Capítulo 5: Don Juan

868 Words
O restaurante era o melhor de São Pietro. Francês, claro. O tédio da elite de São Pietro é sua falta de imaginação. O silêncio no salão era uma forma de poder, quebrado apenas pelo tilintar discreto de talheres de prata contra a porcelana. Eu não odeio comida francesa. Eu odeio a espera. Então, ela chegou. Atrasada. Vinha apressada, o rosto levemente corado, o que denunciava que ela correu. Usava um vestido preto simples, de corte reto. Provavelmente o melhor que tinha no armário. E, com toda certeza, mais barato que a garrafa de vinho que eu já havia pedido para a mesa. Mas ela estava bonita. O cabelo escuro estava preso, o rosto com o mínimo de maquiagem, deixando os olhos castanho-claros brilharem. Ela se aproximou, e minha análise foi instantânea. Tinha s***s pequenos, discretos, mas o vestido não conseguia esconder a curva de um quadril largo. Um quadril que seria... interessante de assistir em um movimento de cavalgada. Ela me viu. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, tocou seus lábios. Ela endireitou a postura e caminhou até a minha mesa. Eu me levantei, um gesto de cortesia mecânica. Meu pai me ensinou que a educação é a primeira arma da intimidação. — Boa noite, querida. Ela parou, a um metro de mim. O sorriso desapareceu. — Não me chame de querida. Meu nome é Lara Duarte. Eu parei por um segundo. A voz dela não tinha hesitação. Apenas aço frio. Ela era tão bruta quanto sua beleza. Sim. Completamente adorável. O atraso não foi um acidente. Foi uma declaração. Ela não se desculpou. Ela estava traçando uma linha, construindo uma muralha entre nós. Jornalistas. Repórteres. Tinham um jeito próprio e fascinante de usar as palavras, de usar a língua como ninguém. — Prazer, Lara Duarte — eu disse, dando meu melhor sorriso após ter minha gentileza cortada. — Creio que não preciso me apresentar. Ela ignorou minha mão estendida. Ignorou a cadeira que eu estava prestes a puxar para ela. Lara se sentou sozinha, de frente para mim, e colocou a bolsa no colo. Um gesto direto, que deixava claro que estar ali, comigo, era o mesmo que perder seu tempo. Ela estava me ganhando. Eu me sentei no meu lugar, observando-a. Ela era jovem, mas não era ingênua. Ela sabia como sobreviver entre leões. Não foi por acaso que ela furou a segurança no enterro do meu pai. — Claro que não precisa se apresentar, Senhor Tenorio — ela disse, a voz perfeitamente nivelada. — Seu nome está correndo por São Pietro. Aparecendo em toda televisão, escutado por cada família. — Por favor. Me chame de Juan. Ela me deu um olhar que dizia que eu podia ir para o inferno. Que delícia. Lara abriu a bolsa, tirou um pequeno gravador digital e o colocou sobre a toalha de linho, exatamente entre nós dois. Apertou o botão. A pequena luz vermelha brilhou. — Senhor Tenorio, sabemos que a Tenorio International é acusada há anos de usar táticas de monopólio predatório para esmagar os pequenos comerciantes dos portos. A sua gestão será apenas uma continuação da força-bruta do seu pai, ou o cidadão de São Pietro pode esperar alguma transparência? Era a mesma pergunta. A exata pergunta do lobby, palavra por palavra. Ensaiada. Eu sorri. A coragem dela. A tranquilidade absoluta enquanto me desafiava. Isso fazia meu coração bater mais rápido. — Você vai insistir mesmo nesse assunto? — O que o senhor esperava? — Ela retrucou. — Marcamos a conversa. Estamos jantando. — Nem olhamos o cardápio ainda — inclinei-me para a frente. — E a ideia era um encontro casual. Foi isso que eu quis dizer com "extraoficial". A mandíbula dela se contraiu. — Então o senhor não tem nada para mim? Ela ameaçou desligar o gravador e se levantar. — Espere um pouco — minha voz a parou. — Sente-se. Vamos pedir uma entrada. Ela me encarou, os olhos estreitos, calculando. — Talvez — eu disse, baixando o tom, tornando-o íntimo —, se nos conhecermos melhor... eu confie o bastante em você para responder as suas perguntas sobre os negócios. Ela suspirou, um som de pura frustração. Olhou em direção à saída, como se medisse a distância. Mas, no final, voltou-se a se sentar e cruzou os braços. A muralha estava de volta. O garçom, sentindo a mudança na tensão, materializou-se ao nosso lado. — De entrada, eu vou querer... — Lara disse, sem nem olhar para mim, e muito menos para o cardápio. — O Escargot de Bourgogne e uma taça do Sancerre. Eu congelei. Ela não apenas pediu, ela pediu com a confiança de quem conhece a adega. Ela não estava intimidada pelo restaurante, pelo preço, ou por mim. Ela já havia comido naquele lugar antes. A mulher idealista que eu trouxe para o meu mundo... já estava nele. Era como se eu estivesse sendo caçado. Glossário: Escargot de Bourgogne (Francês): Prato tradicional da culinária francesa. Consiste em caracóis (escargots) preparados com manteiga de alho e salsa, geralmente servidos na própria casca. Sancerre (Francês): Um vinho branco seco e muito apreciado, produzido na região de Sancerre, no Vale do Loire, na França. É famoso por sua acidez nítida e notas minerais.
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