador comigo.
Sozinhos de novo naquele cubo de metal, o cheiro dela me provocava. Era uma mistura de medo, chuva distante e aquele perfume natural que tinha ficado gravado na minha memória desde o sofá.
Lara não se movia. Nem olhava para mim. Ela estava rígida, os olhos fixos na porta de aço, aceitando a meia-verdade de tudo o que eu tinha dito no carro.
Inimigos corporativos. Espionagem industrial. Sequestro por alavancagem.
Ela acreditou. Ela precisava acreditar.
Ela não podia saber que eu era o Don de São Pietro. Não podia saber que a família Tenorio era o Clã que controlava um império de sangue nas sombras.
Se eu contasse a verdade, seriam duas condenações.
Primeira: ela teria que morrer. La Ley del Silencio não perdoava civis que sabiam demais. Não havia escapatória. Segunda: eu quem teria que matá-la.
O pensamento fez meu estômago revirar. Eu já tinha matado antes. Era parte do trabalho. Mas a ideia de apagar a luz naqueles olhos castanhos teimosos era... inaceitável.
Então, sim. O homem da boina era "só um assassino de algum rival da minha empresa". Para ela, eu era apenas Juan. Nada de Don no início.
E agora, ela escreveria a matéria que iria salvá-la, destruindo o Juan para proteger o Don. Mas principalmente a si mesma.
O elevador se abriu suavemente.
Eu digitei a senha no painel biométrico e as luzes da cobertura se acenderam, revelando a gaiola de vidro com vista para a cidade. O cenário do nosso crime não consumado.
— Você pode ficar à vontade — eu disse, jogando as chaves do carro sobre a mesa. — A cobertura é sua. Só não esvazie a geladeira.
Ela me lançou um olhar cansado.
— Fala sério, Juan. Eu não vou mexer em nada.
— Pode escrever a matéria no meu computador se quiser — apontei para o escritório. — Use a VPN. É segura.
— De jeito nenhum — ela cruzou os braços, protegendo-se. — Tenho o meu próprio laptop na bolsa.
Eu me aproximei. Devagar.
Minha voz saiu branda, mas carregada de autoridade.
— O que eu disse é sério, Lara. Não tente sair daqui. Não abra a porta para ninguém. Vou deixar a tranca eletrônica ativada por fora.
Os olhos dela se arregalaram.
— O quê? Espera... você vai sair? Vai me deixar sozinha?
— Sim.
Cheguei perto dela. Perto o bastante para sentir o calor que irradiava da sua pele, uma memória viva da última noite.
Ela estava tão linda. Mesmo descabelada, mesmo assustada. Aquela roupa de jornalista profissional acentuava exatamente o que ela tentava esconder: a cintura fina, a curva perigosa dos quadris largos e os s***s bem empinados, subindo e descendo com a respiração acelerada, apontando para o meu peito como um convite.
Quantos pecados eu queria cometer com aquela mulher...
E quantos pecados eu abandonaria por Lara Duarte.
Tudo por causa de uma noite em que não passamos dos beijos e do calor do desejo. Era irracional. Era e******o. E era a única coisa real que eu sentia desde a morte do meu pai.
— E o que você vai fazer? — A pergunta dela quebrou meu encantamento.
Eu pisquei, afastando a névoa da luxúria. O que era estranho... eu quem costumava causar esse efeito nas mulheres, não o contrário.
Voltei à realidade. À guerra.
— Vou conversar com o homem que te colocou em perigo — respondi, checando o relógio. — Temos uma reunião dentro de poucos minutos.
— Isso não é perigoso? — A voz dela falhou um pouco. — Ele pode tentar te matar.
— Pode — dei de ombros, a arrogância voltando ao seu lugar. — Mas vai mudar de ideia quando eu abrir a carteira. Todo homem tem um preço, Lara. Até os monstros.
Eu me inclinei. Ela não recuou.
Pousei meus lábios na testa dela. Um beijo casto, rápido, mas que selava uma promessa silenciosa de que eu voltaria.
— Fique bem. Por mim.
Sem esperar resposta, virei as costas e caminhei para o elevador. Eu tinha um encontro com o d***o.
Glossário:
La Ley del Silencio (Espanhol): A "Lei do Silêncio". É o código de conduta absoluto dentro dos clãs criminosos de origem espanhola e galega. Semelhante à Omertà italiana, essa regra proíbe estritamente qualquer cooperação com a polícia, juízes ou autoridades governamentais. Revelar segredos do Clã ou delatar um m****o é a traição suprema, punida invariavelmente com a morte.