Capítulo 2: Ato 1 - O Trono de Sangue e Rosas – Don Juan

1003 Words
A chuva caía sobre São Pietro. Pingos longos e finos, descendo um vasto caminho lá das nuvens cinzas para molhar o terno de quem não se preparou para a ocasião. O guarda-chuva me protegia bem. Naquele dia, eu acordei sabendo que até o céu iria chorar. Don Diego Tenorio estava morto. Meu pai não era um homem r**m. Era o pior. Se o céu chorava, era porque o inferno acabara de receber um bom soldado para lutar na batalha do fim dos tempos. O céu chorava de medo. Esse pensamento me fez sorrir. Eu nunca chorei por causa de Don Diego, e não iria começar agora. Diante de tantos ratos que poderiam me comer vivo. No cemitério, o cheiro de mato subia conforme a chuva o molhava, uma grama feia e m*l aparada, um lugar de descanso desleixado para um homem que cuidou tão bem dos seus negócios. Mesmo ao ar livre, eu me sentia sufocado diante de tanta gente. O cheiro de lírios caros misturado ao perfume de centenas de hipócritas me dava náuseas. Políticos, juízes, rivais. Todos prestando suas "homenagens" ao falecido, como se não fossem aproveitar qualquer vacilo dele em vida para jogá-lo naquele mesmo caixão. Eles eram cães assustados da pior espécie, com o rabinho entre as pernas e as orelhas abaixadas para não receberem um tiro na testa. Malditos, eles o temiam como se fosse o próprio d***o. E agora, olhavam para mim. Mantive o rosto impassível o quanto pude, ocultando meu nojo, uma máscara de luto que pratiquei diante do espelho do meu quarto depois que recebi a notícia da morte. Até chegar ali, diante da cova para ele ser enfim enterrado, uma eternidade pareceu ter passado. Sim, meu pai estava morto. Não por uma bala, não por uma traição honrada em batalha, mas por um ataque cardíaco. Seu coração, fraco e sobrecarregado, simplesmente parou. Uma morte sem glória para um homem que comandou esta cidade por tato tempo. Eu nunca mais o veria, mas que falta faria? Ele m*l falava comigo, seu único filho, herdeiro de tudo o que ele construiu sozinho... Pensando bem agora, talvez eu fizesse o mesmo se estivesse no lugar dele. Velho cretino, fez com que eu concordasse com ele mesmo dentro de um caixão. Quase sorri, mas senti uma presença ao meu lado, mais fria que a chuva ao nosso redor. Minha mãe, Carmen Tenorio, aproximou-se com seu próprio guarda-chuva. Ela não olhava para o caixão de mogno sendo enterrado com pás de areia firme pelos funcionários do local. Olhava para mim, seus olhos verdes elétricos - os mesmos olhos que ela me deu - faiscando. Fagulhas de uma inteligência que quase sempre eu não entendia. — Eles acham que você é fraco, filho — o sussurro dela foi mais baixo que o choro falso de uma prima distante, mas cortou o ar como vidro. — Eles olham para o seu rosto, tão lindo, e veem uma criança. Mostre a eles o sangue Tenorio, Juan. Não decepcione o seu pai. Eu não respondi. Não dava para decepcionar um cadáver. Muito menos de um homem que, quando vivo, nunca esperou nada de mim. Ainda assim, eles veriam. Iriam me conhecer de verdade. No meu próprio tempo. Um homem corpulento, com o rosto marcado pelo tempo e violência dos negócios escuros da cidade, abriu caminho pela multidão. Capataz Batista. O mais antigo, o mais leal. Ao meu pai. Ele parou na minha frente, ignorando minha mãe. Seu terno preto parecia apertado demais nos ombros largos. Ele não ofereceu condolências. — A rota de Rio de Fevereiro está parada — sua voz era um rosnado baixo, feito para ser ouvido apenas por mim. — Seus inimigos cheiram sangue no ar, rapaz. Rapaz. A insolência. — Espero que seus ternos caros não manchem — ele me avaliou de cima a baixo, o desprezo evidente. Eu o encarei. O silêncio se esticou. A tensão entre nós era tão espessa quanto o vidro blindado do meu carro. Eu podia sentir os olhos dos outros capatazes em nós. Até dois Dons de outros clãs observavam. Batista achava que eu era um playboy. Um herdeiro mimado que só sabia gastar o dinheiro que homens como ele ganhavam com sangue. Ele estava prestes a ter uma educação muito dura. Mas, naquele exato momento, minha atenção foi roubada. Do outro lado do cemitério, perto de uma estátua de um anjo, uma figura se destacava da multidão de ternos escuros. Uma mulher. Jovem, talvez vinte e poucos anos. Ela não estava de luto; estava trabalhando. Segurava um bloco de notas mesmo na chuva, os olhos castanhos varrendo o cenário com uma intensidade ingênua, uma fome que eu reconhecia. Uma jornalista. Ela conseguiu furar a segurança que colocamos na entrada. Corajosa. Ou estúpida. Ela parou um dos políticos, fez uma pergunta. Ele balançou a cabeça, desconfortável. Ela insistiu. Havia uma teimosia nela, um fogo idealista que era quase... adorável. E novo. Intocado. Virgem... Eu senti aquela coceira familiar sob a pele. A caçada. — ...e se você não agir, o império do seu pai vai... — Batista ainda estava falando. Miserável. Eu levantei um dedo, sem olhar para ele. O gesto foi pequeno, mas foi o suficiente para calar a boca do capataz no meio da frase. O choque em seu rosto foi quase cômico. Chamei meu assistente, que se materializou ao meu lado. — Quem é ela? — Perguntei, meu queixo apontando discretamente para a jornalista. Meu assistente seguiu meu olhar. — Não estava na lista, Don Juan. — Eu não perguntei se ela estava na lista. Eu perguntei quem é ela — minha voz saiu baixa, perigosamente calma. — Descubra tudo. Onde ela mora. Onde ela trabalha. E o mais importante... — Sim? — Com quem ela se deita. Glossário: Capataz (espanhol): Literalmente "capataz" ou "supervisor". No universo dos clãs de origem espanhola, é o termo usado para o homem de confiança que atua como líder de equipe, gerenciando uma operação específica ou um território (uma plaza) para o Don.
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