Acordei com uma pontada aguda no ombro esquerdo.
Não foi o despertador, nem o sol da tarde que banhava o quarto através das cortinas entreabertas. Foi a dor. O curativo que Lara havia feito estava firme, mas a pele queimada protestava contra o tecido do lençol.
Sentei-me na cama, passando a mão pelo rosto. Duas horas. Foi tudo o que meu corpo me permitiu de descanso. O suficiente para tirar a areia dos olhos, mas não o peso da consciência.
Levantei-me e vesti uma camisa limpa, preta, abotoando-a com cuidado para não repuxar o ferimento.
Saí do quarto.
Lara estava exatamente onde eu a deixara. Sentada à mesa de vidro, os olhos fixos na tela do notebook, os dedos voando sobre o teclado.
Ela não olhou para mim quando entrei na sala. A barreira invisível estava de volta, fortificada pelo silêncio e pelo beijo que quase aconteceu.
Ignorei a presença dela e fui até o balcão onde deixei meu celular seguro.
A luz de notificação pulsava em vermelho.
Desbloqueei a tela. Havia uma única mensagem no canal criptografado do Clã.
"Reunião de Emergência. Villa Tenorio. 16h00."
Estreitei os olhos.
Eu não havia convocado reunião nenhuma.
Verifiquei o remetente. Era anônimo, disparado para todos os Capatazes restantes e Jefes de Plaza.
Meus dentes trincaram.
No meu mundo, convocar uma reunião sem a ordem do Don é um ato de insubordinação. Ou de pânico absoluto.
Eu sabia quem tinha marcado aquilo. Os velhos. Os homens que serviram ao meu pai por décadas e que agora, vendo caminhões explodirem e manchetes de jornal destruírem nossa fachada, estavam mijando nas calças de medo.
Eles queriam respostas. Queriam saber se o "menino" sabia o que estava fazendo.
Olhei para o relógio. Eu tinha tempo o bastante para não chegar atrasado.
Peguei as chaves do Audi.
— Aonde você vai? — A voz de Lara me parou no meio do caminho. Ela finalmente tinha parado de digitar.
— Trabalhar — respondi, seco. — O serviço de quarto vai trazer seu almoço. Seu café da tarde, sua janta... o que você precisar. Não abra a porta para mais ninguém.
— Juan... — Ela começou, mas eu já estava dentro do elevador. As portas se fecharam, cortando a imagem dela preocupada.
Melhor assim. Eu precisava de foco.
A viagem até a Villa Tenorio foi rápida. O trânsito da tarde fluía no sentido contrário, saindo da zona rural.
Quando os portões de ferro da propriedade surgiram, senti o gosto amargo na boca. A Villa era o mausoléu da minha família.
O lugar onde cresci ouvindo gritos abafados vindos do porão e onde vi meu pai envelhecer sob o peso da coroa. E, mais recentemente, o lugar onde Miguel foi degolado.
Estacionei o carro na entrada principal.
Havia outros carros ali. Sedãs pretos, blindados, pertencentes aos Capatazes. Eles já tinham chegado. Aparentemente, não era só eu que queria chegar cedo.
Ótimo. Eu entraria por último, não como um convidado, mas como o dono da casa que chega para disciplinar os cães.
Subi a escadaria de pedra, ajeitando o coldre sob o paletó.
Os guardas na porta - novos, contratados hoje de manhã para substituir os mortos - abriram passagem sem dizer uma palavra. O medo neles era palpável.
Caminhei pelo corredor principal. O cheiro de cera e madeira antiga ainda estava lá, mas o cheiro de sangue tinha sido lavado com água sanitária e lavanda.
Cheguei à porta dupla da biblioteca, o local tradicional das reuniões do Consiglio.
Empurrei as portas com as duas mãos, entrando com o queixo erguido, pronto para encarar os olhares de dúvida dos meus subordinados. Pronto para falar, para impor minha vontade, para lembrar a eles quem mandava.
Mas eu parei.
A sala estava cheia. Os cinco Capatazes principais estavam lá, de pé, tensos, segurando seus chapéus nas mãos como colegiais em apuros.
Eles não estavam olhando para mim. Estavam olhando para a cabeceira da mesa.
Para a cadeira do Don.
Ela não estava vazia.
Sentada no trono de couro alto, com a postura de uma rainha exilada, estava minha mãe.
Carmen Tenorio.
Ela vestia preto total, um luto que nela parecia uma armadura de combate. Seus cabelos escuros estavam presos num coque severo, puxando a pele do rosto e destacando aqueles olhos verdes como o mar - os mesmos que ela me deu, mas nela, pareciam desprovidos de qualquer misericórdia.
Ela segurava uma taça de vinho tinto com uma mão, e na outra, um cigarro fino fumegava entre seus dedos cheios de anéis.
Os Capatazes estavam em silêncio absoluto. Eles tinham medo de mim, sim. Mas eles tinham pavor dela.
Eu pensei que seria o primeiro a impor a ordem. Eu estava enganado.
— Você está atrasado, Juan — ela disse, a voz suave cortando o silêncio da sala como uma navalha de seda.
— Eu não convoquei esta reunião, mãe — respondi, caminhando até a outra ponta da mesa, recusando-me a parecer intimidado diante dos meus homens.
— Eu sei — ela tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente em direção ao teto alto. — Mas alguém precisava fazê-lo. Já que o Don estava ocupado demais brincando de guerra nas estradas e de casinha na cobertura.
Os homens baixaram os olhos. Ela sabia. Ela sabia de tudo.
Carmen Tenorio não estava ali para servir chá. Ela estava ali para garantir que o império que ela ajudou a construir não desmoronasse nas mãos do filho que ela amaldiçoou.