Capítulo 12: Lara Duarte

1043 Words
A tela em branco do computador parecia zombar de mim, assim como fazia com qualquer escritor que não sabia por onde começar a escrever. Ao meu redor, a redação da Gazeta de São Pietro era o caos habitual. Telefones tocando, teclados sendo espancados, o cheiro permanente de café queimado e cigarro barato impregnado no carpete. Era o meu mundo. O mundo da verdade suja e m*l iluminada. Mas, pela primeira vez, eu não conseguia escrever uma linha. — Cadê a matéria, Duarte? — A voz de Gerson, meu editor-chefe, explodiu atrás de mim. Ele jogou uma pilha de papéis na minha mesa, fazendo minha caneca balançar. — O prazo é para o meio-dia. "O Novo Tirano dos Portos". Cadê? Eu encarei o título provisório que ele sugeriu. Tirano. Ontem, eu teria escrito isso com prazer. Teria dissecado Juan Tenorio como um playboy mimado que herdou um império de corrupção. Mas eu vi os planos. Eu vi os gráficos na tela do notebook dele, enquanto ele me prensava contra o vidro. Eu vi a reestruturação logística que protegeria os pequenos comerciantes. Eu vi a inteligência por trás daqueles olhos verdes arrogantes. — É mais complicado do que pensávamos, Gerson — eu disse, girando a cadeira. — Ele não é só um herdeiro i****a. Ele tem um projeto real de revitalização. Se publicarmos que ele é um monstro agora, e ele soltar esses planos semana que vem, vamos parecer amadores. Gerson soltou uma risada asmática. — "Projeto real"? — Ele se inclinou, o cheiro de tabaco invadindo o meu espaço. — Duarte, você foi lá para arrancar a cabeça dele, e voltou defendendo o pescoço? O que aconteceu naquela cobertura? Ele te serviu champanhe e te encantou? Meu rosto esquentou. Se ele soubesse que quase fui... servida no sofá dele... — Eu sou uma jornalista — retruquei, mais alto do que pretendia. — Eu relato fatos. E o fato é que a história do monopólio predatório pode estar errada. — Fatos não vendem jornal, Lara. Escândalos vendem. Vilões vendem — ele bateu o dedo na minha mesa. — Escreva a maldita matéria. Ou eu coloco o estagiário para escrever e você volta a cobrir buraco de rua na zona leste. Ele se afastou, gritando com outro repórter. Eu bufei, empurrando o teclado para longe. Eu precisava de ar. Precisava de cafeína decente e de cinco minutos sem pensar na boca de Juan Tenorio ou na ética duvidosa da minha própria carreira. Peguei minha bolsa e saí da redação, descendo as escadas para a rua movimentada do centro. O sol do meio-dia em São Pietro era fraco, filtrado pela poluição eterna que cobria a cidade como uma redoma cinza. Caminhei até a cafeteria da esquina, a mente girando. Eu deveria escrever a verdade? Ou a verdade que Gerson queria? E por que, em nome de Deus, eu ainda sentia o toque fantasma do polegar de Juan na minha bochecha? Parei na faixa de pedestres, esperando o sinal fechar. Foi quando eu senti. Aquela sensação primitiva na base da nuca. O arrepio que diz que você não está sozinha, mesmo no meio de uma multidão. Alguém estava me observando. Olhei para o outro lado da avenida. Havia dezenas de pessoas. Executivos apressados, camelôs, estudantes. Mas meus olhos, treinados para observar detalhes, pousaram em um homem parado encostado na fachada de uma loja fechada. Ele não estava olhando para o celular. Não estava esperando um ônibus. Ele estava olhando para mim. Ele vestia uma jaqueta militar verde-oliva, velha e surrada, e calças cargo. Mas o que chamou minha atenção foi o que ele tinha na cabeça. Uma boina preta. Achatada, puxada para um lado. Ele não desviou o olhar quando nossos olhos se encontraram. Pelo contrário. Ele desencostou da parede. O rosto dele era uma máscara de pedra, sem expressão, sem humanidade. O sinal abriu para os pedestres. A multidão começou a atravessar. O homem da boina começou a andar. Não na direção do fluxo, mas cortando-o. Vindo diretamente para mim. Meu instinto de jornalista desligou, dando lugar ao de sobrevivência. Eu recuei, esbarrando em uma senhora atrás de mim. — Ei, olha por onde anda, cacet3! Ignorei. Girei nos calcanhares e comecei a andar rápido na direção oposta, voltando para a segurança do prédio do jornal. Olhei por cima do ombro. O homem tinha acelerado o passo. Ele não estava correndo, mas suas passadas eram largas. Ele estava diminuindo a distância. Meu coração martelou contra as costelas. Quem era ele? Segurança dos portos? Algum comerciante falido? Ou... algo pior? Eu estava a dez metros da entrada do jornal quando ouvi o som. Não foi um grito. Foi o rugido de um motor sendo forçado ao limite, seguido pelo grito agudo de pneus sendo torturados contra o asfalto. Um carro preto subiu na calçada a meio metro de mim, bloqueando meu caminho com uma violência que me fez gritar e pular para trás. Eu conhecia aquele carro. O Audi R8. A porta do passageiro foi aberta com um empurrão brutal de dentro. — Entre! Não era um convite. Era uma ordem. Juan Tenorio estava no volante. Mas não era o Juan da cobertura. Ele não usava terno. Vestia uma camisa preta de mangas longas, o rosto tenso, os olhos verdes varrendo a rua com uma ferocidade que me gelou. E, no console central, entre os bancos de couro, havia uma pistola preta fosca. — O que... você está louco? — Eu gaguejei, o choque me paralisando. — Se você quer viver para escrever a sua matéria, entre na p0rra do carro, Lara! — Ele rugiu, a voz carregada de uma urgência que não admitia hesitações. Ele olhou para algo atrás de mim. Eu me virei. O homem da boina preta tinha parado a cinco metros de distância. Ele não parecia assustado com o carro. Ele enfiou a mão dentro da jaqueta, sacando algo metálico. O tempo parou. Eu não pensei. Eu me joguei para dentro do Audi. Antes mesmo que eu fechasse a porta, Juan pisou no acelerador. O carro deu um solavanco violento, os pneus cantando no concreto enquanto ele nos jogava de volta para a avenida, cortando o trânsito e desaparecendo no fluxo de carros, deixando o homem da boina para trás na fumaça dos pneus.
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