Capítulo 3: Don Juan

1121 Words
Meu assistente, Miguel, desapareceu entre as lápides molhadas com a eficiência silenciosa de um fantasma. Um bom funcionário, que entende que uma ordem é absoluta e imediata. Meu foco, livre da distração da jornalista, retornou ao homem que ainda fervia na minha frente. Capataz Batista. A chuva fina e fria grudava mechas do seu cabelo grisalho na testa. O rosto largo estava congestionado de um vermelho furioso, a jugular em seu pescoço de touro pulsava visivelmente. Ele respirava com força, como um animal prestes a atacar. Patético. Toda aquela emoção. Todo aquele descontrole. Era o mesmo m*l que levou meu pai à cova. "Rapaz." A palavra ecoava na minha cabeça. Não era a primeira vez que ele usava esse tom, mas foi a primeira vez que ele o fez em público, no meu dia de coroação. Eu podia sentir os olhos dos outros. À minha esquerda, Don Afonso Castro, o patriarca do Clã Castro, não fazia esforço para esconder seu sorriso de escárnio. Ele e meu pai eram da velha guarda; para ele, eu era uma ofensa. À minha direita, Don Héctor Guerrero, o líder dos cassinos, observava com a quietude de uma serpente, seus olhos escuros calculando o quanto ele poderia lucrar com a minha fraqueza. Eles não estavam em um funeral. Estavam em um teste. E Batista era a ferramenta que eles usavam para me cutucar. — Você me ignora? — Batista rosnou, o vapor saindo da sua boca. Ele deu um passo à frente, quebrando a distância sagrada que separa um subordinado do seu Don. Eu permaneci imóvel. — Você me ignora... por um r**o de saia? — Ele cuspiu as palavras. — No funeral do seu pai? Estamos falando do sangue da família, do futuro do Clã, e você está pensando com a cabeça de baixo, rapaz? A insolência era tão espessa que eu podia prová-la, tinha gosto de ferro e lama. E então, cego pela própria raiva, Batista cometeu o pecado capital. Ele me tocou. Sua mão pesada e grossa agarrou meu braço, por cima do tecido italiano do meu terno. O aperto não foi feito para machucar; foi feito para me controlar. Para me parar. O mundo inteiro parou. Eu, não. O som da chuva. O choro falso da minha prima. Os motores dos carros esperando no portão. Tudo desapareceu. Tudo o que existia era a sensação daquela mão imunda, os dedos de um Capataz, violando meu espaço. Contaminando minha autoridade. Meu pai teria gritado. Ele teria empurrado Batista. Teria havido uma briga de cães enlameados no meio do cemitério. Teria sido barulhento, emocional e, acima de tudo, deselegante. Eu não sou meu pai. Não puxei o braço. Eu, lentamente, baixei meus olhos. Olhei para os nós dos dedos dele, brancos pela pressão, amassando o tecido preto do meu sobretudo. Depois, levantei meu olhar. Encontrei os olhos dele. Os meus olhos. Os olhos verdes que minha mãe me deu. Eles não viram raiva. Viram apenas o vácuo. — Tire a mão de mim, Batista — minha voz não foi um sussurro. Foi uma ordem, clara e gelada, carregada pelo ar úmido. Por um segundo, ele pareceu confuso, pego entre a fúria e o instinto. Mas ele tinha ido longe demais para recuar. — Não até você me escutar! — Ele insistiu, o desespero começando a se infiltrar em sua voz. — Eu não vou deixar um playboy que nem você destruir o que Don Diego... Eu não o deixei terminar. Eu parei de olhar para ele. Minha atenção se desviou, passando por cima do ombro de Batista, e encontrou outro homem parado a alguns metros de distância. Um Capataz mais jovem, Roca. Um homem leal a mim, ao sangue novo. Não aos velhos. — Roca — meu tom de voz não mudou. Roca se enrijeceu. O silêncio no cemitério tornou-se pesado, absoluto. A chuva parecia temer fazer barulho. — A rota do Rio de Fevereiro é sua — eu disse, ainda olhando para o jovem da minha idade. — A partir de agora. Batista congelou. A mão dele, a mão que ainda estava no meu braço, afrouxou. Ele não entendeu. Sua mente, lenta e sobrecarregada pela raiva, não conseguia processar. — O... o quê? — Ele gaguejou, finalmente soltando meu braço, como se o terno de repente o tivesse queimado. Só então eu me virei para ele. — A rota, Batista — eu disse, como se falasse com uma criança. — Você me informou que ela está parada. Claramente, é um problema que você não é mais capaz de gerenciar. — Aquela rota é minha! — Ele gritou, a voz falhando. — Eu a construí com seu pai! Eu... — E agora você a perdeu — eu o cortei. — Obrigado pelos seus anos de serviço. Foi mais doloroso que uma bala. Um tiro teria sido mais honroso; teria sido uma morte de soldado. Isso foi um apagamento. Eu o transformei de Capataz a ninguém. Na frente dos seus pares. Na frente dos Dons rivais. Olhei de soslaio. O sorriso de Don Afonso Castro havia desaparecido. Ele entendia essa linguagem. Don Héctor Guerrero levantou uma sobrancelha, um brilho de cálculo em seus olhos. A lição não foi apenas para Batista; foi para eles. Os outros capatazes? Eles agora estudavam a lama em seus sapatos com muito interesse, evitando olhar para Batista como se ele tivesse contraído uma praga. Ele já era um fantasma. — Você... você não pode! — O desespero de Batista era feio. — Eu sou leal! Don Diego... — Don Diego está morto — apontei para o caixão que terminava de ser enterrado. — E a lealdade a um homem morto é apenas uma memória. E memórias, Batista, não me trazem dinheiro. Então eu me virei, ajeitando a manga do meu terno onde ele havia tocado, limpando a poeira das suas mãos sujas do passado. Não esperei por uma resposta. O assunto estava encerrado. Passei por ele, meus sapatos chapinhando na grama molhada. Minha mãe me observava. Havia um leve, quase imperceptível, arco em seus lábios. A aprovação dela foi o único adeus que importava. Deixei Batista parado na lama, sozinho entre os mortos, humilhado publicamente. Meus seguranças, que observavam tudo em silêncio, correram para abrir a porta do Rolls-Royce blindado que me esperava. O cheiro de couro novo e madeira polida me recebeu, limpando o cheiro de morte e chuva da minha roupa. Miguel já estava no banco da frente, ao lado do motorista, com o telefone na mão. Eu bati a porta, e o mundo exterior ficou mudo. — Para a empresa — eu disse, endireitando minha gravata. — Temos uma reunião de diretoria. Era hora de mostrar ao lado legalizado do meu império quem estava no comando.
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