Capítulo 13: Lara Duarte

1111 Words
Juan dirigia como se estivesse fugindo do próprio inferno. Ou talvez estivesse nos levando para lá. O motor do Audi rugia, um som grave e furioso que vibrava nos meus ossos, competindo com as batidas descompassadas do meu coração. Minhas mãos estavam agarradas ao cinto de segurança, os nós dos dedos brancos. Mas meus olhos não estavam na estrada. Estavam no console central. Na arma. Preta, fosca, pesada. Uma ferramenta de morte descansando casualmente entre nós, ao lado de um suporte de copos vazio. Ele sempre andava com aquilo? — Quem... — Minha voz falhou. Tentei de novo, forçando o jornalismo a superar o pânico. — Quem era aquele homem? Juan não olhou para mim. Seus olhos verdes estavam fixos no trânsito, varrendo os retrovisores a cada três segundos. O maxilar dele estava travado, um músculo saltando sob a pele barbeada. — Ninguém com quem você queira conversar. — Ele estava me esperando — a bile subiu na minha garganta. — Ele sabia quem eu era. Ele ia... — Ele ia te colocar em um carro, Lara. E você nunca mais seria vista. A frieza na voz dele me gelou mais do que o ar-condicionado. — Por quê? — Eu gritei, a histeria borbulhando. — Eu sou uma jornalista! Eu escrevo sobre portos e sindicatos! Por que alguém iria querer me sequestrar no meio da Avenida Central? Juan fez uma curva brusca, os pneus cantando protesto, entrando em uma via expressa. Ele finalmente relaxou a postura, apenas um pouco, como se tivesse certeza de que não estávamos sendo seguidos. — Porque eles acham que você é minha. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu olhei para ele, boquiaberta. — O quê? — Ontem à noite — ele começou, a voz baixa e controlada. — Minha segurança pessoal foi comprometida. Informações foram roubadas. Meu tablet, minha agenda, meus arquivos de pesquisa. Ele bateu a mão no volante. — Eles sabem que eu pesquisei você. Sabem que cancelei reuniões da diretoria para descer ao lobby. Sabem que a levei para a minha cobertura e que ficamos lá por... alguns minutos. Eu me encolhi. A lembrança do sofá, do calor, da minha fuga... agora parecia uma sentença de morte. — Eles acham que você é importante para mim — Juan continuou, sem piedade. — E meus inimigos não têm escrúpulos. Se eles acham que você é uma fraqueza minha, eles vão usá-la para me atingir. — Inimigos? — Eu soltei uma risada nervosa. — Que tipo de CEO tem inimigos que sequestram mulheres na rua, Juan? Que tipo de "negócios" você realmente faz? Ele freou no sinal vermelho, virando-se para mim. Pela primeira vez, vi a verdade nos olhos dele. Não havia charme. Não havia sedução. Havia apenas um abismo escuro e perigoso. — O tipo de negócio que mantém essa cidade funcionando. E o tipo que mata quem faz perguntas estúpidas. Eu recuei contra a porta, meu sangue gelando. A arma no console parecia brilhar. — Você é um criminoso — não foi uma pergunta. — Eu sou um homem que protege o que é dele — ele retrucou. — E agora, infelizmente, eu tenho que proteger você. — Eu não quero sua proteção! Eu vou para a polícia! — A polícia? — Ele riu. — Aquele homem na calçada teria atirado em dois policiais antes de tomar o café da manhã. Se você for para a polícia, você morre. Se for para casa, você morre. Se for para o jornal, coloca todos os seus colegas em sacos pretos. Lágrimas de raiva e medo picaram meus olhos. Eu estava encurralada. — Então o que você quer de mim? — Eu sussurrei. — Vou viver escondida no seu bolso para sempre? O sinal abriu. Juan acelerou, mas dessa vez o movimento foi suave. Calculado. — Não — ele disse. — Precisamos tirar o alvo das suas costas. Precisamos provar para eles que estão errados. — Como? — Eles acham que você é minha amante. Minha fraqueza — ele olhou para mim de soslaio. — Precisamos mostrar a eles que você é minha inimiga. Eu franzi a testa, sem entender. — Você queria escrever uma matéria, Lara. Você queria expor o "Tirano dos Portos" — a voz dele endureceu. — Faça isso. Eu pisquei. — O quê? — Escreva a matéria — ele ordenou. — Use tudo o que você tem. Invente o que não tem. Pinte-me como o monstro capitalista que seu editor quer. Diga que sou arrogante, corrupto, que meus planos de revitalização são uma farsa para encobrir demissões em massa. — Mas... isso é mentira — eu gaguejei. — Eu vi os planos reais. Eles são bons. — Dane-se a verdade! — Ele gritou, batendo no painel. — A verdade vai te matar! Se você me destruir publicamente, se você se tornar a jornalista que mais me odeia nessa cidade, ninguém vai acreditar que você é minha amante. Você deixa de ser uma alavanca e passa a ser apenas um incômodo. E ninguém sequestra um incômodo. Eu olhei para ele, tentando processar a insanidade do pedido. Ele estava me pedindo para destruir sua reputação. Para desfazer o trabalho que ele parecia tão orgulhoso em me mostrar na noite anterior. Tudo para me salvar. — Você vai destruir sua imagem — eu disse. — As ações vão cair. Os investidores vão entrar em pânico. — Eu lido com essa besteira toda — ele disse, com aquela arrogância inabalável voltando. — Eu posso reconstruir uma reputação. Não posso ressuscitar você. O carro começou a desacelerar. Olhei pela janela e vi a Torre Tenorio se erguendo como uma agulha de vidro contra o céu cinza. A fortaleza dele. Minha prisão. — Temos um acordo, Lara Duarte? — Ele perguntou, manobrando para a entrada da garagem subterrânea, onde seguranças armados já esperavam. — Você vai ser a minha maior inimiga? Olhei para a arma. Olhei para o perfil duro e implacável do homem que me beijou com fogo e agora negociava minha vida com frieza. Eu o odiei. Odiei por me meter nisso. Odiei por ter razão. E odiei porque, mesmo agora, uma parte estúpida de mim queria que ele dissesse que eu era importante, não apenas um problema a ser resolvido. — Sim — eu disse, minha voz amarga como fel. — Eu vou fazer São Pietro te odiar, Juan Tenorio. Ele parou o carro na vaga reservada. Desligou o motor e olhou para mim. Não havia triunfo no rosto dele. Apenas a exaustão de um general em guerra. — Ótimo — ele destravou as portas. — Comece a digitar. Você não sai daqui até que eu seja o homem mais odiado do Brasil.
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