O restaurante era o melhor de São Pietro. Francês, claro. O tédio da elite de São Pietro é sua falta de imaginação. O silêncio no salão era uma forma de poder, quebrado apenas pelo tilintar discreto de talheres de prata contra a porcelana.
Eu não odeio comida francesa. Eu odeio a espera.
Então, ela chegou.
Atrasada.
Vinha apressada, o rosto levemente corado, o que denunciava que ela correu. Usava um vestido preto simples, de corte reto. Provavelmente o melhor que tinha no armário.
E, com toda certeza, mais barato que a garrafa de vinho que eu já havia pedido para a mesa.
Mas ela estava bonita.
O cabelo escuro estava preso, o rosto com o mínimo de maquiagem, deixando os olhos castanho-claros brilharem. Ela se aproximou, e minha análise foi instantânea.
Tinha s***s pequenos, discretos, mas o vestido não conseguia esconder a curva de um quadril largo.
Um quadril que seria... interessante de assistir em um movimento de cavalgada.
Ela me viu. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, tocou seus lábios. Ela endireitou a postura e caminhou até a minha mesa.
Eu me levantei, um gesto de cortesia mecânica. Meu pai me ensinou que a educação é a primeira arma da intimidação.
— Boa noite, querida.
Ela parou, a um metro de mim. O sorriso desapareceu.
— Não me chame de querida. Meu nome é Lara Duarte.
Eu parei por um segundo. A voz dela não tinha hesitação. Apenas aço frio. Ela era tão bruta quanto sua beleza.
Sim. Completamente adorável.
O atraso não foi um acidente. Foi uma declaração. Ela não se desculpou. Ela estava traçando uma linha, construindo uma muralha entre nós.
Jornalistas. Repórteres. Tinham um jeito próprio e fascinante de usar as palavras, de usar a língua como ninguém.
— Prazer, Lara Duarte — eu disse, dando meu melhor sorriso após ter minha gentileza cortada. — Creio que não preciso me apresentar.
Ela ignorou minha mão estendida. Ignorou a cadeira que eu estava prestes a puxar para ela.
Lara se sentou sozinha, de frente para mim, e colocou a bolsa no colo. Um gesto direto, que deixava claro que estar ali, comigo, era o mesmo que perder seu tempo.
Ela estava me ganhando.
Eu me sentei no meu lugar, observando-a. Ela era jovem, mas não era ingênua. Ela sabia como sobreviver entre leões.
Não foi por acaso que ela furou a segurança no enterro do meu pai.
— Claro que não precisa se apresentar, Senhor Tenorio — ela disse, a voz perfeitamente nivelada. — Seu nome está correndo por São Pietro. Aparecendo em toda televisão, escutado por cada família.
— Por favor. Me chame de Juan.
Ela me deu um olhar que dizia que eu podia ir para o inferno.
Que delícia.
Lara abriu a bolsa, tirou um pequeno gravador digital e o colocou sobre a toalha de linho, exatamente entre nós dois.
Apertou o botão. A pequena luz vermelha brilhou.
— Senhor Tenorio, sabemos que a Tenorio International é acusada há anos de usar táticas de monopólio predatório para esmagar os pequenos comerciantes dos portos. A sua gestão será apenas uma continuação da força-bruta do seu pai, ou o cidadão de São Pietro pode esperar alguma transparência?
Era a mesma pergunta. A exata pergunta do lobby, palavra por palavra. Ensaiada.
Eu sorri. A coragem dela. A tranquilidade absoluta enquanto me desafiava.
Isso fazia meu coração bater mais rápido.
— Você vai insistir mesmo nesse assunto?
— O que o senhor esperava? — Ela retrucou. — Marcamos a conversa. Estamos jantando.
— Nem olhamos o cardápio ainda — inclinei-me para a frente. — E a ideia era um encontro casual. Foi isso que eu quis dizer com "extraoficial".
A mandíbula dela se contraiu.
— Então o senhor não tem nada para mim?
Ela ameaçou desligar o gravador e se levantar.
— Espere um pouco — minha voz a parou. — Sente-se. Vamos pedir uma entrada.
Ela me encarou, os olhos estreitos, calculando.
— Talvez — eu disse, baixando o tom, tornando-o íntimo —, se nos conhecermos melhor... eu confie o bastante em você para responder as suas perguntas sobre os negócios.
Ela suspirou, um som de pura frustração. Olhou em direção à saída, como se medisse a distância. Mas, no final, voltou-se a se sentar e cruzou os braços. A muralha estava de volta.
O garçom, sentindo a mudança na tensão, materializou-se ao nosso lado.
— De entrada, eu vou querer... — Lara disse, sem nem olhar para mim, e muito menos para o cardápio. — O Escargot de Bourgogne e uma taça do Sancerre.
Eu congelei.
Ela não apenas pediu, ela pediu com a confiança de quem conhece a adega. Ela não estava intimidada pelo restaurante, pelo preço, ou por mim.
Ela já havia comido naquele lugar antes.
A mulher idealista que eu trouxe para o meu mundo... já estava nele.
Era como se eu estivesse sendo caçado.
Glossário:
Escargot de Bourgogne (Francês): Prato tradicional da culinária francesa. Consiste em caracóis (escargots) preparados com manteiga de alho e salsa, geralmente servidos na própria casca.
Sancerre (Francês): Um vinho branco seco e muito apreciado, produzido na região de Sancerre, no Vale do Loire, na França. É famoso por sua acidez nítida e notas minerais.