Capítulo 16: Lara Duarte

902 Words
A página em branco brilhava na tela do notebook novo, uma luz azulada e fria que ardia nos meus olhos. Eu andava de um lado para o outro na sala gigantesca, o som dos meus saltos no piso de mármore ecoando como um relógio em contagem regressiva. Tentei comer uma maçã que peguei na cozinha de chef do Juan, mas o pedaço desceu arranhando pela minha garganta. Eu não conseguia engolir. Nem a comida, nem a situação. Voltei para a mesa de vidro. A mesma mesa onde, horas atrás, ele me mostrou o futuro de São Pietro. Um futuro limpo, justo, eficiente. Agora, eu tinha que assassinar esse futuro. Sentei-me e coloquei os dedos no teclado. Minhas mãos tremiam, não de medo, mas de uma raiva impotente. Ele tinha me encurralado. Para me salvar de um inimigo sem rosto, eu tinha que destruir a única coisa que ele parecia valorizar além do dinheiro: o legado dele. Respirei fundo e comecei a digitar. Não a verdade. A mentira que o mundo esperava. Transformei a eficiência dele em tirania. A reestruturação logística virou "demissão em massa". O fundo de proteção aos pequenos comerciantes? Eu nem mencionei. Em vez disso, escrevi sobre como a Tenorio International estava sufocando a concorrência para criar um monopólio absoluto. As palavras fluíam com uma facilidade assustadora. Eu sabia exatamente quais botões apertar para deixar o público furioso. "Juan Tenorio não é um salvador; é o coveiro dos nossos portos." "Enquanto a cidade dorme, o novo CEO planeja transformar a baía de São Pietro em seu quintal privado, onde a única lei é o lucro acima da vida." Era venenoso. Era brilhante. Era falso. O bipe suave do elevador me fez pular na cadeira. O painel biométrico piscou em verde e as portas de aço se abriram. Juan entrou. Ele parecia... diferente. A camisa social estava amassada, as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços tensos. Ele trouxe consigo uma lufada de ar quente da tarde e um cheiro sutil, mas inconfundível, de perigo. Ele não parecia o CEO que saiu daqui. Parecia o homem que tinha ido encontrar o d***o e voltado vivo. Ele me viu na mesa. Seus olhos verdes varreram meu rosto, procurando... o quê? Medo? Gratidão? Ele não disse "eu te salvei". Não disse "está tudo bem". Ele caminhou até o bar, serviu dois copos de uísque âmbar e bebeu um gole longo do dele antes de se virar para mim. — Está pronto? — A voz dele era rouca. — Quase — minha voz saiu pequena. Eu me senti suja. Ele tinha ido lá fora, arriscado o pescoço para pagar pela minha segurança, e eu estava aqui, no conforto do ar-condicionado dele, digitando sua sentença de morte social. Juan caminhou até mim. Ele parou atrás da minha cadeira. Senti o calor do corpo dele irradiar contra as minhas costas, um eco fantasma do momento em que ele me prensou contra o vidro. Ele se inclinou, apoiando uma mão na mesa e a outra no encosto da minha cadeira, criando uma gaiola com seu corpo enquanto lia a tela por cima do meu ombro. Prendi a respiração. Esperei a raiva. Esperei que ele dissesse que eu tinha ido longe demais. Mas então, ele riu. Um som baixo, grave, que vibrou no peito dele e passou para o meu. Não era uma risada de escárnio. Parecia... genuína. — "O coveiro dos nossos portos." — Ele leu em voz alta, o hálito quente roçando na minha orelha. — Você escreve bem, Duarte. Muito bem. Quase me convenceu de que sou esse infeliz. Virei o rosto para olhá-lo. Nossos narizes quase se tocaram. — Você é — tentei manter a barreira, tentei lembrar da arma no carro, da frieza dele. — Um homem bom não precisaria disso. O sorriso dele não vacilou, mas seus olhos endureceram um pouco. — Um homem bom estaria morto, Lara. E você também. Ele se endireitou, quebrando a proximidade, e eu senti frio onde ele estava antes. — Ótimo — ele apontou para a tela. — Publique. Envie para o seu editor agora. Quero acordar amanhã sendo o homem mais odiado do Brasil. Minha mão pairou sobre o notebook. O cursor estava em cima do botão "Enviar". Era isso. O ponto sem retorno. Se eu clicasse, eu estaria segura. Mas estaria vendendo minha integridade e destruindo a dele. Olhei para ele uma última vez. Ele estava encostado no bar, girando o copo de uísque, esperando. Ele parecia solitário. E invencível. Fechei os olhos e cliquei. Enviado. O som de notificação do e-mail pareceu um tiro na sala silenciosa. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Meus ombros caíram. Estava feito. Juan pegou o segundo copo de uísque, aquele que ele tinha servido e deixado no balcão. Ele caminhou até mim e o estendeu. — Beba — ele ordenou, suavemente. — Você vai precisar. Peguei o copo. Nossos dedos se roçaram, e a eletricidade estava lá, viva, ignorando toda a lógica, todo o perigo e todas as mentiras que eu acabara de contar. Ele ergueu o copo dele em um brinde zombeteiro. — Ao Monstro de São Pietro — ele disse. — A você — eu confirmei, sentindo o gosto amargo da traição na minha boca antes mesmo de o álcool tocar minha língua. Bebemos. O pacto estava selado. E eu nunca tinha me sentido tão segura e tão perdida ao mesmo tempo.
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